Por Cleiton Donizete Corrêa Tereza
Tem dias que tenho vontade de deletar em definitivo minhas redes sociais. Você não? Um dos motivos é que, considerando minhas buscas, postagens e interações, os algoritmos direcionam para minhas contas informações sobre educação, no entanto, com frequência, recebo uma enxurrada de notícias ruins.
São conteúdos que tratam de confrontos entre famílias, estudantes e professores, corrupção em redes de ensino, índices de insuficiência em testes de larga escala, casos de racismo nas comunidades escolares, estatísticas e relatos de adoecimento em ambientes educativos e, mais recentemente, frequentes agressões de políticos fascistas a estudantes e profissionais públicos em escolas e universidades.
Tudo isso me traz mal-estar. Em certos momentos, sensações de impotência e até desespero. São muitos os problemas! Onde vamos parar? Em um episódio recente, um político da extrema direita chamou os professores de burros e vagabundos. Sem receber qualquer punição imediata. Como isso pode acontecer, ser transmitido, e ainda monetizado e instrumentalizado para autopromoção?
Parece que estamos normalizando mesmo, de algum modo, atitudes que são verdadeiramente inaceitáveis. Esse conjunto faz pensar na articulação de um movimento cuja finalidade seja a nossa retração, levando aqueles que lutam por transformações sociais com vistas à equidade a um quadro de melancolia, de paralisia.
Diante disso, existe algo que precisamos lembrar constantemente. Essa produção e difusão massiva de catástrofes em relação à educação não consiste na totalidade do que se passa na escola. Pelo contrário, a educação brasileira, com tantas adversidades, por muitas razões com origens fora dos muros “porosos” da escola, teve significativos avanços.
Uma breve comparação com dados, não somente numéricos, mas também em termos propositivos, dos anos 1980 para cá, torna minha afirmação evidente e difícil de contestar. E, a observação do cotidiano educacional permite constatar o tempo todo relações afetivas e de aprendizagem pautadas no respeito e na solidariedade que superam fracassos e violências.
Mas a quem interessa difundir boas notícias sobre a educação pública (a verdadeira educação)? Especialmente a nós mesmos, docentes públicos.
Faço minha parte. De alguma maneira consigo dividir minha experiência na escola básica em duas fases. Da pré-escola até o final do ensino fundamental I fui um estudante muito tímido e aplicado. Do final do ensino fundamental I para o fundamental II e médio, um estudante, em geral, interessado, participativo e rebelde. Eu não me tornei um aluno fácil.
Lembro bem que em uma dessas etapas de virada, no quinto ano, eu não me sentava nas fileiras como meus colegas. Eu me sentava ao lado do quadro, tomando conta de uma pequena biblioteca da sala. Era avesso a ficar posicionado como os outros, seguindo o ordenamento, ficava no canto, ao lado, à margem, mas tinha apreço pelos livros, pelos quadrinhos, pela cultura e pelo conhecimento.
Essa postura me custou caro em diversos momentos, sendo acusado de arrogante, impertinente, coisas do tipo. Em uma dessas situações, quando cursava o ensino médio, a diretora apresentou uma lista de adjetivos para minha mãe, junto a um bilhete da suspensão por três dias.
É evidente que muitas falas e atitudes minhas na adolescência eram mesmo reprováveis, não me orgulho. Mas como apreciar um aluno que estudava os capítulos do livro de Geografia antecipadamente para fazer perguntas? Como valorizar um estudante que corrigiu a professora de Física e, desafiado por ela, foi ao quadro e demonstrou a resolução correta do exercício?
Para além das relações interpessoais, o importante é compreender que o modelo vigente não comporta e estimula esse perfil de estudante, fazendo dele uma referência de desacato, um desajustado, um sujeito problemático, o que tem lá suas virtudes. Ainda mais vindo de um pobre e negro, “mal vestido”, com calças largas, boné, até tranças, e sem sobrenome de validação, em uma pequena cidade, em termos numéricos, mas também em perspectiva e altivez.
Felizes encontros não viram notícia
Mas tive felizes encontros também, destacadamente com educadores que fugiam do convencional. Duas delas lecionavam História e, inegavelmente, influenciaram minha escolha profissional. A primeira marcou principalmente o ensino fundamental II, e seu falecimento recente foi um dos motivos para a escrita deste texto, portanto, trata-se também de uma homenagem à professora Maria do Carmo de Sá, a Matocha, que com um jeitão descolado, alegre, por vezes brava, conduzia suas aulas.
Essa educadora me permitiu experimentar o lugar de professor quando estava no terceiro ano do ensino médio, ao me convidar para falar com alunos de três nonos anos sobre ritmos musicais de origem afro, focando no rock e no rap.
Lembro que esquematizei e desenvolvi com as turmas uma certa linha evolutiva desses ritmos e suas vertentes. Levei também a música e a letra impressa de Televisão, do grupo Face da Morte. Ouvimos e debatemos. Ao final recebi de presente o excepcional álbum (em formato de CD), Lado B Lado A, da banda O Rappa. Aquela experiência me fez pensar mais sobre a possibilidade de ser professor.
A outra professora lecionou para minha turma no segundo ano do ensino médio. Uma professora negra. Organizava os estudantes em círculo, fazia perguntas, propunha redações e exposições orais, instigava. Eu e meus colegas não lidamos bem com esses métodos, não estávamos habituados, existiram situações de tensão. Para variar, cheguei a questionar diretamente, e dessa vez admito, desrespeitosamente. Os primeiros meses foram complicados. No segundo bimestre já era a aula que eu mais gostava. Fui entendendo e valorizando a dinâmica e as explicações da professora.
Aprendi a escutar com mais atenção e a me posicionar com maior clareza e cuidado com os argumentos do que antes. Entendi que precisava ler muito! Aliás, cabe ressaltar que as duas professoras demonstravam apreço pela leitura, apropriação quanto ao conhecimento sobre processos históricos e suas consequências.
Elas acreditaram em mim, quando muitos desacreditavam. Sou grato. E nada disso virou notícia. Tantas outras histórias semelhantes não viraram notícia, não viralizaram, mas existiram, existem.
Além dessas duas referências positivas para mim, que me oportunizaram compreender um pouco melhor a mim mesmo e a expressar meus pensamentos, tive outros educadores, no ensino básico e na universidade que, de diferentes maneiras, colaboraram decisivamente com minha formação e influenciaram minhas escolhas profissionais, pessoais, cidadãs.
Desserviço
No entanto, preciso dizer que também me tornei professor para fazer diferente de servidores públicos no campo da educação que dificilmente dá para chamar de professores. Não preparavam aulas, não tinham apreço pelo conhecimento, não respeitavam e tampouco acreditavam no potencial dos estudantes.
Efetivamente realizavam um desserviço para a educação, jogando contra a própria categoria, corroborando o agravamento dos problemas sociais. Ganhavam muito pelo que faziam e não deveriam jamais ter pisado em uma sala de aula.
Existem questões estruturais que precisamos considerar? Óbvio. Porém, sem me limitar a análises restritas ao indivíduo, preciso recordar que também temos possibilidades de fazermos escolhas e somos responsáveis pela nossa atuação. Ou cada um que prejudica os outros e atrasa o desenvolvimento do qual necessitamos deve ser sumariamente absolvido em nome de fatores sistêmicos? Se assim for, quem responderá pelos seus crimes? Ninguém.
Tenho convicção de que a melhor forma de demonstrarmos para a sociedade que os professores não são burros e vagabundos – embora eu particularmente tenha notória admiração e inveja dos vagabundos, que certamente não são burros –, não é bater boca com fascista, nem se omitir, mas sim, dia após dia construir uma educação de qualidade, pautada nos saberes científicos e na valorização da cultura, fundamentada no diálogo, com princípios éticos e metodologias coerentes com a formação humanista que almejamos. Não se acomodar nas reclamações infinitas, não banalizar ou desconsiderar as lutas pela valorização do magistério, não reproduzir preconceitos, correndo o risco de desqualificar e culpabilizar estudantes e comunidades. E ter muita, muita fé… nas crianças!
Cleiton Donizete Corrêa Tereza é professor Doutor do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) e do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEdu) da Universidade de São Paulo (USP). Foi professor de História nas redes municipal de Poços de Caldas e estadual de Minas Gerais por quase duas décadas. Lidera o Grupo de estudos e pesquisa sobre o espaço escolar e os desafios contemporâneos (GEPEEDEC). Tem atuado em órgãos e movimentos sociais em defesa da educação pública, democrática e de qualidade.
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

