Crônicas de Domingo

Crônicas para você ler num domingo preguiçoso, enfadonho, cheio de ressaca, até na praia, no açude, no rio, na mesa de bar, na rede da vó, sentado no vaso sanitário ou sobre o peito do seu amor. Você vai rir, chorar, se desesperar e, talvez, o domingo nem seja tão preguiçoso e enfadonho assim.

Joel Martins Cavalcante é professor de história da rede estadual de ensino da Paraíba, militante dos direitos humanos  e do Movimento Brasil Popular.

O Bom Pastor na Penha

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“O Brasil é um país majoritariamente cristão. Ao mesmo tempo, um país com uma desigualdade social imensa, com violência muito forte. O que está errado?” | Crédito: Arquivo Pessoal – Autor

Refleti: Como um país que, em maioria se diz cristão, está distante dos ensinamentos do Bom Pastor?

Por Joel Martins Cavalcante*

Sempre que mãe passa uns dias aqui (ela mora em Alagoinha/PB) eu a levo para participar da missa no Santuário de Nossa Senhora da Penha, que fica no bairro da Penha, em João Pessoa. Aquele local tem uma energia muito boa. Além disso, a gente se senta no banco da Igreja e tem a possibilidade de, ao mesmo tempo que ver o altar, vez ou outra, olhar para o lado direito e contemplar a beleza do mar. É fascinante.

O quarto domingo do tempo pascal, na liturgia católica, é dedicado ao Bom Pastor, com base no evangelho de João, capítulo 10. O monsenhor Nereudo, em sua homilia, explicou a importância do seguimento a Jesus, o bom pastor, como a porta que assegura a vida para todos.

O preletor faz a seguinte indagação: “será que ouvimos a voz de Jesus?”, ressaltando o tanto de barulho que deixa as pessoas dispersas, impedindo de ouvir a voz do mestre. Ele fez uma comparação com o mau pastor que age da perversidade, que não conhece o rebanho. Mas Jesus veio para que todos tenham vida em abundância, qualidade de vida, dignidade, destacando que “se não tem vida para todos algo está errado”. 

O monsenhor continua sua homilia falando que enquanto está celebrando aquela eucaristia, muitas ovelhas estão morando na rua, passando fome, em situação de insegurança, levando o evangelho para uma análise social, aliando a fé com realidade concreta do povo.

Não pude deixar de fazer minhas reflexões também. O Brasil é um país majoritariamente cristão. Ao mesmo tempo, um país com uma desigualdade social imensa, com violência muito forte. O que está errado? Parece que, como disse o padre, as pessoas, especialmente os que estão no poder (político, econômico, jurídico) não ouvem a voz do bom pastor. 

A maioria das pessoas ricas, inclusive, se diz cristã. Mas fazem ouvido de mercador aos ensinamentos de Cristo sobre dividir o pão, as riquezas. Os primeiros cristãos, relata os Atos dos Apóstolos, dividiam tudo o que tinham. Naqueles primeiros anos, ninguém passava necessidade porque os que tinham mais condições ajudavam os necessitados. Nada de comunismo ou socialismo. É seguimento ao ensino do Bom Pastor, simplesmente.

Como um país que a maioria de seus habitantes se diz seguir os ensinamentos do Bom Pastor está tão distante dos ensinamentos contidos no evangelho? O próprio Jesus, citando o profeta Isaias, disse a resposta: “esse povo me confessa com os lábios, mas o coração está longe de mim”, em Mateus 15.8. 

Muita boa a celebração e homilia que ouvi. Após o término, fui com mãe acender umas velas na capela reservada para isso. Passamos na casa de milagres para ver o quanto a fé popular é profunda. Lá, vi desde próteses de pernas e braços, a maquetes de casas, apartamentos, e até uma prova do ENEM 2022 de um estudante aprovado para o curso de medicina na UFPB.

Descemos a escadaria da Penha, passamos pelos bares e barracas na praia. Conversamos, enquanto esperávamos uma chuva repentina passar, embaixo de uma castanhola, com um senhor que elogiava o cantor João Gomes, que em um bar próximo reproduzia uma canção. “A música dele não doí nos ouvidos”, disse. Concordei. “E ele é bem simples. Vi uma entrevista dele ontem”, disse minha mãe. 

Seguimos na beira mar da Penha até o Seixas, pegamos um guarda-sol, tomamos água de coco (estou passando um tempo sem beber cerveja), uns caldinhos de peixe, e comemos camarão com batata frita. Mas, entre uma onda do mar e outra, no "indo e vindo infinito" como canta Lulu Santos, a reflexão do monsenhor Nereudo vinha na mente.

*Professor de História da Rede Estadual de Ensino da Paraíba, Advogado, Mestre em Educação pela UFPB, Especialista em Educação em Direitos Humanos (UFPB) e em Direitos Fundamentais e Democracia (UEPB). Foi conselheiro suplente do Conselho Estadual de Direitos Humanos da Paraíba (2014-2016) e Secretário de Educação, Cultura e Esportes de Alagoinha – PB (2017). Atua em movimentos sociais ligados aos Direitos Humanos.

Editado por: Polyanna Gomes

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