Clarissa Nunes

Clarissa Nunes é advogada criminalista e integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD)

A verdade é maior do que qualquer golpe

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Lula is hugged by supporters. “The powerful may kill one, two, or one hundred roses, but they will never stop spring from coming” | Crédito: Ricardo Stuckert

O processo contra Lula se deu em um verdadeiro tribunal de exceção

Desde o início da perseguição política contra Lula, o campo político verdadeiramente democrático do País insistiu que a Lava-Jato agia de forma ilegal e inconstitucional. Havia um, e apenas um, interesse na condenação sem provas do Presidente Lula: dar força política à agenda neoliberal, que perdeu nas urnas, e que movimentava-se para esfacelar as instituições brasileiras e garantir a tomada de poder a favor de políticos que vendessem o país aos interesses estadunidenses; Em 2016, com a destituição golpista da Presidenta Dilma, esse interesse venceu; Em 2018, condenar e prender Lula, para impedir que se candidatasse à presidência do Brasil e derrotasse Jair Bolsonaro, até então porta voz destes mesmos interesses.

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A verdade, contudo, é maior do que qualquer golpe. Eleito com apoio da mídia hegemônica, especialmente a Rede Globo, e de políticos como Rodrigo Maia e João Dória, Bolsonaro mostrou-se o que a esquerda brasileira já havia descoberto: um homem sem escrúpulos, sem projeto de um país livre e soberano, antidemocrático e fascista.

No cargo, Bolsonaro retirou poderes da Rede Globo, com a finalidade de sufocar a importância política da emissora no cenário brasileiro. Com isso, mexeu em leis e negou-se a exercer seu mandato de Presidente respeitando os princípios básicos do jornalismo. Jornalismo que, diga-se de passagem, não é meramente lugar de entretenimento, mas de informação de qualidade para o povo brasileiro. Também eleito, foi incapaz de articular reformas neoliberais importantes, precisou sem amparado por Maia e por Guedes, e contra eles virou as costas para agir única e exclusivamente com interesse próprio, de se perpetuar no poder. Bolsonaro quer ser um Mito e não um Presidente da República. E, por isso, a República brasileira está à deriva desde sua eleição, chegando ao atual momento com mais de 250 mil mortes nas mãos de um governo genocida, irresponsável e que até hoje não garantiu a vacinação contra a covid-19 de, sequer, 5% da sua população.

Desde o ano de 2016 a defesa de Lula levanta a tese da incompetência territorial de Sérgio Moro, demonstrando que o processo contra Lula se deu em um verdadeiro tribunal de exceção que já possuía interesse econômico e pessoal na condenação do ex-presidente. Ainda assim, uma grande parcela da população preferiu ser guiada pelas mãos de uma mídia golpista. Foram às ruas pedir o impeachment de Dilma sem sequer entenderem quais eram as forças que estavam forçando o golpe contra a democracia no Brasil. Apoiando-se no discurso mais clichê do fascismo: a defesa da família e a luta contra a corrupção. Agora, cinco anos depois, vemos que a única defesa que Bolsonaro faz é a favor da sua própria família, para autorizar que seu filho compre uma mansão de seis milhões de reais.

Não adianta de nada a mera comemoração agora. É fundamental que as pessoas saiam desse momento sem vendas nos olhos. Ver a verdade sobre todo esse período assombroso da democracia brasileira é sim – necessariamente – olhar para o próprio umbigo e entender quais suas razões para apoiar um golpe de Estado e uma prisão ilegal.

Desde 2014 o campo democrático ouve que o PT e a esquerda deveria fazer autocrítica. Agora é um ótimo momento pra aqueles que apoiaram a lava-jato, mesmo com tantos indícios de ilegalidades, fazerem o que tanto exigiram: autocrítica. E muita. Sem ela vocês vão servir, de novo, de massa de manobra pra interesses escusos. Lembrem-se do ditado: errar uma vez é humano. Duas vezes é mau-caratismo.

Editado por: Vanessa Gonzaga

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