Por João dos Reis Silva Júnior
Ao delegar às máquinas a tarefa de pensar por nós, aceitamos o risco de legitimar a indução ao pensamento único disfarçado de pluralidade. A IA, ao prometer eficiência, agilidade e produtividade, infiltra-se nos processos mais íntimos da leitura, da escrita e da formação intelectual, instaurando um condicionamento que restringe a imaginação e reduz a experiência ao previsível.
O que se apresenta como avanço técnico resulta, na realidade, em uma homogeneização cultural que corrói a singularidade e dissolve a aura das experiências. Como advertiu W. Benjamin, a técnica, quando convertida em critério absoluto, anula a densidade das vivências e converte o novo em simples repetição.
Esse fenômeno não se restringe às ideias, mas alcança a própria forma de expressão, apresentação e conclusão. A IA produz textos como se todo pensamento fosse uma síntese final e resolutiva. Ela exclui o tropeço, o inacabado, a hesitação – justamente os momentos em que a verdade pode surgir. Utilizar IA nesse cenário equivale a colaborar com a erosão da dúvida, condição indispensável para a reflexão profunda e a criatividade autêntica.
Contudo, não cabe imaginar a interdição absoluta da inteligência artificial, tampouco fingir desconhecer sua presença difusa como expressão do tempo histórico. O que permanece irrenunciável é a ética do encontro, a exigência do corpo que se faz presença, do olhar que se cruza com o olhar do outro, da palavra que rompe a lógica da contagem.
É nesse face a face, nesse espaço de vulnerabilidade partilhada e de escuta não programada, que a inteligência humana encontra seu lugar mais fecundo, resistindo à domesticação algorítmica e afirmando-se como potência que escapa ao cálculo.
A análise que segue apresenta sete razões para rejeitar a artificialização do pensamento, um processo que ameaça corroer os fundamentos da experiência intelectual e pedagógica. Em consonância com esse propósito, optamos por não mencionar ao longo do texto os nomes das empresas de IA mais conhecidas, pois elas já se tornaram lamentavelmente mais familiares às crianças do que os recursos didáticos tradicionais que envolvem a palpação, o cheiro e o tato do livro.
Essas mesmas crianças, provavelmente, estão mais manipuladas por telas de celulares do que por materiais como giz de cera, lápis de cor e argila, instrumentos que a pedagogia tradicional nos ensina a sentir, tocar, olhar e movimentar. Essa exclusão intencional busca centrar o debate na lógica da artificialização, dissociando-o da promoção ou crítica de marcas específicas, enquanto evidencia a perda progressiva da dimensão sensorial e corpórea na constituição do conhecimento.
Primeira razão – a indução ao pensamento único. O mundo sob o domínio do capital fictício já atua pela obliteração das alternativas, pela conversão de todas as diferenças em variações programáveis. A IA intensifica esses processos ao transformar a linguagem em automatismos. Quando textos são produzidos por sistemas treinados em bases de dados majoritariamente normativas, eles tendem a reproduzir a lógica dos dominantes. Esse fenômeno não configura apenas um viés técnico ou estatístico, mas revela um viés estrutural, pois a linguagem treinada é quase sempre a linguagem da ordem. Mesmo quando tenta imitar o dissenso, o faz dentro de um quadro previsível. Onde tudo se apresenta previsível, nada permanece realmente livre.
Segunda razão – a negação da estética viva. A estética, como explica G. Lukács, é a forma sensível da objetividade social. A IA não cria forma, apenas repete padrões. A forma estética autêntica resulta de um mergulho na experiência concreta e no tempo vivido. A IA não sofre, não vive, não se aliena, logo não tem o que superar. Sua estética é um simulacro sem drama, um acabamento sem vida.
Terceira razão – a erosão ontológica. A inteligência artificial destrói a distinção entre criação e epifania. Criação é a travessia entre o vivido e o pensado; epifania é o instante do sentido que irrompe. A IA banaliza ambos, pois nada nela é conquistado. Ela ignora o silêncio, o tempo e a hesitação. O resultado é a banalização da experiência criadora, reduzida a funcionalidade.
Quarta razão – o controle da linguagem e do tempo. A IA acelera o tempo da escrita e elimina o tempo da leitura. A lentidão da elaboração é substituída pela resposta imediata. A escrita perde corpo, a linguagem perde propriedade, e o vocabulário se estreita. O tempo da reflexão é trocado por eficiência. Não é liberdade, é captura.
Quinta razão – a negação biográfica da escrita. Ler e escrever são atos de emancipação e resistência à alienação, como defendia Marx já no século XIX. A IA rompe esse vínculo, pois elimina o esforço, o erro e a autotransformação que acompanham o processo criador. O texto automatizado não devolve nada ao sujeito: é vazio de experiência e desprovido de retorno interior.
Sexta razão – a despolitização do trabalho intelectual. A IA reforça a lógica das métricas e das quantificações. Substitui o conteúdo pelo número, a reflexão pela performance, o pensamento pela visibilidade. As métricas, como o valor da mercadoria, ocultam o conteúdo sob a aparência. A IA compartilha esse fetichismo e acelera a transformação do saber em dado.
Sétima razão – a perda da fruição. Ler e escrever são formas de prazer e de encontro com o mundo. Nenhum algoritmo é capaz de sentir o júbilo de uma descoberta, a dúvida de uma frase ou a alegria de uma metáfora. A IA não sente, não hesita, não goza. Quando a escrita perde o prazer e a dúvida, torna-se apenas função – e não vivência.
João dos Reis Silva Júnior é professor titular da Universidade Federal de São Carlos.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

