Por Luciano Mendes
À Anacleto Correia, in memoriam.
No ano passado o meu pai e eu fomos visitar alguns sobrinhos e sobrinhas dele que moram em Belo Horizonte, dentre eles, o Anacleto Correia, um primo querido. Passamos com eles e com elas momentos muito agradáveis, cheios de lembranças e ternuras. Quando saímos de lá, pensei que nos encontraríamos de novo, tornaríamos vivas e compartilhadas as nossas memórias, que conversaríamos sobre a rivalidade entre o Cruzeiro e o Atlético, que tanto nos unia e que abraçaríamos afetos.
Este final de semana que passou, o Anacleto faleceu. Com ele, todo um universo se foi, todo um mundo ficou perdido para sempre. Claro, há lembranças, afetos, sensibilidades, conhecimentos, experiências, sentimentos, que foram compartilhados. No entanto, há mais, muito mais, que resta, agora, definitivamente perdido, partido, e cujos sentidos jamais saberemos quais eram e por onde corriam vastos pensamentos e imaginações.
Há, em minha família, do lado paterno, uma longa tradição que remonta, pelo que pude pesquisar, ao século XIX, de que um Luciano nomeia um dos filhos de Anacleto e este, por sua vez, nomeia um dos membros da prole de Luciano, repondo e renovando a tradição. Na verdade, ninguém sabe a duração deste jogo de nomeações e passagem de bastões e de memórias, pois ele pode ter começado antes e não se sabe quando vai terminar, pois ainda hoje está em ação com registro de novos Lucianos, Lucianas e Anacletos na família.
Meu primo Anacleto e eu participamos desta tradição de nomeação, transmissão e memória familiar, ainda que um fora da lógica, pois seu pai era José e o meu me emprestou o seu próprio nome (com juros e correções até hoje!). Na verdade, destas tradições familiares e seus jogos de memória, ninguém escapa, ainda que algumas vezes se lhes escape uma família para chamar de sua.
A partida do meu primo Anacleto, levando com ele seu universo onírico e fabuloso, me fez adentrar em mim e recordar – recompor? – algumas das muitas memórias infantis. Na verdade, desde que passei a “me entender por gente”, como se diz em minha família, lá estávamos nós, em pequenos trabalhos, junto ao meu avô, também ele um Anacleto, ou nas muitas brincadeiras que fazíamos. Mas também me vem à recordação momentos nada idílicos, sobretudo para ele, em que eu me juntava a outras crianças e, não raro, pessoas adultas também, para troçar de suas dificuldades de fala e de movimentos devidas a uma má formação genética.
Destes universos que se des/fazem – dos muitos mundos imaginados, das aventuras vividas, dos sentidos construídos, dos horrores vividos silenciosamente, como ilustrado de forma poética e assustadora numa das cenas mais marcantes do filme A vida de Chuck (Dir. Mike Flanagan, 2025) – quando as pessoas morrem, temos apenas os pequenos lampejos que elas nos transmitiram; o mais é perdido.
O certo é que, elaborar fantasmas e exorcizar demônios é uma tarefa que é dada a todas as pessoas, ainda que nem todo mundo saiba disso; transmitir o que se vive ou viveu, e os mundos fabulados pela imaginação e pelo desejo, eis a tarefa das artes, esta difícil, árdua e espinhosa tarefa assumida por algumas poucas delas, a quem devemos sempre e sempre agradecer.
Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo e doutor em Educação. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

