Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Crônica |  Autoritarismo em memórias de rodapé! Crônicas de Viagem XV

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Nossos lugares de memória continuam a naturalizar e a fazer loas ao Golpe Militar de 1964 | Crédito: arquivo pessoal

O que era pra ser uma nota de rodapé incomodou sobremaneira

Por Luciano Mendes

Outro dia passamos um fim de semana em Fernando de Noronha. A ilha, que é a  ponta de um imenso vulcão de 4 mil metros de altura e 75 km de  diâmetro, é lindíssima! Lá é tudo muito caro, e disso já sabíamos, porque tudo chega de navio ou de barco, mas também porque há especulação e há gente que paga por distinções. As pessoas da ilha recebem muito bem e o passeio valeu a pena.

Enquanto não estávamos passeando, pudemos ver alguns filmes, assistir a apresentações de um grupo de samba local, com direito a uma palinha do Diogo Nogueira, e conversar com gente de todo o Brasil. Quanto ao grupo de samba, havia uma reiterada ênfase de um dos membros num discurso em defesa das mulheres, o que foi muito bom, mas com algumas derrapadas discursivas, notadas por nós e por algumas mulheres ao nosso lado. De minha parte, notei que, apesar do discurso, todos os músicos e toda a equipe de apoio deles eram homens. Ou seja, estamos no bom caminho, mas é preciso avançar.

Dos filmes que assistimos, o atravessamento veio de Aprendendo com a vovó, um filme de 2015, dirigido por Paul Weitz. Trata-se de uma história em que uma avó, mulher lésbica, escritora reconhecida e em processo de separação de sua namorada bem mais jovem, age para ajudar sua jovem neta a conseguir dinheiro para realizar um aborto. A tradução do título original, do inglês, Grandma, acaba por desvirtuar, me parece, o fundamental da película que é muito mais do que o suposto aprendizado da neta, as decisões e ações tomadas pela reclusa e mal-humorada avó para ajudá-la.

Do filme,  me atravessou um diálogo entre a personagem Elle Reid (interpretada por Lily Tomlin) e sua namorada Olívia (interpretada por Judy Greer) em que a primeira afirma que, na vida dela, Olívia não havia passado de “uma nota de rodapé”. Este insulto imediatamente acionou, em minha memória, outro filme de que gostei muito e cujo título é, justamente, Nota de rodapé, película israelense de 2011. A versão brasileira acompanhou, literalmente, o título em estadunidense (Footnote).

Trata-se de uma comédia dramática em que as tensas relações entre pai e filho, dois acadêmicos de grande reconhecimento, passam também pelas formas com que lidam com o reconhecimento da comunidade científica e, sobretudo, me parece, com as próprias memórias. Ambos são assombrados por memórias de um passado que insiste em se fazer presente, irrompendo-se seguidamente em suas vidas e alimentando suas rivalidades. Neste contexto, o  que era para ser uma nota de rodapé em suas vidas, passa a ocupar  o lugar principal.

Pois então, em minha viagem a Fernando de Noronha, o que era pra ser uma nota de rodapé, acabou por me incomodar sobremaneira. Trata-se de como nossos lugares de memória continuam a naturalizar e a fazer loas ao Golpe Militar de 1964 que, nesta semana em que completou 62 anos, ainda continua a nos assombrar. Tudo isto porque quando estávamos indo almoçar passamos por um importante cruzamento de estradas da ilha em que uma placa, bem postada, registrava: 

“Vila do Trinta

Construída a partir da ocupação militar de 1942, em torno do quartel do Exército, – o 30º Batalhão de Caçadores – tem seu nome originado desse ‘30’ pintado no telhado do quartel. Em 1964/65, serviu de reclusão para presos políticos do presídio especial implantado na ilha, após a revolução de 31 de março. Ao seu redor construiu-se a ‘Vila dos Sargentos’ em 1975. Hoje é chamado Centro de Convivência e abriga diversos serviços institucionais e comerciais. Nas proximidades está o prédio da antiga Usina Elétrica.”

Numa imensidão de ilha, linda ilha, esta placa não passa de uma nota de rodapé, assim com a “solitária” de 60 x 120 centímetros do Forte dos Remédios, hoje um centro cultural com um restaurante luxuoso, em que os presos eram torturados. Mas as memórias que elas carregam e atualizam abarcam livros inteiros. É a de um passado que nos oprime justamente porque é cultivada e mobilizada por um sem número de grupos e agentes, inclusive oficiais, que querem perpetuar a ideia de que o golpe militar foi realmente uma “revolução” que nos livrou do comunismo e de todos os males a ele associados. 

O “perigo vermelho” que nos ronda, na feliz síntese do colega professor Rodrigo Patto, é algo que continuamente ultrapassa as notas de rodapé e se faz presente, de maneira contundente, nas mais variadas formas de comunicação dos grupos de direita que, no Brasil, ainda encontram no anticomunismo uma de suas mais longevas estratégias de atuação. 

Para estes grupos, a afirmação de que o Golpe de 1964 foi uma revolução ainda é pleno de sentido. E ser surpreendido por uma placa oficial que, em pleno período democrático, ainda reforça isto, foi, sem dúvida, desconcertante para mim, mas faz todo o sentido em nossa autoritária história e cultura políticas. 

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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