Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Novo livro do Chico Lopes: sobre fantasmas nada passageiros

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Livro O passageiro do fim | Crédito: Arquivo pessoal

Ganhador do Prêmio Jabuti em 2012 lança novo livro

Por Luciano Mendes

Na apreciação da obra do escritor paulista radicado em Poços de Caldas (MG), Chico Lopes,  é lugar comum dizer da maestria do autor nos vários gêneros literários de que se ocupa. Seja na poesia ou na prosa, escrevendo romances ou contos, sua versatilidade é invejável, e já amplamente reconhecida, inclusive com um Prêmio Jabuti, em 2012, pelo livro Um estranho no corredor (Editora 34, 2011). Mas quem conhece o Chico sabe que sua versatilidade extrapola a literatura e avança, com igual qualidade, para as artes plástica e o cinema, dando mostra, sempre de um espírito inquieto e criativo.

É por isto que é alvissareiro saber que o Chico Lopes está lançando um novo livro, agora pela Lavra Editora, sob o título de O passageiro do fim. O pano de fundo do romance é o da história recente do país, em que o obscurantismo grassa e a convocação e a autorização da violência fazem parte do cotidiano. Como é uma característica marcante nas obras anteriores do autor,  um homem, já caminhando para a velhice, vive as agruras de uma vida solitária e quase desinteressante deslocando-se entre duas cidades do interior.

Numa narrativa envolvente, em que somos conduzidos pelos labirintos de uma alma atormentada, que vive numa espécie de voltas contínuas de um parafuso sem fim, os fantasmas do passado teimam em retornar e perturbar o sono do pobre vivente. As relações com aqueles ambientes, com seus familiares, amigos e conhecidos, já não o satisfazem, mas ele, meio que perdido no mundo, não sabe que caminho tomar na vida para romper aquele verdadeiro cerco que se formou – que ele também produziu – em torno de si.

Como em toda boa literatura, não há saída fácil, e para cada uma das possibilidades vislumbradas, há preços a se pagar. Como na vida, não é possível ganhar todas e tem algum sucesso na empreitada do viver, aquelas pessoas que, de repente, conseguem alguma paz de espirito, e sabedoria, para aproveitar os vislumbres, os lampejos dentro das situações de perigo, para se reorganizar existencialmente para a jornada, longa ou breve, que as circunstâncias permitem escolher.

Sim, quase sempre há a possibilidade de escolhas, e, lembrando Riobaldo Tatarana, o que a vida pede da gente é coragem para assumir os riscos inerentes a elas.

Não pude deixar de notar, ao ler O passageiro do fim, que ele dialoga muito com outra obra de Chico Lopes, A herança e a procura (Ler Editora,2012), esta última de caráter eminentemente autobiográfico. Uma relação óbvia, ainda que a única, é a ocupação do protagonista do novo romance – ele é jornalista, a mesma ocupação de Chico Lopes durante algum tempo. Mas, sobretudo, muitos dos dramas, medos e aflições que povoam a vida do personagem estão, também, presentes na obra autobiográfica de Chico. 

Ao que tudo indica, na vida e na obra, o escritor continua no embate com seus fantasmas e, entre elaborações e exorcismos, esta luta parece estar longe do fim.

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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