Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Prefácios que testemunham trajetórias de pesquisas

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A principal função do autor de um prefácio é a recomendação

Por Giselle Martins Venancio

Os prólogos, introduções, apresentações, advertências ou prefácios, independentemente de como são nomeados, ocupam um lugar único em um livro: respondem à necessidade de comentário antecipado do texto, de atualização do debate no qual este se insere, de reflexão sobre a historicidade de sua publicação, entre outras funções. 

É o espaço em que se estabelece a primeira relação com o leitor e onde o texto se anuncia. Por essas várias incumbências, os prefácios já foram nomeados como “para-raios”, por ser também o lugar onde se pode neutralizar as críticas ou antecipá-las.

A principal função do autor de um prefácio é a recomendação. Nem sempre, contudo, essa recomendação é tão explícita. Muitas vezes, ela está implícita na própria presença do prefaciador. Se o prefaciador é quem recomenda, sua assinatura é o que legitima o valor de uma obra. O prefaciador é, portanto, alguém cuja notoriedade intelectual é amplamente reconhecida.

Luciano Mendes Faria Filho prefaciou muitas obras. Este livro evidencia sua trajetória como prefaciador de diversos livros. Organizados de forma cronológica, os prefácios testemunham, ao mesmo tempo, os modos como a história da educação foi sendo tecida por importantes grupos de pesquisas, principalmente aqueles sediados na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Os primeiros textos datam de 2003, os últimos de 2025.  Portanto, são duas décadas de investigações inovadoras que abordam múltiplas temáticas, como a história das instituições escolares; as diversas práticas que configuram a escola; o estudo de trajetórias pessoais de professores e a memória de alunos; as políticas educacionais; a história dos grupos escolares; as chamadas “escolas modelo”; a história das disciplinas escolares; a história da educação de jovens e adultos; a história do ensino técnico no Brasil; as análises sobre livros didáticos; e até mesmo a reflexão sobre o memorial acadêmico de uma professora.

Ademais, há outras duas questões relevantes a serem destacadas nos prefácios, mesmo que nesse gradiente de importância esteja implícita a minha própria arbitrária avaliação. A primeira delas é o realce que Luciano estabelece para as relações simétricas evidenciadas por Carla Simone Chamon, ao analisar a viagem de estudos aos Estados Unidos realizada por Maria Guilhermina Loureiro de Andrade. 

O prefaciador anota que o trabalho em foco acentua “tanto o que a professora brasileira traz de sua viagem, quanto o que ela leva, promovendo uma inflexão nas leituras que sublinham uma prática comum de se acentuar a importação de ideias. A segunda, diz respeito ao prefácio do livro em homenagem a Lúcio Kreutz, texto que ganha, do autor, uma conotação mais pessoal e emotiva.

No universo dos textos apresentados aos leitores por Luciano Mendes são também significativas as múltiplas fontes mobilizadas nas pesquisas: documentos que compõem a coleção do Arquivo Público Mineiro, o acervo da Escola Normal de São Carlos, documentos referentes às escolas técnicas de várias regiões do Brasil, bem como uma série de outros testemunhos e registros dos mais variados tipos.

Os prefácios escritos por Luciano Mendes referem-se, como se vê, a uma multiplicidade de temas, referências documentais e abordagens metodológicas. Trazem pistas sobre os contextos históricos que conformam a escrita de cada um dos textos e dos livros, sugerem a recepção esperada e abordam os estímulos ou tensões da publicação dos volumes analisados. São textos sobre textos, um ponto de entrada privilegiado para se compreender as reflexões elaboradas pelos autores em tela.

Volumes que agrupam prefácios não são muito comuns no mercado editorial, porém eles são um convite a ler melhor, a compreender o espaço liminar entre os leitores e as obras. Sugerem um exercício ampliado de atenção que valoriza os modos por meio dos quais os textos que viriam a ser lidos foram anunciados aos leitores. 

Assim como o Prólogos, com um prólogo de prólogos, de Jorge Luis Borges, e O livro dos prefácios, de Sérgio Buarque de Holanda, este livro, em que Luciano Mendes Faria Filho reúne os prefácios que assinou, manifesta a importância intelectual do prefaciador. 

A relevância de sua trajetória torna este volume um convite a um retorno aos limiares: aqueles espaços em que os textos se apresentam antes de começar, e onde, talvez, tenha lugar um dos testemunhos mais reveladores dos avanços das pesquisas na área da História da Educação no Brasil.

Nota: uma versão expandida deste texto foi publicada como Prefácio ao livro Prefácios: livros, leituras e mediação cultural (Editora Escola Cidadã,2025), a ser lançado na terça-feira, dia 28 de outubro, durante a Reunião Anual da ANPEd, a ser realizada na UFPB.

Giselle Martins Venancio é professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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