Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Racismo na educação: contra quem você grita?

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“Queremos falar não apenas da aplicação das leis sobre educação para as relações étnico-raciais, mas também sobre como as instituições de ensino articulam e constroem pontes para uma educação de qualidade e antirracista", afirma Bruna Rodrigues
“Queremos falar não apenas da aplicação das leis sobre educação para as relações étnico-raciais, mas também sobre como as instituições de ensino articulam e constroem pontes para uma educação de qualidade e antirracista”, afirma Bruna Rodrigues | Crédito: Reprodução/ CUT

Nas instituições de ensino superior pessoas negras continuam subalternas

Por Cleiton Donizete Corrêa Tereza

No início de uma noite de trabalho, entrando na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, cruzei com um caminhão de coleta de lixo. Em geral observo admirado a labuta dos coletores. É um serviço exaustivo e perigoso. Exige muito do corpo (e da mente): pegar peso, correr, saltar, salários baixos, risco de contaminação, desconsideração social, etc.

Existem pessoas, como ficou notório no assassinato de Laudemir de Souza Fernandes em Belo Horizonte, que entendem inclusive que as vidas desses trabalhadores podem ser retiradas sem qualquer consideração, são desprezíveis. Não merecem ser lembrados, nenhuma condolência, não se sabe o nome, mas bem que o assassino branco pode virar personagem de séries milionárias, gerando interesses e comoção popular.

Nessa sociedade de consumo e descarte, percebi que os três homens uniformizados que recolhiam os sacos e jogavam no caminhão, antes de se jogarem atrás dele para seguirem uma curta viagem pendurados, deveriam ter entre 20 e 35 anos, todos negros. O motorista, com aquela feição carrancuda quase esperada, era branco.

Como educador, pesquisador e cidadão negro que explana, discute e investiga questões étnico-raciais, mas que se recusa a ser reduzido a professor de racismo, sempre me mantenho atento às relações étnico-raciais no cotidiano, nos mais variados âmbitos possíveis. E dois aspectos elementares, dos quais tratarei aqui, influenciam tantos outros, referem-se ao trabalho e à educação.

Neste caso, dos coletores na entrada da Universidade, fiquei pensando principalmente na hierarquia presente entre os próprios profissionais da limpeza urbana, sendo os que dirigem majoritariamente brancos e os que seguem a pé, geralmente negros. Quais dificuldades aqueles jovens homens negros enfrentaram que não lhes permitiu obter uma habilitação para dirigir caminhões?

Dificuldades financeiras, abandono escolar, restrições prospectivas, desconfiança em si mesmos? Talvez tudo isso junto e mais uma série de motivos, conectados centralmente ao marcador racial que estabelece e mantém desigualdades.

Motociclistas

Entre aqueles que conseguem uma carteira de habilitação para dirigir, temos hoje especialmente os motociclistas. Tem uma galera das quebradas que sonha em comprar uma moto!

Garotos que veem na aquisição do veículo uma forma de inclusão social, mas que podem encontrar nela sua desgraça. Semanas atrás uma colega professora comentou que, chegando em casa à noite, se deparou com um motociclista caído e gritando de dor na rua. Desnorteado, dizia repetidas vezes que tinha que pagar o aluguel. O jovem trabalhador negro acidentado foi socorrido e levado para o atendimento médico. Por sorte, não teve ferimentos mais graves.

Recentemente analisei um relatório de uma pesquisa da Fiocruz sobre violências letais à juventude, a pedido do Jornal da USP. De acordo com o levantamento, na atualidade, o fator de maior morticínio de jovens negros no Brasil são os acidentes de moto.

Neste 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, me pergunto se estamos mesmo preocupados com a questão do racismo, que estabelece um profundo desamparo a uma parcela significativa da população serviçal, explorada por outros, ou seguimos simplesmente discursando e gritando ao telefone quando a comida atrasa?

Porém, a desigualdade racial não fica apenas em breves incursões de precarizados na universidade – ou fora dela –, adentrado na expressão de coletores de lixo e entregadores de comida, insumos ou recebidinhos do mês, está em seu interior.

Políticas de inclusão

As políticas de inclusão têm avançado significativamente nas últimas décadas, é preciso reconhecer e valorizar. Neste sentido, um conjunto de leis foi sem dúvidas basilar, no entanto, há muito a fazer!

No interior das instituições de ensino superior, a posição das pessoas negras e seus plurais modos de ser (falar, sorrir, pensar, crer, festejar, discutir) continuam sendo de subalternidade, na maior parte das vezes destinados a serviços de limpeza, transporte e segurança, quando consideradas minimamente dignas de confiança.

E essa é a questão central que quero tratar, para concluir. Mesmo pessoas e instituições que afirmam combater o racismo o reproduzem frequentemente por meio de determinações e comportamentos autoritários, classificatórios e excludentes.

E para refletirmos melhor sobre isso, pergunto: contra quem você grita?

Quem já esteve em uma escola pública sabe que, infelizmente, os gritos fazem parte das violências que permeiam os espaços escolares. Não deveria ser assim! Mas os alunos gritam contra si mesmos, os professores gritam contra os alunos, em certos momentos alunos gritam contra professores, outros profissionais também gritam e lhes são direcionados gritos. No topo, os gestores gritam. E quase ninguém grita contra eles, nessa circunscrição.

Para além dos muros há outros gritos contra a escola, de setores agressivos, fundamentalistas, criminosos. Autoritários dos mais variados tipos. Não posso afirmar que todas as instituições de ensino funcionem na base do grito, como alguns se orgulham em dizer, mas é realmente um elemento presente.

Nas instituições de ensino superior também há gritos, mesmo que “silenciosos”. São gritos mais elaborados, perversamente mais sofisticados. Ao ponto de o alvo dos gritos ter dificuldade em identificá-los. Sabemos bem como confundir os alvos, ao ponto de não terem certeza se são os alvos, tornou-se um estratagema recorrente, sobretudo sob a lógica da colonialidade. De tal forma que temos que pensar o tempo todo contra quem estamos gritando. E também com quem, fraternamente, devemos gritar.

Se estamos sempre gritando, ou seja, agindo para impor e calar, mesmo que por meio de outras expressões e mecanismos mais astutos, ainda que legais, contra os inferiores ou inferiorizados, precisamos mesmo pensar se faz sentido afirmar que somos contra o racismo.

Combate ao racismo envolve mudanças de postura

Levantar a bandeira de combate ao racismo é de extrema importância, não há dúvidas. Porém, construir uma realidade verdadeiramente antirracista, que passa pela educação, envolve mudanças profundas de postura, no mínimo envolve apreço pela transparência nas relações e crítica radical às classificações em benefício das hierarquizações autoritárias. Não é fácil não! Contudo, outra vez, pergunto: existem modos de valorização da democracia, das diversidades e da educação para emancipação desconsiderando esses elementos?

Recentemente questionei uma experiente pesquisadora, em momento formativo de iniciativa da Comissão de Inclusão e Pertencimento da nossa Faculdade, sobre este nível de imbricação envolvendo ensino e relações interpessoais no interior da universidade, pensando sobre a permanência dos estudantes. Ela respondeu, após ter apresentado um conjunto de dados importantes para analisarmos e propormos políticas de inclusão e pertencimento, que acredita muito no potencial das relações construídas a partir dos encontros proporcionados pela presença de parcelas da população historicamente excluídas no ensino universitário.

Eu, sob o ímpeto da esperança, concordo, mas insisto que é necessário reafirmar princípios éticos e alterar centralmente dinâmicas de desenvolvimento da educação, mais plurais, mais democráticas, mais acolhedoras mesmo. Capazes de contribuir com a formação de outros tipos de sujeitos e instituições.

Um exercício inicial é pensar mesmo contra quem ou com quem se grita. Como já afirmaram diversos intelectuais, comprovando por meio de pesquisas, há um caráter profundamente pedagógico e transformador em gritar com aqueles que mais precisam, estar ao seu lado, caminhar com os movimentos que reivindicam permanentemente justiça social.

Esse grito, comprometido com a coletividade e as pautas revolucionárias, portanto, contra os reais poderosos exploradores, é profundamente antirracista. Os outros gritos provavelmente vão na contramão, fazendo permanecer desigualdades e humilhações visíveis durante a coleta de lixo, transportes em motocicletas ou atividades de ensino, gestão, produção de ciência.

Ser antirracista implica na compreensão de que todos somos responsáveis e precisamos assumir profundos compromissos, que por vezes vão entrar em conflito com nossos próprios interesses e privilégios inconfessáveis.

Cleiton Donizete Corrêa Tereza é professor Doutor do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor de História nas redes municipal de Poços de Caldas e estadual de Minas Gerais por quase duas décadas. Lidera o Grupo de estudos e pesquisa sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC). Tem atuado em órgãos e movimentos sociais em defesa da educação pública, democrática e de qualidade.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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