Por Luciano Mendes
Inverno é tempo de liquidação… dos “equipos” de inverno. Sim, elas sempre acontecem, claro que em alguns lugares mais do que em outros. Pois foi num destes últimos que nos vimos há algumas semanas. Estávamos, meio a passeio, meio a trabalho, em Portugal e na Espanha e nos vimos no meio das rebajas por todos os lados em que a andávamos. Elas estavam ali, onipresentes. Uma tentação para alguns; uma tortura para outros.
Em meio às investidas imperialistas, fascistas e racistas de Trump na agressão à Venezuela ou para comprar a Groelândia, como se o planeta fosse um imenso hipermercado à disposição dos EUA, acabei por pensar que, por algum momento, a Europa estivesse se sentindo como um “pais” terceiromundista: um território em liquidação, no duplo sentido do termo.
Por falar em terceiro mundo, as rebajas por onde passávamos nos davam uma noção do consumismo insustentável e da obsolescência programada de tudo, ou quase tudo: os 70% ou mais de descontos nos lembravam o tempo todo que outra estação, outra “moda”, vem aí, e que as vitrines precisavam ser repostas. Enquanto isto, naquele momento, em todos os lugares do mundo, um menino ou uma menina, aquelas crianças de que nos falava Walter Benjamim, espiavam pelo vidro uma comida (ou uma roupa) que não pode alcançar.
Uma viagem leva a outra, e me vi lembrando que, há um quarto de século, andando pelas mesmas ruas com minhas filhas pequenas, entramos num McDonald e elas pediram um McLanche Feliz, sobretudo pelos bonequinhos dos personagens de Toy Story que acompanhavam os sanduíches. Qual não foi nossa surpresa ao constatar que tais “brindes” eram de qualidade imensamente superiores àqueles do Brasil. Do brinquedo ao leite em pó, do McDonald à Nestlé, o capitalismo global está sempre a nos dizer qual o lugar ele reserva pra gente no mundo!
Eu dizia que as “rebajas” estavam em todos os lugares, onipresentes. Mas isto não é propriamente verdadeiro. Elas estão, de um modo geral, longe dos lugares de cultura e das comidas. A primeira coisa que notei, nos shoppings, por exemplo, é que as placas, nos corredores e nas lojas, propagando as liquidações, desapareciam quando se adentrava, por exemplo, às livrarias. Nestas, apenas os livros ruins de sempre estavam com preços convidativos; nos demais, a cara normalidade imperava.
Mas, em se tratando de livros, nem tudo foi de mal a pior. Neste particular, um dia que começou horroroso até que terminou bem.
Estávamos em Santiago de Compostela, chovia muito e a cidade estava ainda mais cinzenta do que o normal. No entanto, deu uma nesga de sol e nos animamos a visitar a Cidade da Cultura da Galiza. Fomos a pé, claro, para fazer justiça a todas as pessoas caminhantes do mundo (Ah!! Os Caminhos de Santiago que nos aguardem!). Desce morro sobe morro, por entre castelos medievais e casebres, é claro que no meio do caminho fomos “surpreendidos” pela chuva.
Pra piorar a nossa agrura, a Cidade da Cultura fica no cume de um monte e a subida, com chuva, vento e sombrinha quebrada, não estava nem um pouco convidativa. Não bastasse isto, nos lembramos que era segunda-feira, o que fez com que ficássemos com a fundada suspeita de que a cidade pudesse estar fechada, e uma sensação de quase desolação teimava em nos invadir, assim como a água fria fazia com nossas roupas e com nossos calçados.
Enfim, chegamos, e foi sem surpresa que constatamos que o museu estava fechado. Mas fomos informados de que a biblioteca estava aberta. O vento e a chuva haviam aumentado, e ficamos muito felizes quando a atendente nos deixou ficar no interior do prédio por uns bons minutos apreciando sua magnífica arquitetura, projeto de Peter Eisenman, arquiteto estadunidense.
Lutando contra uma sombrinha que teimava em acompanhar o vento, demos conta de chegar à biblioteca. Foi a glória do dia! Nada como um pequeno sucesso para obnubilar um grande fracasso de cálculo (ou uma grande parvoíce, como diriam os portugueses)!
A biblioteca apresenta uma arquitetura que, por si só, vale uma visita, e esta é de graça! Deu gosto passear por ela, para nos retirar do fundo do poço em que a aventura cultural nos metera. Duas exposições nos aguardavam: uma, ricamente ilustrada e documentada, sobre a história do cinema na Galiza e, outra, sobre as mulheres (isto mesmo, as mulheres!) de um sujeito importante da região, cujo nome não me lembrei de anotar.
Ah! Sobre os livros! Sobre estes, tenho menos a falar sobre o acervo da biblioteca, que vimos apenas de longe, e mais sobre aqueles com que a biblioteca nos presenteou. Isto mesmo, enfrentamos chuva, morros e ventos uivantes mas, ao final, fomos recompensados com uma sacola contendo quatro livros de autores andaluzes.
Os dois que li – Lumefrío, de Ramón Caride Ogando, e Asuntos de amor, de Juan Pedro Aparicio – são muito bons e merecem um comentário à parte. Mas como este comentário pode não aparecer tão cedo, adianto que o livro de Ogando traz contos curtos que põem em cena cientistas não muito éticos a acabar com o mundo – ou com as carreiras das colegas -, assassinos em série, aficionados por coleções de pequenos personagens (“índios”) de plástico, casais enamorados, mulheres e homens armando vinganças e doentes terminais, dentre outros personagens de nosso cotidiano. Vale a leitura de cada página!
Definitivamente não sou um viajante audaz como o Manoel, do Toninho Horta. Nas viagens, me encanta fazer aquilo que foi planejado e, mesmo, reencontrar paisagens já conhecidas. Mas cada dia percebo que é mesmo a adrenalina do inusitado, da curiosidade e, até mesmo, o que não dá certo que me move também.
Quando o errado dá certo então, é o melhor dos mundos!
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
p.s. Essa é a 12º crônica de viagem, as outras onze estão publicadas na coluna Cidade das Letras.
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

