Por Tayanne Morais
No fluxo inexorável de nossos calendários, o 8 de março retornou, este ano, mais uma vez. Às pessoas leitoras que eventualmente passam os olhos por este texto, devem ter chegado as mensagens nos grupos de WhatsApp, talvez animadas pelo som de Maria, Maria, de Milton Nascimento, acompanhadas por rosas brilhantes que dançam nas telas, anunciando as materialidades e as representações que costumam compor o Dia Internacional das Mulheres.
Nas vitrines, propagandas se multiplicaram, oferecendo descontos, jantares e outros pequenos gestos embalados como celebração. Nas esquinas, girassóis murcharam à espera de serem levados para a casa de alguma de nós, muitas vezes acompanhados de canecas em que a palavra “guerreira” aparecia estampada.
Houve ainda as marchas, as bandeiras roxas e verdes, os cartazes e punhos erguidos, inclusive por aquelas que, como eu, não dispensam os chocolates característicos da data, mas que tampouco deixam de lembrar que o direito ao corpo e à vida seguem sendo, para muitas, negados.
Sei que é importante não atualizar uma disputa entre formas legítimas ou ilegítimas de viver esse dia, ou mesmo esse mês, como tem se feito nos últimos anos. Nem mesmo se trata de estabelecer hierarquias entre quem agradece as rosas virtuais, aceita um chocolate ou ocupa as ruas.
O que se impõe, em nossos horizontes, caro leitor, são narrativas diversas, atravessadas por leituras igualmente plurais, que revelam as maneiras pelas quais o 8 de março é sentido, apropriado e disputado.
Quer reconheçamos ou não, as formas de opressão que atravessam a vida das mulheres não pertencem ao passado. Elas são atualizadas cotidianamente nas arenas políticas, midiáticas e sociais, muitas vezes sob a aparência de normalidade ou sob o suposto “redirecionamento de nossa energia feminina”. Cada vez mais frequente, inclusive, é a tentativa de revestir desigualdades com discursos de valorização que, nem tão no fundo assim, reafirmam antigos lugares e naturalizam desigualdades históricas.
Afinal, há anos ocupamos espaços de decisão, mas ainda assim nos dizem que não merecemos respeito quando subimos à tribuna. Somos maioria escolarizada no país, mas nossos corpos seguem sendo expostos e classificados em listas violentas das quais nenhuma de nós está a salvo. Integramos instituições do Estado, mas não estamos protegidas das violências que nelas se reproduzem, nem mesmo quando somos nós a vestir a farda.
É nesse cenário que março se desenha, a meu ver, como uma frente de insistência. E aqui, insistir me soa distinto do modo como costumo empregar a palavra resistir, porque isso, convenhamos, já fazemos todos os dias. Trata-se de sustentar, de forma contínua, o trabalho de debate, de cobrança e de produção de outras narrativas que nos permitam viver com dignidade.
Ou seja, é preciso lembrar a importância histórica do 8 de março, mas é também preciso superar as condições históricas que sustentam a necessidade desta data-memória.
Foi desse desejo de insistência, partilhado entre aquelas e aqueles que compõem, entre os quais me incluo, o Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinar em Formação Humana, Representações e Identidades – GEPIFHRI, do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que emergiram algumas iniciativas que buscam tensionar os modos pelos quais o 8 de março se cristaliza e, ao mesmo tempo, insiste em nos escapar na virada do 1º de abril.
Tais ações me instigaram a escrever o que agora chega a você, leitora e leitor. São palavras que se aproximam menos de um texto anunciativo, e mais daquilo que me inquieta, por me lembrar do muito que ainda precisa ser feito por aquelas que ficaram pelo caminho, por aquelas que seguem expostas às violências e, não raro, por aquelas que, em meio às contradições do nosso tempo, acabam por abraçar nossos próprios algozes.
São também palavras que acolhem o que, de algum modo, ainda me acalenta, ao permitir vislumbrar, nos gestos, nas práticas e nas insistências que temos produzido, a possibilidade de outras formas de vida.
Nesse movimento, a programação, indicada ao final deste texto como um convite à continuidade, se articula em torno de dimensões que se entrelaçam na experiência estética como forma de leitura do mundo, no diálogo como prática formativa e na retomada de narrativas femininas em tempos sombrios, cujos efeitos ainda reverberam no presente.
Não se pode esquecer que outras iniciativas semelhantes estão sendo desenvolvidas por diferentes grupos, em distintos espaços, e é muito provável que a leitora e o leitor encontrem uma variedade de formatos que melhor se ajustem às suas possibilidades, seja em termos geográficos, de tempo disponível ou de linguagem. O ato de convidar à busca por essas ações comuns, ao mesmo tempo em que situamos aqui aquilo que temos construído, revela, em alguma medida, os caminhos que temos trilhado enquanto grupo e, certamente, um convite à partilhar conosco este sonho de dias melhores.
O calendário segue seu curso e o 8 de março, como de costume, já começa a se diluir entre os outros dias do ano. É preciso, no entanto, constatar o óbvio e seguir afirmando que é preciso girá-lo, deitar o 8, com a audácia de quem pinta o 7, e nos voltarmos às formas pelas quais seguimos, coletivamente, tentando sustentar e reinventar a vida em comum e, com ela, as responsabilidades que nos cabe nesse processo, seja pelo que fazemos, pelo que deixamos de fazer ou pelo modo como escolhemos insistir.
Serviço: toda a programação do GEPIFHRI relativa ao debate sobre as condições e as lutas das mulheres no Brasil pode ser acompanhada no perfil do grupo no Instagram.Passe por lá e participe desta aventura conosco!
Tayanne Morais é historiadora, mestra e doutoranda em educação pela PPGEDU da UFPE e participante do Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinar em Formação Humana, Representações e Identidades – GEPIFHRI, da mesma instituição.
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

