Por Natália Gil e Rodrigo Gil
Tem questões com as quais a gente convive tão de perto que não chega a se perguntar quem decidiu que seria assim. Naturalizadas que estão, nos suscitam apenas (quando muito) um chamado à suposta “verdadeira” natureza que as estabeleceu desse modo.
Por exemplo, ninguém vai dizer que não sabe o que é criança, mas não faltam discussões, e lamentos, sobre uma certa perda do modo “certo” de ser criança ocasionada, imagina-se, por determinadas mudanças nos modos de viver das últimas décadas.
A tirar por medida os alertas em grupos de mães, as telas estariam tirando das crianças a verdadeira “essência” da infância e as crianças estariam, portanto, vivendo errado atualmente porque vêm deixando de fazer as atividades “verdadeiramente” de criança.
O que nos parece é que há nisso muito desejo moralizador e pouca observação atenta do que se passa efetivamente ao redor. O mais comum nesses debates é que se sublinhe que a infância é a idade do brincar e que, portanto, é isso que as crianças devem fazer até chegarem à adolescência.
Nada contra a proposição de darmos mais espaço para a brincadeira no cotidiano infantil. Vários estudos mostram como é fundamental para o desenvolvimento do ser humano, desde bebê, que se possa brincar. Além disso, também há estudos que comprovam que brincar é importante para a saúde física e mental em qualquer idade.
O problema aqui é a idealização que tenta designar essa como sendo e devendo ser a atividade mais recorrente da infância, atividade que inclusive caracterizaria o que é ser criança.
Os adultos também brincam
Ora, “criança” não pode ser caracterizado como “aquele que brinca”! Primeiro porque, como já sugerimos acima, adultos brincam, adolescentes brincam, idosos brincam. Brincar é uma atividade encontrada nas sociedades humanas em diversos tempos e culturas e não se trata de algo exclusivo de crianças.
O que ocorre é que as brincadeiras permitidas socialmente para cada idade mudam e muitas das atividades que fazemos por diversão ou de modo lúdico na vida adulta acabamos por não chamar de brincadeira.
Afinal, sair para jogar bola com os amigos da faculdade ou beach tenis com as colegas do escritório tem mais chance de ser classificado como “atividade física para melhorar a condição cardiovascular” do que de brincadeira. Uma voltinha no shopping para “ver as novidades” sem levar junto uma lista específica de produtos que precisam ser comprados também não costuma ser classificado como brincadeira.
Por outro lado, se ser criança é brincar, como entender a agenda semanal das crianças de classes médias e altas lotada de atividades que servem a prepará-las para a competição acirrada do mercado de trabalho globalizado?
A “aulinha de inglês” frequentada por crianças de 3 anos pode até se esforçar para ser divertida, mas não chega a ser categorizada como brincadeira. Ou, em contraposição, o trabalho infantil que ocupa, no Brasil e no mundo, milhões de crianças?
Sintomático da nossa dificuldade de lidar com a complexidade do cotidiano infantil e exemplar da contradição implicada naquilo que pretendemos definir como infância é a profusão de atividades super divertidas que as escolas se esforçam em promover (não sem um pouco de desespero velado de professoras e mães, que precisam orquestrar toda essa “diversão”!).
Uma vida de eterna diversão
É de se notar, nesse sentido, que para comemorar a Semana da Criança, em outubro, tem sido recorrente estabelecer um calendário escolar com “Dia da fantasia”, “Dia do cabelo maluco”, “Dia do pijama” e muitos outros “dias” desse tipo. Vale observar, no entanto, que muitos deles se baseiam no que, afinal, é ponto fora da curva, no que é exceção, raro, e não no que é comum no cotidiano das crianças.
Por exemplo, o dia da fantasia foi estabelecido justamente porque as crianças não vão para a escola todos os dias fantasiadas. A depender do regramento escolar, inclusive, elas não podem ir fantasiadas para a escola. É o caso, por exemplo, das instituições em que usar uniforme é algo obrigatório. Ou seja, se estabelece um dia da fantasia como contraponto a todos os outros dias em que elas vão à escola com aquele uniforme sem graça.
Alguém pode contestar dizendo que é justamente por ser exceção que o dia da fantasia é divertido. Que graça teria se todos os dias as crianças tivessem que vestir a roupa de super-herói ou o vestido de princesa? Com o passar do tempo o sem graça seria exatamente a tal fantasia. Talvez! Para saber, seria preciso testar a inversão.
De qualquer modo, não altera nosso argumento: o que ocupa o calendário da “Semana da Criança” não é o que se passa na vida das crianças ao longo de todo o ano.
Ou seja, os adultos tendem a idealizar a infância e enxergá-la como um “paraíso de exceções” no qual eles próprios gostariam de viver – exceções que, paradoxalmente, são imaginadas como atividades cotidianas.
Evidentemente que isso é apenas um delírio dos adultos, baseado no esquecimento individual e coletivo de que ser criança é, também, sofrer. Basta observar um único dia de criança (desprendendo-se dessas lentes românticas) para se dar conta que o cotidiano infantil tem muito menos de fantasia e diversão do que a gente gosta de imaginar.
Não precisamos ir muito longe: é só observar o que acontece na própria escola. Para cada “dia da fantasia” numa turma de, digamos, 1º ano do Ensino Fundamental (que recebe criança de 6 anos de idade) temos muitos outros em que elas estão em uniformes sentadas em carteiras escolares (quando muito ajustadas ao seu tamanho!) tendo aula (no sentido clássico do termo). Se a turma observada fosse de crianças de 9 anos, veríamos que são bem numerosas as atividades escolares que não se assemelham à brincadeira.
As crianças inseridas na vida social
Descontados, no entanto, os excessos de ansiedade em “preparar a criança para o futuro”, é preciso reconhecer que, muito além de brincar, há várias outras atividades sociais que demandam atenção e tempo das crianças.
Como seres do presente e que, esperamos, estarão mais tempo aqui nesse mundo do que nós que já passamos da infância – ou seja, seres com mais futuro do que nós –, as crianças precisam se integrar em atividades as mais variadas do seu grupo social. Vão às festas de família e interagem com os mais velhos, acompanham os pais às compras no supermercado, participam das celebrações religiosas do grupo ao qual pertencem, entre outros muitos momentos compartilhados por pessoas de diferentes idades.
Se têm feito pouco (ou mesmo muito pouco) dessas atividades, isso é algo preocupante e talvez seja indício justamente dessa idealização de infância que busca tirá-la da vida presente, considerando que crianças não devem se preocupar com os problemas ao redor (têm apenas que brincar!) e que têm que focar em se preparar para o futuro (embora participando cada vez menos do presente partilhado).
Um pouco contraditório, não? E, sobretudo, irrealista.
Dentre nossos delírios irrealistas projetados nas crianças, está ainda essa ideia insistente de que a infância seria a época de uma eterna diversão. Sem boletos para pagar! Que maravilha, hein? Não podemos nos esquecer que o mesmo movimento que idealiza a infância “como tempo de brincadeiras” é o que propagada a ideia de que ser adulto é um sofrimento.
O filme Divertidamente, da Disney/Pixar, já nos alertou que não há equilíbrio de sentimentos onde apenas a alegria tem espaço. Introspecção, silêncio, tristeza – apenas para mencionar um pouco do que tem sido negado à infância – fazem parte da existência humana e precisam ter espaço na vida, em qualquer idade.
Natália Gil é pedagoga, doutora em Educação e professora da UFRGS & Rodrigo Gil é estudante do ensino médio em Porto Alegre (RS).
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Leia outros artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

