Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Infância e autoficção: ressignificando a ditadura

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Crianças são conduzidas em fileiras por policiais durante a ditadura
Crianças são conduzidas em fileiras por policiais durante a ditadura | Crédito: Domínio Público

A literatura é terreno fértil, criativo e original para driblar censuras

Por Carmem Teresa Elias 

Uma das questões sérias interligadas ao contexto da ditadura brasileira dos anos 60 e 70 e pouco abordada na literatura diz respeito à interseção da criança da época na história. Nos anos de chumbo, poucas mulheres brasileiras, ao contrário das Mães de Maio argentinas, ousavam exclamar em praça pública o grito e a luta por seus familiares desaparecidos, salvo por exceções como a atuação de Eunice Paiva. Não raro, mães, filhas, esposas de desaparecidos e mortos tinham por única resposta e ação o silêncio e a solidão. 

A literatura, por outro lado, é terreno fértil, criativo e original para driblar censuras, expor ângulos imperceptíveis da realidade, mimetizar pessoas e situações, metaforizar sentimentos e reações, além de denunciar crimes e ações extremas. 

Nesse contexto, enquanto criança nos anos 60, um episódio marcou minha memória pessoal: uma colega de turma, de não mais que sete ou oito anos, sofreu por parte da comunidade escolar o que hoje seria classificado como “cancelamento” ou bullying porque seu pai fora morto pelo governo militar. Tanto a mãe da menina como a criança foram vítimas de segregação, preconceito e apagamento. 

Em 1968, então com sete anos, cursando Escola Primária, recebi a notícia, contada a nós, crianças, sem maiores explicações pela professora, que o pai de uma colega de turma havia morrido em São Paulo. Nos dias subsequentes, porém, passaram a ocorrer diversos comentários sussurrados à porta da escola de que o senhor havia sido assassinado como subversivo. 

As mães eram as principais vozes a comentar sorrateiramente o episódio, o que despertava perplexidade nos alunos, que nada sabiam do que se tratava.  A reação de algumas mães na entrada e saída da escola consistia de avisos aos filhos: “ela é sua amiguinha, mas é melhor você não ficar perto dela, não”.  

Tais falas, que não eram raras, falas de preconceito, medo, acusação enviesada e desumanização, visavam uma segregação da filha do pai assassinado. O que ficava claro para nós, crianças, era o desejo das famílias de que nos afastássemos da amiga. A perplexidade foi o sentimento que mais transcorreu nas nossas mentes infantis diante da incompreensão. O fato, com o tempo, revelou dois aspectos graves:  a tentativa de famílias de descarte da criança e a incapacidade de convivência com o dano psicológico em toda a turma. 

Ao longo do meu processo de amadurecimento, a perplexidade cedeu voz a uma necessidade minha de reestruturar aquela situação que permaneceu nebulosa. A opção encontrada por mim foi elaborar o fato na forma de um conto ficcional, a fim de apresentar publicamente a denúncia de como o preconceito político era implantado nas crianças e também restaurar alguma dignidade ao drama da filha. Publicado em 2016 no livro Perdidos Atávicos, pela Editora Scortecci, o conto “Dente de Ouro”, constitui a minha reconstrução ficcional com a amiga de quem nunca mais soube. 

Em épocas de silenciamento, de  muitas perguntas e poucas respostas, o que fica camuflado e indizível adquire espaço nos assombros da mente. Aquela situação ficou cravada na minha memória dolorosa até que uma forma de elaborar o sintoma fosse posta em prática: a escrita do fato ocorrido e vivenciado. O elemento simbólico precisava se fazer nítido, a crueldade precisava ser exposta no vulto que tomou conta da mente: o caminho era a literatura de ficção como metáfora do fato histórico. 

Os pactos ficcional e autobiográfico precisavam compor uma um pacto oximórico, conforme definido por JACCOMARD (1993), ou seja, um contrato de leitura característico da autoficção, onde se estabelece um diálogo contraditório com o leitor, ao combinar a expectativa de veracidade (pacto autobiográfico) com a possibilidade da invenção e ficção (pacto romanesco). 

A autoficção explora a fronteira entre realidade e ficção, cria um pacto que não se encaixa completamente em nenhum dos dois pactos tradicionais, o que resulta numa situação oximorônica, ou seja, que atordoa pela ambivalência e até ambiguidade. 

Para simbolizar os relatos de tortura, foram empregadas cenas descritivas do abate de um frango acompanhado de indagações como “será que ele gritou ao ser abatido?”. A tortura é descrita pelas cenas em que a mãe, ao preparar almoço para a família, esquarteja as partes do animal com as mãos, torce-lhe as coxas, sente os ossos estalarem, sente a gordura melada da pele.

Como então definir as personagens recriadas? Serão sintomas externos de uma sociedade que questiona seus valores e atos passados? Em Psicanálise, o sintoma é a verdade que insiste. Já o denominado sinthoma é a invenção que a suporta. Ou seja, sob o ponto de vista psicanalítico, a transposição da autoficção para a ficção de terceiros personagens provém de uma verdade que não se cala e retorna repetidamente seja como dor ou possibilidade de não mais alimentar o sofrimento e modificar a expressão daquele sintoma por meio de uma. 

Em outras palavras, o conto expõe um sofrimento infantil pessoal da autora, que é um sujeito externo aos fatos, e que trata esse sofrimento como algo transmutado em conflito familiar e social de personagens, estas, sim, sujeitos internos ao fato, ressignificando o fato histórico em si em um  canal literário de conscientização e mudança social. 

Carmem Teresa Elias  é docente, pesquisadora e palestrante em Literatura Comparada e Análise de Gêneros Textuais, com pós-graduação em Letras pela Universidade de Cambridge, Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Universidade Gama Filho.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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