Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Venezuela, indústria cultural e educação (ou Zona de risco: imperialismo e morte)

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Ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela
Ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela. | Crédito: Reprodução

Para os EUA os povos invadidos não possuem história ou inteligência

Por Cleiton Donizete Corrêa Tereza

Comecei o ano muito mal! Isso em termos cinematográficos. No dia 1º de janeiro, naquela preguiça após uma sequência de esperados e merecidos dias de confraternizações, queria um filme para aprazer. Insisti em algo aventureiro. Optamos por Zona de Risco. Um dos principais motivos para a escolha foi a presença do ator neozelandês Russell Crowe (Gladiador 2000, Uma mente brilhante 2001, Robin Hood 2010, Os miseráveis 2012, dentre outros). Assistir ao péssimo filme, de 2024, dirigido pelo estadunidense Willian Eubank, foi um desastre por um lado, diante de meus objetivos naquele momento, e uma lembrança constante nos dias seguintes.

A produção conta a história de uma operação militar realizada por um grupo especial dos Estados Unidos nas Filipinas, que precisa resgatar um agente compatriota. Definitivamente nada de novo no front. Porém, é ainda muito pior! Com um conjunto enorme de clichês, o filme tem mocinho inocente, valente e trapalhão (para ficar mais simpático diante de tanta gente que vai matar), capitão cheio de boas intensões e muitos tiros, porradas e bombas.

Um ponto positivo poderia ser a crítica ao cotidiano na vida moderna consumista, exemplificada com a compra interminável no supermercado e o torneio televisionado de basquete, que degradam ainda mais supostos princípios de responsabilidade frente ao confronto em curso, do outro lado do mundo. Mas isso não vai longe, ficando como uma espécie de composição necessária para ares de comédia e de um certo estímulo ao patriotismo. Assistam. Ou melhor, não assistam. Assistam se quiserem!

Para os EUA os povos invadidos não possuem história ou inteligência

A questão é que todo um conjunto da indústria cultural, como neste filme, segue produzindo e difundindo essas peças de propaganda, completamente ideológicas. Há muito tempo não assistia algo tão ruim! Cheguei a pensar que os filmes de Rambo tinham ficado, ao menos em parte, nos anos 1980, mas não.

Em Zona de Risco, como em outros enlatados do entretenimento, descaradamente imperialistas, da ordem do crime, e, ainda sim naturalizados, os outros não têm qualquer humanidade. O inimigo a ser destruído, com cara de “filipino”, “árabe”, “africano”, “soviético” ou “latino”, não tem origem, mal fala, é um problema. Sanguinários, facínoras, narcotraficantes, terroristas. Desumanizados, são utilizados como fator desumanizante dos soldados do bem que, por isso, se enfurecem, sofrem e “revidam”. Uma completa inversão.

Em menos de dois dias após sobreviver ao Zona de Risco, acordei com a notícia de que o governo Trump havia bombardeado o território venezuelano e sequestrado Nicolás Maduro e sua esposa, deputada e militante chavista, Cilia Flores. Para Donald Trump, capitalista que tem suas origens no setor imobiliário, ou seja, nas profundezas do próprio capitalismo, Maduro é o “ditador ilegítimo” de um povo feio.

Com o ataque, em que morreram cerca de 100 pessoas, a apreensão se espalhou pela população local e nas redes sociais. Também ocorreram comemorações. Diante de todos os aspectos possíveis para analisar o conflito, que podem ir da centralidade da importância do petróleo à redefinição das dinâmicas de poder das grandes potências em zonas de influência e domínio, da ampliação da projeção global da extrema direita à bestialidade para gerar desorientação, vou me ater à questão da visão imperialista sobre os outros.

Visão imperialista

Maduro, Cilia e o povo venezuelano são entendidos por Trump e por aqueles que concordam com suas ações – e, também, por aqueles que em uma pretensa posição de superioridade moral, ao estilo da mídia de terno brasileira, propagam superficialidades – como os inimigos filipinos de Zona de Risco.

O que em verdade não é um modo de entendimento, mas sim uma deformação, com apagamentos e distorções, para coadunar com uma mentalidade interesseira e perversa, construída e impulsionada pela guerra. Os povos invadidos não possuem história, cultura, valores, inteligência. Com frequência não possuem nomes, são terroristas ou coitados dominados que precisam da ação bruta e paternal do pai do norte para se emendar, em busca da liberdade. Apliquem a maquiagem que quiserem, pode ser laranja e confusa, com a chancela da arrogância empresarial, mas este é o reino da crueldade imperialista.

A contraposição à dominação violenta que massacra com bombas e saques de recursos naturais, mas também com a limitação de horizontes, de tal maneira que os dominados tenham dificuldades de reconhecer sua condição de oprimidos e mais ainda, de imaginarem outros modos possíveis de viver, de se organizarem socialmente e economicamente, passa por uma educação insubmissa, que se oponha aos desmandos coloniais dos imperialistas.

Isso implica, por diversos caminhos, conhecer e reconhecer a centralidade da história e da cultura daqueles que, mesmo sempre perseguidos, persistem. Nas palavras do rapper portorriquenho Residente, acompanhado das cantoras franco-cubanas Ibeyi, na música This is not America: “estamos aqui, estamos sempre; não fomos embora, nós não vamos”.

Para tanto, nós educadores, precisamos mesmo realizar um movimento insistente e perturbador, dia após dia em sala de aula, de deslocar o periférico para o centro, sem desmembramentos, porque tudo isso que é considerado menor, feio, sem valor, passível de qualquer tipo de desprezo, possui elementos irredutíveis de transformação. Desestabiliza as dinâmicas dualistas, expõe as contradições, abre veredas para o novo, para uma vitória humanista necessária, que não virá por acidente.

Cleiton Donizete Corrêa Tereza é professor Doutor do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor de História nas redes municipal de Poços de Caldas e estadual de Minas Gerais por quase duas décadas. Lidera o Grupo de estudos e pesquisa sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC). Tem atuado em órgãos e movimentos sociais em defesa da educação pública, democrática e de qualidade.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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