Coluna das Inclusivass

O Movimento Feminista Inclusivass surge de uma articulação propiciada pelo 1° Seminário Mulheres com Deficiência e Políticas Públicas, realizado em março de 2014 em Porto Alegre (RS) Ao seu final, as ativistas e lideranças decidem buscar formas autônomas de construir e implementar ações. As inclusivass lutam pelo empoderamento e defesa dos direitos humanos e a cidadania.

Nossa existência é política: 12 anos de luta das Inclusivass

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Jovem negra em cadeira de rodas escolhe livros em biblioteca com ajuda de outra pessoa.
Mais do que um projeto de intervenção, Mulheres Hispânicas: Canção e Poesia consolidou-se como uma prática pedagógica que articula língua, literatura, identidade e política cultural. | Crédito: Freepik

Porque acreditamos que a luta precisa ser ampliada

Carol Santos*

Agosto termina, mas nossas lutas não cabem em um mês. Para nós, mulheres com deficiência, o Agosto Lilás e a Semana da Pessoa com Deficiência precisam ser muito mais do que datas no calendário. São momentos para denunciar violências, reivindicar direitos, ocupar espaços e afirmar que nossas vidas, nossos corpos e nossas histórias importam.

O Censo Demográfico de 2022 nos ajuda a dimensionar quem somos. No Rio Grande do Sul, foram identificadas 772.077 pessoas com deficiência. Desse total, 58% são mulheres, quase 450 mil mulheres.

É um número que deveria nos colocar no centro das políticas públicas.

Mas ainda existe uma grande pergunta: quem somos?

Os dados do Censo não permitem conhecer, nesse recorte, toda a diversidade das deficiências vivenciadas por essas mulheres. Não sabemos, a partir dessa estatística, quem são essas mulheres em sua diversidade, quais barreiras enfrentam e quantas estão vivendo situações de violência.

Quando não somos identificadas em nossa diversidade, também corremos o risco de não sermos alcançadas pelas políticas públicas.

A invisibilidade também produz violência.

Durante o Agosto Lilás, o Movimento Feminista Inclusivass esteve em diferentes espaços para afirmar que mulheres com deficiência precisam estar no centro do debate sobre prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres.

Estivemos em escolas, participamos de caminhada, audiência e outros espaços de mobilização. Estivemos em uma live para falar sobre a violência contra as mulheres com deficiência e sobre a importância da luta e do ativismo. Também fomos convidadas a participar de um encontro online que reuniu mais de 90 mulheres com deficiência de diferentes estados do país.

Cada espaço ocupado reafirma uma certeza: mulheres com deficiência não podem continuar sendo apenas destinatárias das políticas. Precisamos ser protagonistas de sua construção.

Neste mês, também ampliamos uma agenda que o Movimento Feminista Inclusivass vem construindo desde 2022: a defesa dos direitos das mulheres que sobrevivem a tentativas de feminicídio.

Essa agenda esteve presente no Dossiê Há vida por trás dos dados, do Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, do qual participamos como autoras. No Dossiê, abordamos também o Projeto de Lei nº 1.042/2026, de autoria da deputada federal Maria do Rosário (PT RS), atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados, que institui a Política de Atenção Integral e Proteção às Mulheres Sobreviventes de Tentativas de Feminicídio e seus filhos e filhas.

Essa proposta dialoga diretamente com uma agenda que o Movimento Feminista Inclusivass vem construindo: reconhecer que o feminicídio não termina quando uma mulher morre. Ele também permanece nas mulheres que sobrevivem.

O PL é importante porque reconhece que as consequências de uma tentativa de feminicídio podem ser físicas, psicológicas e sociais, inclusive resultar em deficiência permanente ou temporária, e propõe uma política articulada de proteção, acolhimento e acompanhamento dessas mulheres e de seus filhos.

Estivemos também presentes no lançamento do Dossiê Há vida por trás dos dados, reafirmando publicamente a importância dessa agenda e da construção de políticas que olhem para essas mulheres depois da violência, para suas sequelas, sua autonomia, sua saúde, sua proteção e seu direito de reconstruir a própria vida.

Sobreviver a uma tentativa de feminicídio pode significar carregar sequelas físicas, deficiências adquiridas, dores, mudanças na autonomia, impactos psicológicos, dificuldades econômicas e inúmeras barreiras para reconstruir a própria vida.

E é preciso perguntar: o que acontece depois?

Quem acolhe essa mulher? Quem garante proteção? Quem garante acessibilidade, reabilitação, saúde, renda e condições para reconstruir sua vida? Quem cuida dos filhos e filhas que também sobrevivem às consequências dessa violência?

É preciso compreender que a sobrevivência também exige políticas públicas.

Também demos entrevista para mostrar essa realidade: o que significa sobreviver a uma tentativa de feminicídio e, depois dela, tornar-se uma mulher com deficiência. Uma história de vida que se transforma em luta quando decidimos fazer dela uma voz por tantas outras mulheres.

Vivemos em um Rio Grande do Sul onde os feminicídios continuam em números alarmantes.

No primeiro semestre de 2026, a Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul registrou 41 feminicídios, contra 36 no mesmo período de 2025, um aumento de 14%. É o maior número registrado para um primeiro semestre desde 2023.

Mas há outro número que também precisa ser conhecido.

O Observatório de Feminicídios Lupa Feminista contabilizou 50 feminicídios no mesmo período. A diferença entre os dados está relacionada às metodologias utilizadas para identificação e classificação dos casos, mas ambos os levantamentos apontam para uma realidade que não pode ser naturalizada.

E novamente surge uma pergunta fundamental:

Quem são essas mulheres?

Quantas eram mulheres com deficiência? Quantas já viviam com uma deficiência? Quantas adquiriram uma deficiência em decorrência da violência? Quantas sobreviveram a tentativas de feminicídio e hoje vivem com suas marcas?

Os números são fundamentais para dimensionar a violência, mas também revelam aquilo que ainda precisamos investigar e tornar visível.

Precisamos conhecer as mulheres que estão por trás dos dados.

Precisamos reconhecer as sobreviventes.

Precisamos construir políticas públicas capazes de responder às suas vidas.

Nossa existência também precisa estar nas leis, nas políticas e nos espaços de decisão.

É também por isso que vamos ocupar a tribuna da Câmara Municipal de Porto Alegre no dia 31 de agosto.

Estaremos lá para defender duas propostas apresentadas pelo vereador Giovane Culau: o Projeto de Lei que institui o Dia Municipal da Mulher com Deficiência e o Projeto de Lei que cria a Semana Municipal de Luta e Visibilidade da Mulher com Deficiência no âmbito do Município de Porto Alegre.

Essas propostas são muito mais do que a criação de datas no calendário municipal.

Elas representam o reconhecimento de uma história de luta e da presença das mulheres com deficiência na construção da sociedade. Representam a possibilidade de colocar nossas experiências, nossas demandas e nossas perspectivas no centro da agenda pública.

O Dia Municipal da Mulher com Deficiência reconhece nossa existência política. Reconhece que estamos aqui, que temos história, que construímos movimentos e que somos parte da vida social, cultural e política da cidade.

E a Semana Municipal de Luta e Visibilidade da Mulher com Deficiência propõe algo ainda mais amplo: que Porto Alegre tenha um período dedicado à reflexão, à mobilização e à construção de uma agenda sobre os direitos das mulheres com deficiência, com a participação e o protagonismo dessas próprias mulheres.

Uma semana para falar sobre acessibilidade, violência, autonomia, trabalho, renda, educação, saúde, participação política, cultura, sexualidade, maternidade, envelhecimento e tantos outros temas que atravessam nossas vidas.

Uma semana para que o município não fale apenas sobre mulheres com deficiência, mas fale com as mulheres com deficiência e construa com elas.

A Semana terá início no dia 24 de agosto e será encerrada no dia 30 de agosto, Dia de Luta das Inclusivass.

E essa data não é aleatória.

O dia 30 de agosto marca os 12 anos do Movimento Feminista Inclusivass e reconhece também a trajetória de luta da ativista Carol Santos, fundadora do movimento.

No dia 30 de agosto de 2014, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, começava uma história construída por mulheres com deficiência que decidiram transformar suas experiências em organização, resistência e luta política.

São 12 anos de muitos desafios enfrentados por aquelas que vieram antes de nós e por aquelas que seguem construindo este movimento até hoje.

Uma caminhada construída a partir de uma agenda feminista comprometida com a garantia dos direitos humanos de mulheres e meninas com deficiência no Rio Grande do Sul e que, ao longo dos anos, ampliou sua atuação nacionalmente.

Porque acreditamos que a luta precisa ser ampliada.

A voz das Inclusivass precisa chegar a outros estados. Precisamos fortalecer redes, compartilhar experiências e construir estratégias para que outras mulheres com deficiência também possam ocupar os espaços de luta, participação e decisão.

Por isso, essas duas PLs têm um significado que ultrapassa o calendário.

Elas podem contribuir para que as mulheres com deficiência sejam reconhecidas não apenas como público das políticas públicas, mas como sujeitas políticas, protagonistas e construtoras dessas políticas.

Estamos falando de participação na sociedade.

De participação nos espaços de poder.

De participação nos espaços de decisão.

De reconhecimento da nossa capacidade de pensar, propor, construir e transformar.

Porque inclusão não pode significar apenas estar presente.

Inclusão também é ter voz, poder e participação na decisão.

Enquanto a Semana da Pessoa com Deficiência chega ao fim, precisamos questionar mais uma vez o lugar destinado às mulheres com deficiência nessas agendas.

Onde estivemos neste mês, fomos convidadas a construir. Estivemos nos espaços falando de nós, dos nossos corpos, das nossas experiências e das nossas lutas.

E isso precisa deixar de ser exceção.

Gênero e deficiência não podem ser tratados como temas separados.

Não é possível falar de direitos das pessoas com deficiência sem falar das mulheres.

Não é possível falar de violência contra as mulheres sem incluir as mulheres com deficiência.

Não é possível construir políticas públicas para nós sem a nossa participação.

Não queremos apenas ser lembradas em uma semana.

Queremos ser reconhecidas todos os dias.

Queremos estar onde as decisões são tomadas.

Queremos que nossas histórias sejam conhecidas para além das estatísticas.

Queremos políticas públicas que reconheçam nossas especificidades e nossa diversidade.

Queremos que nossas experiências sejam consideradas na construção de soluções.

E queremos que a cidade reconheça a história de luta construída pelas mulheres com deficiência.

Agosto Lilás termina.

A Semana da Pessoa com Deficiência termina.

Mas a nossa luta continua.

E, aos 12 anos, o Movimento Feminista Inclusivass reafirma o compromisso que nos trouxe até aqui: lutar para que mulheres e meninas com deficiência tenham seus direitos garantidos, sejam reconhecidas em sua diversidade e ocupem os espaços de poder e decisão.

Porque não queremos apenas sobreviver.

Queremos viver com dignidade, autonomia, acessibilidade e direitos.

Nossa existência é política.

Nossa presença é política.

Nossa luta é política.

E depois de 12 anos, seguimos aqui, vivas, visíveis, organizadas e em luta.

*Carol Santos faz parte do Movimento Feminista Inclusivass.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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