Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Na qualidade do ensino, o diferencial é o engajamento

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A ideia de que existe uma crise na educação atravessa vários momentos históricos | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ao invés de ampliarmos a qualidade do ensino, temos encolhido aquilo que pretendíamos aumentar

Por Natália Gil

Supostamente a educação vai mal. E, a crer no debate que circula nos jornais, vai mal há muito tempo. Tudo parece indicar que vivemos uma crise da educação. Uma crise construída discursivamente como permanente, como mostra Luísa Grando em sua dissertação de mestrado.

No grupo de pesquisa que coordeno na UFRGS, temos sérias dúvidas se de fato a educação brasileira vai assim tão mal e, sobretudo, discordamos que ela tenha sido melhor no passado. Para não ficarmos apenas na impressão, temos trabalhado pesado em pesquisas que nos permitam trazer evidências sobre isso. 

Algo que já conseguimos verificar, analisando a documentação histórica, é que a reclamação não é recente. Por exemplo, em 31 de janeiro de 1941, o Jornal Folha da Manhã trazia um artigo intitulado “O governo federal cogita de melhorar o atual padrão dos ensinos primário, normal e profissional do país”. Referia-se à notícia de realização da 1ª Conferência Nacional de Educação, cujo objetivo era tratar dos “problemas da educação escolar e extra-escolar, em geral”.  

A má escola do passado

Ao longo de todo o século XX, uma questão central era a insuficiência de vagas nas escolas para receber todas as crianças e adolescentes em idade escolar. Mas não demorou para que se argumentasse que a reprovação era um problema tão grande ou, talvez, ainda maior do que a insuficiência de vagas. 

Nos anos 1930, Teixeira de Freitas, que coordenava o setor de estatística do Ministério da Educação, mostrava em seus estudos que a reprovação fazia com que um mesmo aluno ficasse dois ou três anos na escola sem o aproveitamento esperado em termos de aprendizagem. 

O autor mostrava, ainda, que as altas taxas de repetência resultavam em enorme incidência de evasão escolar. Sua conclusão era que a escola brasileira era ineficiente. Por isso, propunha que, antes de criar novas escolas, fosse melhorada a qualidade daquelas já existentes. O dilema entre criar mais escolas ou melhorar as já criadas pode ser visto na história da educação brasileira desde então.

Acompanhando o debate ao longo do tempo, nota-se que a culpabilização dos professores é um aspecto persistente. Embora o enquadramento do tema vá se alterando quanto aos detalhes de um período a outro, permanece intocada uma equação paradoxal: a ausência de professores e sua má formação seriam parte importante do suposto problema do ensino brasileiro ao mesmo tempo que nada se faz para dar a esses profissionais melhores condições de trabalho e mais digna remuneração. É assunto para um outro momento as reclamações que vêm de longe quanto aos baixos salários do magistério.

Na urgência do debate sobre insuficiência de vagas, reprovação e evasão escolar, não houve muito espaço para considerações sobre a péssima estrutura física das escolas e os escassos e precários materiais didáticos. Ainda que o foco fosse sempre outro, não são raras as denúncias de docentes e inspetores do ensino em torno dessa questão.

Qualidade do ensino depende de muitos fatores

Os anos 1990 trouxeram ventos e tempestades neoliberais ao debate educacional. Sustentado pelo prestígio da Unesco, o argumento que se impôs por toda parte foi a imprescindibilidade da avaliação das aprendizagens mediante testes padronizados para melhoria da qualidade do ensino. A preocupação, que pode parecer sensata à primeira vista, espalhou seu encanto tanto no espaço acadêmico quanto nos grandes jornais.

Vindas das escolas, no entanto, sempre se escutaram vozes dissonantes que, obviamente sem ser contra a importância da efetiva aprendizagem (aquilo que, no final do século XX, atendia pelo nome de “aprendizagem significativa”), alertavam que o essencial para a qualidade do ensino não tinha relação com testes e índices. As vozes vindas da escola podiam até ser escutadas (meio ao longe), mas nunca foram efetivamente ouvidas e levadas em conta.

Houve, ainda, algum tempo para que se gestassem planos de avaliação multidimensional, que pretendiam não restringir a medição àquilo que os alunos respondiam em provas. A intenção era incorporar também outros elementos, como as relações estabelecidas na rotina escolar, a presença de respeito, alegria e solidariedade no ambiente educativo, além de formação para o trabalho e para a cidadania. É o que nos conta Mateus Saraiva, em sua tese de doutorado

Mas tais planos morreram na praia, afogados pela primazia da avaliação dos desempenhos (entenda-se, a avaliação baseada no resultado dos alunos em provas padronizadas que testam a performance em apenas duas habilidades: leitura e matemática).

Sendo assim, o que se constata é que nada foi capaz de impedir a avalanche de avaliações em larga escala, profusas e de diversos tipos, mas com centralidade nos desempenhos.

Foco no engajamento e na relação interpessoal

Do ponto de vista eminentemente técnico, o resultado dos alunos em testes padronizados é uma plausível ferramenta de análise. Mas muitos são seus limites. Quando são apenas estatísticos bem preparados que mobilizam números produzidos a partir desses testes, temos análises que tendem a ser cuidadosas e pertinentes. 

Quando, por outro lado, tais estatísticas ganham vida própria e navegam pelos jornais e gabinetes de toda e qualquer secretaria de educação dos milhares de municípios e dezenas de estados brasileiros, os resultados podem ser variados e, quase sempre, as análises e políticas decorrentes têm sido catastróficas. O que se tem notado é a prevalência da redução do processo educativo, deixando em seu lugar apenas treinamento, como já comentamos aqui.

Assim, do meu ponto de vista, ao invés de ampliarmos a qualidade do ensino, temos obtido, pela profusão de testes e índices, é o encolhimento aquilo que pretendíamos aumentar. Isso porque a qualidade depende fundamentalmente do engajamento dos sujeitos implicados no processo educativo: especialmente alunas(os) e professoras(es). 

E aqui a noção de engajamento está longe da proposição neoliberal (o neoliberalismo como um polvo grudento vai se apropriando de todas as palavras com sua retórica!). Engajamento quer dizer o quanto as pessoas se envolvem e se sentem implicadas em processos nos quais estão inseridas. Me refiro ao que consta como definição, por exemplo, no Dicionário Aurélio: “Situação de quem sabe que é solidário com as circunstâncias sociais, históricas e nacionais em que vive, e procura, pois, ter consciência das consequências morais e sociais de seus princípios e atitudes”.

Dito de outro modo, a mensagem é simples e nítida: a qualidade do ensino melhora quando os envolvidos no processo “vestem a camisa” da escola. Quando se sentem implicados e afetados, isto é, engajados, que acontece no dia a dia da sala de aula. Quando, para além dos conteúdos curriculares, estudantes e docentes partilham experiência, quando se vinculam, quando se enxergam como seres humanos presentes por inteiro na escola. 

Não há, portanto, melhor medida de qualidade do ensino do que alunos e professores quererem estar na escola, vendo sentido no que fazem ali. Mas isso tem sido cada vez mais difícil em escolas obrigadas a treinar os alunos para provas externas e onde professores devem preencher inúmeras planilhas neoliberais cobradas pelas secretarias de educação de todo o país. Ora, tudo isso está muito longe (muito longe mesmo) do que pode melhorar a educação brasileira. 

Natália Gil é pedagoga, doutora em Educação e professora da UFRGS.

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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