Por Joaquim Ramos
Em seu registro de nascimento, Maria, minha irmã, sem qualquer outra referência, foi registrada como Maria das Graças. E só. Ela não gostava desse nome curto demais, faltava nele – assim como nos nomes das outras duas irmãs – alguma palavra que as identificassem com o pai, a mãe, a descendência. Não sei se apenas por isso, até acho que não – nunca conversamos sobre o assunto – sei que ela não aprovava o próprio nome.
De minha parte, pela associação com o nome da minha mãe, sempre achei lindo. A própria mãe de Nosso Senhor – assim como a mãe e a irmã – possuía o mesmo nome. Ela não. Preferia o sobrenome Graça. E assim como esse nome dá indício, ela era mesmo uma dádiva! Sempre de riso solto, olhar afetuoso, palavras de afeto, sempre, sempre!
No início deste mês de fevereiro, numa sexta-feira, Maria morreu. Aos setenta e poucos, com o coração alquebrado, caiu da poltrona, sem muitos avisos e partiu. Morte súbita e sem aviso prévio! A tristeza veio fazer morada na vida dos familiares e amigos. Maria era filha, irmã, tia, mãe, avó, bisavó… e cheia de outros predicativos.
Também cozinhava como ninguém. Durante o velório, muito se ouvia falar de seus dotes culinários. Quem um dia experimentou a comida preparada por ela, não esquecia fácil. O alimento em suas mãos ganhava gosto diferente. Mas se por um ou outro motivo, durante as refeições, ninguém comentasse a respeito dos pratos servidos, ela própria dizia, “ta meio salgado, né gente?”. “Claro que não, mulher, está tudo delicioso!”. Pura verdade que, dita assim, afagava o ego de minha irmã.
O anúncio de sua morte impactou a todos que a conhecia. Para mim, como um dos irmãos mais novo, uma tristeza profunda veio aninhar-se em meu coração. Foi muito difícil vê-la envolta naqueles véus, sem flores, com o rosto diferente da irmã que carregava sorriso farto na carinha boa. Não gostava de rosas em cima de defunto. Ela própria dizia que flores eram para os vivos e, por isso, fazia por onde ganhar plantas com raiz, com vivacidade e possibilidade de trajetória longeva.
Faz menos de uma semana que Maria partiu. Neste período, minha cabeça deu mil rodopios de um lado para o outro, de lá pra cá, daqui pra lá. O corpo apresentou uma espécie de formigamento. Neste curto espaço de tempo, volta e meia, vou lá atrás, onde Maricotinha esteve, para lembrar do quanto ela gostava de conversar com tudo que é tipo de gente. Conhecidas ou não. Sentada no sofá da sala, aos que ali passavam e se sentavam ao seu lado, ela oferecia quitutes, bebidas, palavras de afeto, risos soltos, espalhafatosos e, sem reservas, oferecia a própria vida se preciso fosse. Não poupava nada para dias futuros. Era toda entregue ao momento presente.
Em tempos mais recentes, deixei de chamá-la pelo nome de batismo – em respeito ao seu explícito desgosto – para mim, passou a se chamar Maricotinha. Quando passava em frente à casa, gostava de chamar – com a voz empossada de homem idoso tanto quanto ela – “Maricotinha, abre a porta. Vim te ver”. E ela vinha meio matreira. Risinho bom colorindo o rosto. Em voz doce dizia: “vem cá, senta aqui!”. E eu ia.
Ciclo
Em seu velório, Maria das Graças não era nem Maria, nem Graça, nem Maricotinha, perdeu essa identidade – passou a ser apenas “o corpo”. Aos que chegavam, perguntavam, “onde está o corpo dela?”. Os agentes funerários: “Onde será colocado o corpo? Na hora de seguir para o cemitério, alguém indagou: “pode fechar o caixão ou alguém ainda quer ver o corpo?”. Apresentava, agora, uma identidade em mutação.
Em breve, logo mais à noitinha, será a missa de sétimo dia. Maricotinha que já não é Maria das Graças, nem Graça, nem nada, vai deixar de ser corpo. Pensa bem, mal morreu e já será descorporificada pela fala do padre. Neste momento solene, vamos rezar para a “alma” dela. É o ciclo da matéria que vai se fazendo, se rompendo, se esvaindo…
Cabe a nós, entender essas tantas mutações e mistérios. Talvez isso sirva também para as minhas aulas de Gramática: tudo que existe é substantivo, até o que não vemos. Até o que não existe, de fato! Ou como afirma Caetano Veloso: “Existirmos: a que será que se destina?”.
Confesso que não sei dizer, senhor poeta! Não sei. Apenas tento, nas experiências de todos esses percalços, tirar as melhores lições. Enquanto não viro corpo nem alma, quero continuar sentindo esse coração que pulsa. Hoje, por exemplo, ele bate em descompasso. Está bem triste! Continuará assim por longa data, eu sei.
E para falar dessa inexata matéria humana, volto ao início de tudo, quando o verbo se fez carne. Sem instrução e matuto, meu pai, acabrunhado, também desprovido dos sentidos da palavra falada, encostou no balcão do cartório. Chegou de longe, do grotão, dum lugar chamado “Pitengo” para registrar as crianças.
A prole era enorme: três meninas e dois meninos. Era preciso registrá-los de uma só vez. Nem uma notinha escrita. As informações estavam na cabeça do pobre sertanejo. Não poderia deixar de aproveitar a gentileza do compadre Matias que, como sempre fazia de 4 em 4 anos, passava na casa do “cumpadre João” – esse meu pai que completará 94 no próximo mês – para pedir o voto de toda a família.
Homenzarrão de quase dois metros de altura aparecia para dois dedinhos de prosa com o dono da casa. Nem apeava do cavalo. Desta vez, ao saber da falta dos registros dos meninos, prometeu deixar as despesas pagas com Pedro da Dalva, o escrivão juramentado do distrito. “Basta anunciar que é meu eleitor, cumpadre João” – disse de cima do alazão e foi. Virou prefeito.
Para os poucos moradores do lugar, assim como os da família, os meninos eram chamados apenas pelo nome dado no berço: a maiorzinha, Maria, como a mãe. Abaixo dela, era a magrelinha, chamada Marly. José era o loirinho que, postado ao lado do pai, exigiu ser registrado pelo nome do avô. Abaixo desse, o Joãozinho. Se lhe perguntasse por que João? Uai – ele responderia – pode ser Joãozinho porque eu também chamo João. A caçulinha, Marlene. Sobrenome, nenhum e, de fileirinha, desfilou sobrenomes aleatórios aos filhos, com exceção de José.
Assim ficou nos registros, Maria das Graças e não mais do que isso. Marly do Carmo, essa também de nome curto. José Gerônimo Rodrigues, nome mais comprido por insistência do próprio menino. Esse também, logo, logo virou Zé. Joãozinho, o mesmo nome do pai, acrescido de Filho. Marlene de Fátima, e basta.
Sem se dar conta de que os filhos precisavam de sobrenome que prestasse. Faz mal não – pensou. E seguiu feliz com a papelada no bolso traseiro da calça. Passou na venda do Geraldo da Lana, a cachaça foi servida sem precisar descer do cavalo. Tomou no copo lagoinha que para uns é copo americano, ofereceu o restinho aos santos, entregou o copo e seguiu em disparada com o filho Zé na garupa do cavalo.
Olhando para trás, na garupa do tempo, do nada, se passaram sete décadas.
Joaquim Ramos é doutor em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
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