Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Memórias de meu pai

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Na foto: Luciano Mendes e seu pai | Crédito: Arquivo pessoal

Em Pocrane, nossa casa distava trezentos metros da casa dos meus avós

Por Luciano Mendes

Uma memória evoca outra memória, que evoca outra história, que evoca emoções, num sem fim, ou sem fundo, de lembranças e esquecimentos tantos. E, pior ou melhor ainda, é que as memórias que nos atravessam e mobilizam não são apenas as nossas, sobre acontecimentos vividos ou inventados. As memórias alheias nos despertam, fazem arrepiar ou encolher o corpo, e disparar o coração.

Outro dia, lendo o Mário Baggio, Vozes para tímpanos mortos (Litteralux,2025), me deparei com um pequeno conto – O som da memória – em que o narrador dizia que a lembrança mais vívida e forte que tinha do pai vinha pelo som do jorro farto que vinha do banheiro quando o pai urinava. Ao ler isto, me vi pensando em minhas lembranças com meu pai que, ao contrário daquele do narrador, ainda vive e curte bastante os seus 94 anos bem vividos.

Ao longo de mais de seis décadas de convivência com meu pai as lembranças abundam, ainda que, certamente, não se comparem com os esquecimentos que foram necessários ao viver. Sempre que puxo os fios da memória, duas lembranças suplantam as outras e, fortes, me acompanham da infância até o momento presente. Nunca pensei se uma delas é mais forte do que a outra. Talvez isto nunca tenha sido necessário, mas duvido que seja por isto, porque, neste justo momento, quando penso nelas não consigo fazer uma classificação que me pareça aceitável.

Quando eu era criança, e durante quase toda a sua vida, ao longo dos dias da semana, meu pai pouco parava em casa. Não era raro ele ficar dias fora de casa, a trabalho, mas o mais comum era ele regressar do trabalho, ou melhor, dos trabalhos, no final do dia.

Pocrane

Digo dos trabalhos porque suas lides incluíam, sistematicamente, a fabricação de tijolos, a plantação de arroz e milho em terrenos alheios, a fabricação de rapadura e farinha, a “retirada” de madeira de lei para cerca ou para a construção e o cuidado com alguns poucos animais e muitas plantações existentes no pequeno terreno em que morávamos, dentre muitos outros ofícios.

Em Pocrane, cidade onde morávamos, no interior de Minas, nossa casa distava mais ou menos uns trezentos metros da casa dos meus avós paternos. E como meu pai tinha uma relação muito especial com eles, mas sobretudo com meu avô, ele, sempre que podia, caminhava até lá. E, não raramente, eu o acompanhava.

Em minhas lembranças, esta caminhada se dava sobretudo no final da tarde, depois que meu pai chegava do trabalho nas roças que ele mantinha, à meia ou à terça, com vários de nossos vizinhos. Assim, geralmente saíamos ainda com o dia claro e voltávamos, invariavelmente, com a noite já instalada.

Minha lembrança não é, propriamente, das visitas, mas sobretudo do transcurso entre as casas. E elas capturam o meu esforço por acompanhar os passos do meu pai. É que eu, sendo muito miúdo, com as pernas e passos pequenos, não conseguia acompanhar as longas pernas e passos de meu pai. Assim, ocorria sempre a mesma coisa: saíamos juntos mas, logo em seguida, meu pai se distanciava.

Isto fazia com que eu tivesse, poucos minutos depois, que dar uma corridinha para chegar até onde ele estava para, em seguida, vê-lo se afastar de novamente, numa contínua alternância entre aproximação e distanciamento entre nós dois.

A outra minha lembrança é bem diversa desta, ainda que guarde a mesma situação de retorno do meu pai à casa no final da tarde.

Mas a lembrança que guardo na memória, neste caso, refere-se a uma situação muito singular: trata-se das vezes em que meu pai estava plantando ou colhendo arroz plantado em regiões de muita água. Nestes dias, meu pai geralmente usava uma daquelas botas de borracha que, em tese, o impediria de ficar o dia todo com os pés molhados. Mas, a tese não funcionava porque a água era funda e o tal calçado servia mais para proteger os pés de algum acidente do que para mantê-lo seco.

Depois de um dia todo de trabalho, quanto meu pai chegava em casa, invariavelmente ele se sentava numa cadeira ou num pequeno caixote utilizado para guardar ferramentas (e, me lembro bem, balas e cartuchos de variados tipos de armas, apesar de em nossa casa não haver nenhuma delas) e pedia a gente para descalça-lo.

A minha lembrança advém do fato de que esta era uma operação apenas aparentemente fácil, sobretudo para mim. Devido à minha falta de forças e, sobretudo, mais tarde eu soube, ao vácuo criado quando o calcanhar começava a se desprender do fundo da bota, era preciso manobras e mais manobras para conseguir com que a operação terminasse. Muitas vezes, ainda que nem sempre, tudo isto envolvia brincadeiras e gozações entre os irmãos e as irmãs, com várias pessoas tentando obter sucesso.

Esquecimento é condição da memória

Eu sei que, por mais que nos lembremos, o esquecimento é uma condição da memória, e um dos seus sentidos. Por isso, a nossa memória é o corpo do tempo.

A não ser no vivido, o tempo não tem sentido, e a memória é sua morada. Atravessar os umbrais do tempo, da memória e da história, eis aí uma arte, assim como o morrer.

Por isso, escrevemos, às vezes sem saber, para elaborar o viver e o morrer; ou seja, para elaborar a gente mesmo; ou, lembrando Tom Zé, para vencer (ou elaborar) o medo.  

Palavrear o passado não evita o morrer, mas é um dos encantos do viver.

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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