Por Joel Martins Cavalcante*
Quem me acompanha já sabe: sou professor de história da rede estadual. Mas, ao longo da caminhada, também já dei aulas de sociologia, filosofia e geografia. No fundo, tudo isso conversa entre si. E talvez por isso eu sempre tenha gostado de transformar a sala de aula num lugar onde a gente tenta entender melhor a vida — e não só decorar conteúdo para prova.
Quando o assunto é direitos, especialmente direitos humanos, eu sempre tento explicar da forma mais simples possível. Porque existe uma frase que, infelizmente, ainda circula demais por aí: “Direitos humanos são para defender bandido”. Já ouvi isso em sala, fora dela, em rede social, em conversa de corredor. E, sinceramente, é uma dessas ideias que foram repetidas tantas vezes que muita gente passou a achar normal.
Aí eu volto ao básico. Falo de saúde. Falo de educação. Falo de trabalho. Falo de lazer. Sim, lazer. Muita gente estranha quando digo que descansar, conviver, passear, ter tempo livre, tudo isso também é direito. E gosto de lembrar do artigo 6º da Constituição Federal, que coloca ali, sem rodeio, que trabalho e lazer são direitos sociais. E direitos sociais, meu povo, são direitos humanos.
Às vezes, o problema não é falta de lei. É falta de conversa. É falta de fazer a ponte entre o texto da Constituição e a vida real de quem pega ônibus lotado, de quem trabalha demais, de quem chega em casa sem tempo nem para conversar com os filhos, muito menos para ver o mundo da janela.
Nos últimos dois anos, estive afastado da sala de aula por conta do trabalho no Sintep-PB e na CUT-PB. Saí um pouco da rotina escolar, mas continuei, de outro jeito, dando aula e sendo aluno em outros espaços. Porque esse período me fez mergulhar ainda mais nos debates sobre o mundo do trabalho, sobre direitos, sobre a vida concreta da classe trabalhadora. E, nesse mergulho, uma pauta ganhou força e ocupou ruas, redes, rodas de conversa, audiências e atos: o fim da escala 6×1.
No começo, muita gente torceu o nariz. Inclusive gente do nosso campo. Inclusive companheiros do movimento sindical. E é preciso dizer isso com honestidade. Parte da resistência vinha porque o debate ganhou força nas redes sociais, puxado por quem alguns ainda insistem em olhar com preconceito: uma deputada trans, Erika Hilton, e um homem negro e gay, eleito vereador no Rio de Janeiro, Rick Azevedo. Como se a origem de uma luta valesse mais do que a justiça dela.
O sindicalismo, às vezes, tem dessas manias. Defende bandeiras históricas, como a redução da jornada de trabalho, mas estranha quando a chama não acende dentro da sua própria casa. Só que a luta social não pede licença. Quando ela é verdadeira, ela brota onde o povo está. E hoje o povo está também nas redes, nos vídeos curtos, nas hashtags, nas conversas que começam no celular e terminam nas ruas.
E foi isso que aconteceu.
O que antes parecia distante, técnico, quase incompreensível, virou assunto de padaria, de ponto de ônibus, de almoço em família. A escala 6×1 deixou de ser um código frio das relações de trabalho e passou a ser entendida pelo que realmente é: um modelo cruel, que rouba tempo, cansa corpo, aperta a mente e empobrece a vida.
Eu participei de várias manifestações, lives, debates, sessão na Câmara Municipal de João Pessoa, discussões do Plebiscito Popular 2025, que também trouxe essa pauta com força. E nessa sexta-feira, 20 de março, teve mobilização nacional pelo fim da escala 6×1. Aqui em João Pessoa, logo cedo, eu estava lá, na Lagoa, junto com tanta gente que entende que trabalhar não pode significar abrir mão de viver.
E, pensando nisso tudo, me veio à memória uma fala que fiz, se não me engano, na Assembleia Legislativa, durante uma audiência sobre o plebiscito popular. Naquele dia, eu disse algo que continuo achando muito verdadeiro: defender a redução da jornada de trabalho também é defender a família.
Sim, a família.
Mas não aquela família apertada dentro de um molde único, vendida em discurso pronto, usada em palanque como se o Brasil coubesse numa fotografia antiga. Falo das famílias reais. Das muitas famílias que existem. Das mães solo. Dos avós que criam netos. Dos casais com filhos. Dos casais sem filhos. Das famílias LGBTQIA+. Das famílias que se formam no afeto, no cuidado, na luta diária para colocar comida na mesa.
Defender a família é defender tempo para viver em família.
É defender que o pai chegue em casa antes do filho dormir. É defender que a mãe possa descansar sem culpa. É defender que alguém consiga almoçar num domingo sem já estar pensando na segunda. É defender que o trabalhador tenha tempo de brincar, de amar, de visitar, de cuidar, de simplesmente estar.
E digo mais: até para quem enche a boca para falar de fé, de igreja, de culto, de valores cristãos, a conta é simples. Como é que a pessoa vai para a igreja se mal tem folga? Como é que o crente vai viver sua fé se a escala suga o tempo, a energia e até o domingo? Defender a redução da jornada é também defender o direito de professar a fé. É curioso como alguns deputados, muitos deles pastores, não percebem isso — ou fingem não perceber.
No fim das contas, talvez a discussão sobre a escala 6×1 seja uma dessas conversas que revelam muito sobre o país em que vivemos. Porque ela parece falar apenas de jornada de trabalho, mas fala de muito mais.
Fala de dignidade.
Fala de saúde mental.
Fala de tempo.
Fala de afeto.
Fala do direito de existir para além da sobrevivência.
Talvez por isso essa seja uma boa reflexão para um domingo. Porque domingo, para muita gente, ainda é o único pedaço da semana que parece vida. E ninguém deveria viver esperando apenas por um único dia.
Domingo também é direito.
E uma sociedade justa talvez comece exatamente quando a gente entende isso.
*Joel Martins Cavalcante é professor de história da rede estadual de ensino da Paraíba e militante dos direitos humanos e do Movimento Brasil Popular.
**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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