Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

A ditadura Vargas na revista Era uma vez…

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Página da ‘Revista Era uma vez …’ | Crédito: Crédito: Blog do jornalista Marcos Massolini

Todo projeto de escrever e ler é uma experiência de lembrar e esquecer

Por Edson Nascimento Campos

A pesca milagrosa

Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca incorporou-a. O que salva então é ler “distraidamente”.  (Para não esquecer – Clarice Lispector, p. 34)

A Revista Era uma vez… ou, Revista de Vovô Felício para os seus netinhos, foi um periódico quinzenal que circulou de 15 de abril de 1940 até 1947, com direção editorial de Vicente Guimarães, sob o pseudônimo de Vovô Felício – o avô que é a felicidade de qualquer netinho – e propriedade da Gráfica Queiroz Breyner, de Belo Horizonte.

O periódico teve um projeto de autor e um projeto de leitor – um autor-modelo e um leitor-modelo – enraizado na expectativa de que crianças e jovens lessem e escrevessem textos, orientando a produção semiótica do significado por um perfil de sanidade que faz de todo texto o que se pode enquadrar como texto são em mente sã.

Vale lembrar que a bandeira da sanidade de um corpo são em uma mente sã, preconizado pela Educação Física, se articula com o pressuposto sociopolítico de que ser forte seria uma prática determinante a serviço da constituição de um Brasil forte.

Já o texto para os netinhos deveria ser a expressão que daria corpo a certa mente: um espírito sadio, ou seja, obediente, submisso, subordinado, fiel aos compromissos das relações sociais previstas por uma ordem industrial que fazia a modernização do Brasil.

A empreitada teria um perfil autoritário, centralizador, de agentes sociais, políticos, comprometidos com a direção do perfil econômico em movimento acentuadamente conservador. Estávamos diante de uma modernização conservadora no Brasil nesses anos da ditadura Vargas, e  ler e escrever textos eram práticas sociais determinadas pela direção intelectual e moral de vozes  que hierarquicamente determinariam a direção semiótica dos textos, dos leitores e escritores: crianças e jovens do Brasil desses anos de 1940.

Para se pensar o projeto semiótico da linguagem de um texto são em mente sã é preciso que se oriente o olhar para a observação da posição enunciativa do eu e do outro, tomando o Vovô Felício como o eu, agente ficcional, que dirige a cena da produção semiótica do significado. E o alvo é o netinho, o agente ficcional, situado no lugar do outro.

Nesse cenário, o Vovô se define para os netinhos como o Sol que articula os planetas em torno de si, sem o qual os netinhos, na construção ficcional de planetas não teriam o movimento da leitura ou da escrita. Estamos diante de uma construção metafórica que qualifica a especificidade da relação que dirige a produção da linguagem: uma cena que naturaliza a relação, camuflando a dimensão social, histórica, das relações que produzem significados.

Uma foto na edição da revista de 15 de maio de 1940 traz o presidente Getúlio Vargas em tradicional clube esportivo de Belo Horizonte, na posição de sol, ou centro, rodeado de pequenos atletas, planetas de corpo e alma. Na mesma revista, em outra foto, o Vovô Felício aparece em tradicional educandário católico, feminino, de Belo Horizonte: no centro, o sol, o vovô, rodeado de alunas, os planetas da relação.

É nítida, pois, a posição centralizadora da produção semiótica dos significados em que se mostra nítido o esforço de universalizar a natureza das relações sociais, históricas, com aquele ar que está em movimento a busca de uma certa hegemonia moralizadora. E aí o espaço das entrelinhas vai sendo invadido e ocupado pela palavra que esmagaria qualquer veleidade que viesse a ser transformadora.

Só era legítima a palavra que reproduzisse os espaços semióticos do Estado Novo: um projeto de um novo tempo em contínuo amanhecer reprodutor. E os netinhos vão registrando o ciclo de um sol que movimenta os planetas.

Linguagem da memória

Nos limites desse projeto, o esforço pela manutenção do significado opera no sentido de incluir todos aqueles que a ele se subordinam e de excluir todos aqueles que operam fazendo a significação resvalar para a esfera semiótica do sentido que é, a ocorrência que concretiza a manifestação da diferença em relação ao que se postula como semelhante. 

Aqui, o sentido é expressão que nega a semelhança que institui a prática da linguagem monológica a invadir o espaço das entrelinhas, cobrindo esse espaço com o significado socialmente desejável. Mas a diferença dialógica estabelecida com o sentido está viva no silenciamento de todos aqueles que aí se instauram como alteridade.

Com esse texto em que se procura mapear semioticamente a função social da linguagem nos anos 1940, nos limites do projeto da Revista Era uma vez …  o que se tem é uma prática de linguagem da memória em que a lembrança procura mapear a significação daquilo que se projeta como experiência social legítima de escrever e ler.

Por outro lado, o que se tem, ainda, é uma experiência de memória em que no meio do que se lembra para permanecer, há aquilo que se apaga para ficar no esquecimento. E o que fica no esquecimento não está morto. Está vivo como experiência que temos com o escrever e o ler que precisamos efetuar “distraidamente”: aí moram as releituras da história de quem investiga e pesquisa em busca de sentidos que requalificam as significações no corpo dos significados estabelecidos.

Vale lembrar que todo projeto de escrever e ler é, simultaneamente, uma experiência de lembrar que traz no seu bojo uma experiência de esquecer.

Edson Nascimento Campos é professor do quadro de aposentados, inativos, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. É licenciado em Letras pela FALE (UFMG). Tem mestrado em Educação pela FAE (UFMG) e doutorado em Educação pela FEUSP.

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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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