Por Luciano Mendes
A cidades me fascinam há muito tempo. Em minha memória, o nascimento deste fascínio tem dada e horário: trata-se do dia 22 de dezembro de 1977, quando eu anoiteci em Pocrane e amanheci, no dia seguinte, em Belo Horizonte. É como se um mundo novo se abrisse para mim e eu visse, ali, bem na minha frente, o precipício e a ponte. Mas, disso, eu vim a tomar consciência muito mais tarde!
Outro dia, por ocasião da morte de uma professora querida, estavam me lembrando que no meu segundo período da pedagogia eu elaborei um trabalho sobre a história da educação na antiguidade tendo por base o livro A cidade Antiga, de Fustel de Coulanges. O assunto me chamou tanto a atenção que passei muito tempo lendo a respeito – e o livro – e escrevendo o trabalho. A professora, então, disse que eu tinha jeito para a coisa (a pesquisa). Deu no que deu!
Mas foi nos anos seguintes, sobretudo trabalhando com os movimentos sociais de luta por creche e em defesa dos direitos das crianças e adolescentes, que acabei por me aprofundar sobre o tema, tendo Belo Horizonte como palco e cena de uma (ou muitas) história das crianças na cidade. Enquanto isto, eu ia também me educando na cultura da cidade, apesar de que a roça teimava em continuar comigo!
É desta época, por exemplo, a paixão por Charles Dickens e suas inúmeras histórias sobre os desclassificados londrinos do século XIX. Em muitos aspectos eu, quase dois séculos depois, me identificava com aqueles personagens e pelos processos educativos – e violentos – pelos quais eles passavam. E também não é por outra razão, talvez, que eu considere Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, uma das obras-primas da literatura universal.
Ao longo do tempo, fui percebendo, cada vez mais, que a cidade, que suas ruas e avenidas, suas aberturas e interdições, seus monumentos e apagamentos, nos educam. Neste sentido, toda cidade deveria, sempre, ser considerada uma cidade educadora e não apenas algumas poucas reconhecidas pela UNESCO ou por quem quer que seja.
Mas é claro, como farta literatura, inclusive acadêmica, ou demonstra, nas tramas da cidade há processos educativas que são previamente pensados e estabelecidos para educar os transeuntes. Dos nomes das ruas aos monumentos, das posições dos edifícios públicos às edificações religiosas, houve um tempo que nada era por acaso. Talvez ainda hoje, nas balbúrdias dos nossos parlamentos às desimportantes repartições públicas, tudo continue como dantes, ainda que haja muita dúvida a respeito.
Por isto, é bom saber que em algum lugar, ainda que poucos, haja gente pensando no potencial da cidade, de seus monumentos e lugares de memória, na educação cívica de suas cidadãs e de seus cidadãos. Este é o caso, me parece, da cidade de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira.
Outro dia lá estivemos para o I Encontro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos, promovido pela ReBEDH-Coordenação MG e a Prefeitura de Juiz de Fora. E foi a grata satisfação que pudemos visitar e ver de perto o esforço da Prefeitura, por meio da Secretaria Especial de Direitos Humanos, em educar para os direitos humanos e, portanto, para a democracia e contra o autoritarismo e a ditadura. Em ambientes muito distintos, com as salas de recepção da própria Secretaria, no edifício sede da Prefeitura e em vários pontos da cidade, foram postadas imagens de pessoas perseguidas, mortas e/ou desaparecidas durante a ditadura civil-militar.
Lembrar para não esquecer! Um dos pilares de qualquer política pública de memória é o esforço consciente e metódico de lutar para que as atrocidades não caiam no esquecimento e, ao mesmo tempo, para trazer à lembrança as nossas melhores referências.
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

