Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Sobre a função social da escola nos tempos de Getúlio

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Em 10 de novembro de 1937, através de um golpe de Estado, Getúlio Vargas instaura o Estado Novo, ou Terceira República, que vigorou até 31 de janeiro de 1946 | Crédito: Foto: Reprodução

O sertão é o lugar onde o Estado se faz sentir, mas nunca se faz entender

Por João dos Reis Silva Júnior

À maneira de Guimarães Rosa

O sertão não sabia de leis, mas sentia o peso delas no couro. Quando Getúlio Vargas se fez dono do tempo do Brasil, parecia que até o vento se alinhava em fila. Chamavam-no de Pai dos Pobres, e os pobres, de tão cansados, acreditavam. O povo via nele um mandacaru: espinhento, mas dando flor no deserto.

A vida foi se ajeitando conforme a vontade do Estado, esse bicho novo que falava por papel carimbado, farda engomada e discurso de rádio. O Estado dizia querer o bem do povo, e o povo dizia amém. Mas o bem que vinha era o mesmo de sempre: repartido em pedaços desiguais.

Na cidade, o barulho das máquinas crescia. Fumaça preta, cheiro de graxa e esperança misturada com poeira. O operário aprendeu a bater o ponto, a ganhar o pão certo e a perder o tempo livre. Ganhou carteira assinada, mas o coração continuou preso. O trabalho era mandinga: dava o que tirava.

Na escola, o menino aprendia a ler, mas não a entender. Escrevia o nome, mas não o destino. A professora falava bonito do Brasil grande e ordeiro, e as crianças acreditavam no futuro de farda. A lição era clara: cada um tem o seu lugar.

O rádio repetia a voz grave do presidente, que soava como trovão distante. O povo, mesmo sem ver a chuva, aplaudia. Falava-se de progresso, e quem duvidava era ingrato. A palavra pátria andava de braço dado com o medo, e o silêncio era obrigatório.

Nas vilas, o sindicato chegou feito promessa. Um homem de paletó veio explicar que agora o trabalhador tinha direitos. Mas o papel vinha carimbado com o nome do governo. O povo aprendeu que podia reclamar, desde que reclamasse baixinho.

As fábricas cresciam, os livros se enchiam de palavras novas, mas o chão seguia rachado. O campo ainda rezava para chover, e a cidade, para vender. O progresso era bicho arisco: quando se deixava pegar, já mordia.

No meio disso, o Estado parecia rezar também, com voz de quem benze e vigia. O Brasil se modernizava por fora e se amarrava por dentro. As leis vinham como rezas: quem não acreditava era pecador. O trabalhador ganhou carteira, o estudante ganhou hino, o soldado ganhou ordem. Mas a fome não ganhou descanso.

O rádio, o jornal, o palanque — tudo dizia que o povo era o coração da nação. Só que o coração batia preso. O operário produzia, o patrão lucrou, o governo mediava. A função social era unir o país pela obediência.

E o sertão via de longe. O Estado era vento que passava, deixando poeira e promessa. A escola continuava sem telhado, o hospital sem remédio. O que mudava era o retrato na parede: Getúlio sorrindo, de terno e chapéu, com olhar de quem sabe o que o povo precisa — e o que não deve saber.

O tempo passou, e o povo aprendeu que direito dado é fio curto: segura hoje, escapa amanhã. Que o progresso é coisa que se diz, mas pouco se reparte. Que liberdade sem terra e sem escola é palavra bonita demais pra quem tem fome.

O sertão entendeu, no seu silêncio comprido, que o Estado não é bicho de fé, é bicho de mando. Promete, regula, consola. E o povo, acostumado, agradece.

Mas há sempre um fiapo de rebeldia guardado no fundo do peito. O mesmo que fez o vaqueiro cantar quando o gado morreu de seca. O mesmo que fez o operário sorrir no meio do barulho das máquinas. Porque o Brasil, mesmo amarrado, sempre sonhou em ser livre.

(E Guimarães diria, de olhar entre o mistério e o riso: o sertão é o lugar onde o Estado se faz sentir, mas nunca se faz entender.)

João dos Reis Silva Júnior é professor titular da Universidade Federal de São Carlos.

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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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