Cynthia Ciarallo

Doutora em Psicologia e instrutora da Diversando – Consultoria e Educação em Equidade

Psicologização do trabalho escravizado e os 14 de maio

No audio source provided.
Doméstica resgatada de trabalho análogo à escravidão | Crédito: AFT/Divulgação

A colonização dos afetos também não é uma ação isolada, é um conjunto de dispositivos que forja e reúne saberes especializados, crenças, rotinas, procedimentos.

Escravização doméstica não se restringe à exploração da força de trabalho, da restrição material em forma também de dívida, da “posse” plena do corpo, do controle absoluto do tempo de vida, de mecanismos tantos para manter a total dependência. É uma tecnologia que se atualiza.

No contexto doméstico, os afetos são dispositivos de controle, de ambiguidades, de inseguranças, falseando certezas. Afetos estão histórica e politicamente localizados, não se restringem, definitivamente, a uma experiência pessoal, individual.

A violação de direitos passa a ser descrita com outros nomes, “bem tratada”, “da família”, “tinha tudo que necessitava”, “comia o que a família comia”, “viajava”, “tinha um quarto”, ela até poderia respirar, não é verdade?

Escravizar para a vida doméstica não se configura, necessariamente, por gritos, surras físicas, como habita o imaginário social quando se pensa em escravidão – seja como dissonância cognitiva, seja como representação social. Escolha sua abordagem.

Escraviza-se também a alma. A colonização dos afetos também não é uma ação isolada, é um conjunto de dispositivos que forja e reúne saberes especializados, crenças, rotinas, procedimentos.

O Estado, por um serviço psicossocial, afirmar que manter uma mulher de 62 anos em uma família – que vem sendo chamada pela mídia de “empregadores” – se justifica porque esses escravizadores são a única referência de afeto dessa mulher escravizada é algo absurdo. Foucault já nos provocou sobre o saber-poder, o chamamento de especialistas ao sistema de justiça para subsidiar decisões, mesmo que, em tese, não tenham a caneta.

Boa política não se mede pela régua da boa intenção. A narrativa do afeto é perigosa e tem potencial alienador e opressor.

Assinaram um Termo de Ajuste de Conduta (TAC)?

A escravidão não pode ser tratada como uma conduta a ser “ajustada”. Sim, sabemos que o TAC é dispositivo do Estado legalmente previsto, mas esta medida, neste contexto, torna-se profundamente questionável, aponta para a manutenção do privilégio de quem oprime, escraviza. Não é ajustar uma conduta. É eliminá-la. Já está suficientemente configurado que não são “empregadores”. Pessoas com posses e acesso à informação, escravizaram por mais de 50 anos uma mulher desde seus 7 anos, são três gerações nesta “conduta”, não há o que ajustar. O verbo é outro.

Resgatar pessoas escravizadas não é, realmente, apenas retirar pessoas da lugar que as oprime, como fizeram naquele 13 de maio da nossa história, deixando-as “à sorte”. Hoje temos outros dispositivos.

Mas, pelos encaminhamentos feitos, parece que estamos revisitando as mesmas estratégias do 14 de maio e elas não deram certo ou deram, pelo menos para quem se manteve no poder.

*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.


Apoie a comunicação popular no DF:

Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]

Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.

Entre em nosso canal no Whatsapp e acompanhe as atualizações.

Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de Whatsapp do BdF DF: 61 98304-010

Editado por: Flavia Quirino

|

Newsletter