Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Crônica | Da cidade à casa, caminhos da literatura

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Livros: “A cidade e a casa” e “Avenida Beberibe” | Crédito: Arquivo pessoal

A casa é a personagem principal de Avenida Beberibe, de Claudia Cavalcanti

Por Luciano Mendes

No livro “A cidade e a casa” (Cia das Letras, 2022),  Natália Ginzburg conta a história de um conjunto de amigos e amigas que, na Itália da virada dos anos 1970 para os 1980, se relaciona por meio das correspondências. Ainda que algumas das pessoas se encontrem esporadicamente, só ficamos sabendo disso por meio das cartas. São estas, pois, e não outros meios, que transpõem as distâncias e nos permitem adentrar nas vicissitudes de suas vidas cotidianas.

O recurso à narrativa em primeira pessoa é, para a autora, uma alternativa estudada. Não há excessos; a linguagem é comedida, às vezes contundente, em boa parte das vezes sem concessão nem melindres, mesmo quando há questões muito delicadas em jogo. Aqui, a cidade é apenas o pano de fundo para as relações que se estabelecem, fundamentalmente, na casa. É em torno dela, e das sociabilidades que aí são construídas, ou destruídas, que se passam as histórias das diversas pessoas que se correspondem.

Natalia Ginzburg conta uma história, ou melhor, conta várias histórias em que todas as pessoas, ou quase todas, perdem: amores, amizades, filhos, maridos, esposas, casas e, sobretudo, horizontes de expectativa. Não chega a ser um livro niilista, mas ao lê-lo me veio quase sempre o sentido da perda, do vazio, da vida que passa ao largo das pessoas. As pessoas não são alheias a isto; pelo contrário, suas cartas, suas histórias, são prova de que queriam se mover, agir, tomar os rumos do seu viver com as próprias mãos, ainda que desastradamente.

Apesar de o título do livro dizer também da cidade, é a casa que se impõe.  É sobre a perda da casa, vendida quando da mudança para os EUA, que Giuseppe, o protagonista,  fala em várias ocasiões, assim como é ela o assunto quando  o censuram por ter feito um mal negócio, ou o informam sobre  as reformas que o novo dono resolveu fazer na propriedade; e, não por acaso, é a mesma casa que o seu filho quer adquirir de volta, com uma certa esperança de que o pai retorne à Itália para nela viver. A busca por moradia, as frequentações e a composição das residências são assuntos constantes das cartas.

Numa outra pegada, a casa é, também, a personagem principal de Avenida Beberibe, de Claudia Cavalcanti (Editora Fósforo, 2024). Numa narrativa densa e, ao mesmo tempo, cativante, a germanista e editora pernambucana nos convida a adentrar nos meandros de suas memórias, lembradas e inventadas, sobre sua família, sua casa e o Recife.

Por meio da evocação de fotografias existentes e publicadas no livro, ou imaginadas, a autora vai contando as aventuras e desventuras – Sem aventura não há foto, diz o excerto de R. Barthes escolhido para epígrafe do livro – de uma longa e ampla linhagem familiar, sua diáspora pelo mundo, as chegadas ao Brasil, os entrelaçamentos pessoais e os encantos de sua antiga casa no Recife.

Quinta, mangueiras, jardins; flores e frutas variadas; e espaços para as aventuras do brincar. Há de tudo um pouco. Mas engana-se quem acha que é do idílico da vida que se fala. É também, mas não apenas. O mundo é mais do que a casa, e as aventuras são também desventuras. As pessoas mudam, são presas, morrem… e as casas se deterioram. E, de um salto, as memórias cruzam os oceanos, os tempos e, de um lado a outro, como num jogo de tênis, lá estão a brincar com nossos sentimentos, com aquilo que somos ou que pensamos ser.

Em ambos os livros há indícios da configuração de novas sociabilidades que terão impactos não apenas nas relações interpessoais, mas também na política. Na ausência da cidade nas sociabilidades epistolares dos personagens italianos envolvidos em suas querelas pessoais e domésticas, a impressão que se tem é que a política perdeu espaço e lugar na cena da cidade.

As consequências disso são avassaladoras, como sabemos. Mas é da casa, a partir da casa, que são tecidas e atualizadas, sociabilidades outras, em que a política é um contínuo horizonte de expectativa de que as coisas poderiam ser diferentes, melhores, e que nem tudo está perdido, nem a casa, nem as amizades, nem as fotografias, nem as lembranças, ainda que inventadas.

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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