Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Crônica | Memórias de minha mãe

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Na foto, Luciano Mendes e sua mãe | Crédito: Arquivo pessoal

A força e o tamanho de minha mãe contrastam com seu metro e meio de altura

Por Luciano Mendes

É final de ano e, como de hábito, me ponho a pensar nos dias passados. Mas a memória não é domável e insiste em ir mais longe. Aí, entre esquecimentos e lembranças tantas, me vi pensando em minha mãe, uma pessoa com quem há mais de seis décadas – quase 62 anos para ser exato – eu convivo. Uma mulher porreta, como dizem por aqui, que, sobretudo depois da maturidade, passei a admirar pelas suas forças, tenacidade, tranquilidade e imensa sabedoria.

Quem me conhece mais de perto sabe, porque eu já contei, que numa prole de 12 filhos e filhas de minha mãe, eu fui o único homem que viveu (e, muitas vezes, ainda acho que vivo) as alegrias e os temores de nascer entre as mulheres. Entre todos os homens, sou o único que nasceu depois e antes de uma mulher. Isso fez com que, sobretudo na infância e no início da adolescência, meu universo de conivência doméstica fosse fortemente marcado pelas sociabilidades e, sobretudo, pelos trabalhos femininos. Neste universo, pontificava a minha mãe.

Em minhas memórias e nos meus saberes, a força e o tamanho de minha mãe contrastam com seu metro e meio de altura e seu peso de sempre menos de 50 quilos. Estes atributos físicos acanhados nunca a impediram de pegar panelas e tachos enormes, cuidar da prole inteira, e agregados, fazer comida para um batalhão de gente na época do plantio e da colheita, de coordenar muitas outras mulheres nas lides de descascar e ralar mandioca para fazer farinha, cuidar de porcos e galinhas, costurar, cerzir e remendar roupas… e muito mais, neste inventário sem fim de tarefas.

E isto tudo, penso hoje, quase sempre carregando uma criança no braço e outra na barriga.

Das memórias que tenho da minha mãe, nascida Argentina mas transformada em dona Zica muito cedo, se destacam aquelas referentes à escola e ao cuidado que sempre teve, e tem até hoje, como todos e filhos e todas as filhas, no que diz respeito ao acordar cedo para cumprir para não perder a hora… do trabalho, da escola, do ônibus.

Ainda hoje, que quem dorme na casa de minha mãe sabe que ela é sempre a primeira a acordar. Das noites e madrugadas mal dormidas, ou insones, e foram muitíssimas para uma mãe de 12 filhos, da vida adulta até o acordar silencioso da velhice para fazer o café e voltar para a cama para rezar, foram mais de 70 anos de educação do corpo, de todo o corpo, incluindo as acuidades todas.

Sempre que viajo e perco um pouco o fuso (e os parafusos!) ou quando tenho compromissos cedo, estou a me lembrar dela me dando leves sacudidas no corpo e dizendo: “Acorda meu filho! Levanta, senão você vai perder a hora!”. Famosa é a história, em nossa família, pois ela sempre repedia, do Zé Portes, um moço tal que cumpria um longo ritual entre o acordar e o começar com as lidas diárias: “Levanta Zé Portes! Estou acordando minha mãe”… “Levanta… Estou rezando… Estou calçando…” Depois deste ritual todo, é claro que o Zé Portes, ao contrário da gente, perdia a hora para tudo!

E também de nossa escolarização era ela quem cuidava! Em Pocrane, onde morávamos, tudo era perto e a escola única, de tal sorte que todo mundo conhecia todo mundo, inclusive as professoras aos alunos e às alunas e seus familiares. Isto também porque, é preciso não esquecer, havia um grupo imenso, mas pouco reconhecido, de meninos e meninas que não ia à escola. 

Mas, quando mudamos para Contagem, na Grande Belo Horizonte, as escolas eram longe, a cidade e a gente desconhecidas, mas nem isso inibiu a ação da minha mãe no cuidado com a escolarização.

Lembro-me de que, já rapazinho, quando passei para estudar no CEFET-MG, foi ela quem foi comigo à minha antiga escola agradecer as professoras pela ajuda que haviam me dado e continuaram dando para que eu pudesse comprar livros e demais materiais escolares. Em minha memória: franzina, com seus olhos claros brilhantes e com sua roupa sempre simples, lá estava ela a esperar as professoras e a conversar com elas.

Mas a memória mais emblemática que tenho é, também, a mais colorida: não sei como, mas no meio daquela balbúrdia toda que era a casa, em meio aqueles afazeres muitos, ela, de vez em quando, arrumava um tempinho para, no meio da tarde, ir à igreja participar das orações do grupo Sagrado Coração de Maria. Ela levava o terço, a faixa com o símbolo do grupo – um enorme coração vermelho – e sentava na igreja e rezava.

Eu não me lembro dela conversando com outras mulheres; mas sentava e rezava. Talvez fosse o único momento em que pudesse ficar sozinha (há pouco tempo ela me confidenciou que nunca dormiu uma noite sozinha em casa; sempre, desde que nasceu, teve companhia).

Para mim era uma oportunidade de ir com ela nesta escapulida para a igreja, e com a igreja vazia poder me deliciar com as cores dos vitrais das suas janelas. Foi a primeira obra de arte que vi na vida e cuja presença em minha memória é das mais marcantes.

Ver aquelas imagens coloridas – anjos, santos, Maria, Jesus… e muito mais da imagética religiosa católica – é parte importante da educação das minhas sensibilidades. Hoje, quando vejo minha mãe sentada, na sala, todos os dias, rezando o terço em companhia das pessoas que aparecem na televisão, me lembro disso, e tenho saudades daquela tranquilidade! Mas, acho que ela nem tanto!

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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