Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Vamos precisar de todos os homens!

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Manifestação | Crédito: Arquivo pessoal

Atual modelo de masculinidade é tóxico

“Vamos precisar de todo mundo
Pra banir do mundo a opressão.”

(Beto Guedes)

Por Luciano Mendes e Luiz Carlos Rena

No último domingo, dia 7 de dezembro, foi um dia muito especial! As mulheres convocaram e, em todo o Brasil, fomos às ruas em defesa da vida das mulheres e contra a violência (masculina) contra elas!

A beleza dos atos organizados em todo o país contrasta, claro, com os motivos para lá estarmos e com as falas das ativistas durante todo o dia! Muita tristeza relatada em cada caso, por cada rosto, que se referia a uma companheira, filha, irmã, vizinha… cujo corpo tombou sem vida diante de um algoz violento.

Já são quase 1.500 mulheres mortas apenas em 2025; são mais de 20 milhões de mulheres que sofreram violências, que foram vilipendiadas em seus direitos e agredidas, na maioria das vezes, por homens próximos, muito próximos.

É imperativo que nós, homens, participemos desta luta. Os que praticam as violências são homens, educados, salvaguardados e incentivados estruturalmente para praticar violências. É preciso dar um basta nisto! Responsabilizar, reprimir e punir homens violentos é fundamental, mas não basta! É preciso mudar as estruturas que se beneficiam destas violências; é preciso educar todo mundo e o mundo todo para outras masculinidades.

Estruturalmente o capitalismo se beneficia do machismo, do patriarcado, da misoginia e de todas as violências que atravessam de alto a baixo a ordem social. Os mundos do trabalho, da política, das relações sociais cotidianas são organizados para beneficiar os homens. Chegamos, inclusive, a um tempo em que a violência contra as mulheres é incentivada e convocada, pois é parte do comércio internacional que se dá por meio das redes sociais comandas pelas Big Techs.

Desde que nascem os meninos são educados e convocados a viverem uma masculinidade tóxica em suas relações com as mulheres e consigo mesmos. Caracterizada pela violência e pelo sofrimento, tal masculinidade tem como alvo os corpos e as subjetividade que não se adequam ao seu próprio padrão, especialmente os corpos femininos.

Apesar de crescentemente problematizados no mundo social e, especialmente, na escola, tal modelo de masculinidade ainda é hegemônico e tem sido de difícil enfrentamento. Ainda que a escola sozinha tenha pouco poder de mudar este cenário, ela continua sendo, ao lado das famílias e das igrejas, a instituição social com maior capilaridade nos territórios, e a única organizada por profissionais que se comprometem, ética e politicamente, com uma educação contra as violências física de toda natureza.

Professoras, professores e demais profissionais da educação têm que se voltar, enfaticamente, para esta dimensão da formação humana, sobretudo na educação dos meninos e dos homens. É preciso trazer o assunto para o centro dos projetos pedagógicos e desenvolver projetos que ofereçam aos meninos e às meninas modos de representação e de simbolização, ou seja, linguagens que possibilitem a vivência de suas agressividades e de suas subjetividades de modo não violento e com menos sofrimento.

Para além de oferecer uma pauta que mobilize a reflexão e atividade cognitiva dos e das estudantes é preciso oferecer outros modelos de masculinidades. É fundamental que meninos e meninas percebam que atitudes de sensibilidade, de cuidado com o outro e com a outra, de empatia com as mulheres não colocam em risco a masculinidade de ninguém.

É passada a hora que definirmos projetos pedagógicos e política educacionais menos alinhados à obtenção de melhores notas e posições em rankings nacionais e internacionais e mais pautados pelo bem-estar das meninas e dos meninos. É preciso que tenhamos mais artes nas escolas, como oferta e oportunidade de elaboração de novos modos de ser e estar masculino no mundo. Para isto, vamos precisar de todo mundo; e a hora é agora.

Luciano Mendes e Luiz Carlos Rena são pedagogos e membros da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação de Minas Gerais. Participam da Campanha Educar Meninos e Homens para a Não Violência.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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