Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Devoradores de estrelas: quando a ciência é menor que a ficção 

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Ryan Gosling é protagonista do filme.
Ryan Gosling é protagonista do filme. | Crédito: Divulgação

Filme é reflexo perturbador da crescente desvalorização da ciência

Por Marcelo Sabbatini

Há filmes que trataram o pensamento científico com seriedade, sem medo de assustar os telespectadores. Um bom exemplo é “O enigma de Andrômeda” (1971), de Robert Wise,  baseado no livro de Michael Crichton. O filme centra-se no trabalho meticuloso de cientistas diante de um organismo extraterrestre letal. Cada procedimento de laboratório era mostrado com rigor quase documental; os equipamentos em cena eram reais. O filme confiava na inteligência do público para acompanhar a identificação do invasor e a busca por uma solução para salvar a Humanidade. 

A situação é comum a “Devoradores de estrelas”, de Phil Lord e Christopher Miller (2026), filme atualmente em cartaz e também baseado num livro.

O romance de Andy Weir, publicado em 2021, com o título original “Project Hail Mary”, pertence a essa linhagem. O livro é construído como um quebra-cabeças científico e inicia com o tradicional “problema do quarto fechado”: o protagonista acorda sem saber onde está, sem memória e acompanhado de duas pessoas mortas, que nem imagina quem são. 

O leitor acompanha, página a página, a reconstrução do enigma pela lógica e pela experimentação. Havia ali uma promessa narrativa que o filme de Phil Lord e Christopher Miller abandona rápida e emblematicamente, se distanciando da obra original e de sua proposta.

O mistério é resolvido em poucos minutos. Para tirar qualquer dúvida, uma tomada vista pelo ponto exterior da nave mata qualquer dúvida ou senso de descoberta. A estrutura de revelação gradual é descartada em favor de uma narrativa convencional, que entrega tudo de bandeja e conta mais do que mostra.

Esse tratamento inicial é significativo da forma superficial com que o filme aborda o método científico, o tema central da obra de Weir. A impressão é de que a narrativa evita, o quanto possível, falar de ciência. Diante do desinteresse de sua plateia imaginária, nivela por baixo, através da tentativa de humor. 

Um bom exemplo é o desproporcional tempo gasto em tela com os personagens brincando em uma loja de materiais de construção, muito superior ao da realização de um experimento científico propriamente dito. O professor de ciências que, no livro era movido por curiosidade genuína e raciocínio rigoroso, transforma-se num sujeito atrapalhado e infantilizado.

O roteiro de Drew Goddard, que havia mantido com cuidado as representações científicas de “Perdido em Marte” (2015), também um livro de Andy Weir adaptado para o cinema, agora parece raso e apressado. A resenha da revista Student Life, da Washington University, sintetiza: o filme enfatiza o “fi”, da ficção e negligencia o “sci”, de ciência. 

Discussões interessantes do livro, como o fato dos alienígenas eridianos não conhecerem a Teoria da Relatividade ou a radiação solar, são reduzidas a observações casuais. Dá a impressão de que há um temor de envolver o público em nada que não seja um pouco mais complicado. Contudo, são estes elementos que tornam o romance fascinante, do ponto de vista da cultura e da alfabetização científica: dois seres inteligentes, vindos de mundos radicalmente distintos necessariamente vão ter compreensões da realidade diferentes. Mas a forma de pensar cientificamente, é comum, aproxima-os.

Ao minimizar a ciência, a adaptação reduz bastante a colaboração como caminho para a solução do problema maior, mas também para forjar uma amizade. No filme, esse processo colaborativo de pensamento e descoberta é substituído por cenas de ação “emocionantes”, sem nenhum diferencial em relação a filmes de aventura genéricos. 

E aqui chegamos a um ponto que importa ao pensarmos nas possíveis contribuições do filme para a cultura científica mais ampla: o personagem é um sofrível professor de Ciências. Compreensível que ele queira evitar um assunto como é o final da civilização terrestre, mas ainda assim seu foco é o de memorização. Não é uma contingência, mas uma postura. 

Quando Grace ensina os jovens eridianos, repete a mesma abordagem: transmitir informação, não construir pensamento. Em nenhum momento o filme sugere que ensinar e aprender ciência tem a ver com formular perguntas, testar hipóteses, errar e reformular. Ou seja, com aquilo que o campo de reflexão e produção acadêmica defende há décadas.

De forma similar, a abordagem Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), referência contemporânea na Educação em Ciências, oferece uma lente reveladora para o que o filme deixa de fazer. A perspectiva CTS propõe que a ciência não seja compreendida como atividade isolada, mas como prática entrelaçada a decisões políticas, interesses econômicos e consequências sociais. O filme tinha material de sobra para isso: uma crise existencial planetária que exige cooperação internacional, escolhas éticas sobre quem é sacrificado em nome da missão, o controle militar sobre o conhecimento científico. 

Como entretenimento populista, o resultado não é apenas uma adaptação fraca, mas um reflexo perturbador da crescente desvalorização da ciência e da razão. Mesmo temas como mortalidade, solidão cósmica e o encontro com o absolutamente “outro”: tudo é aplainado por uma narrativa que tem pressa de chegar à próxima gracinha ou à próxima sequência de ação.

No final, o filme nos lembra por que a representação do pensamento científico na cultura popular importa. Quando a ficção científica trata a ciência como obstáculo narrativo a ser contornado, e não como motor da história, ela reforça a ideia de que pensar com método é tedioso, não merece o tempo de ninguém. Mas certamente nós merecíamos estes quase 160 minutos de filme com mais cuidado e mais inteligência.

Marcelo Sabbatini é professor do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. Dedica parte de sua pesquisa à compreensão pública da ciência e da tecnologia e da promoção da cultura científica.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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