Diversidade e Inclusão

Nesta coluna, a musicoterapeuta Deyse Araújo reflete sobre os desafios e possibilidades de pessoas e famílias atípicas em diferentes contextos; da escola aos serviços públicos de saúde. Com foco em temas como capacitismo, violência estrutural, cuidado inclusivo e o papel transformador da musicoterapia no Sistema Único de Saúde (SUS), a autora traz uma perspectiva crítica e sensível sobre as barreiras sociais e institucionais que atravessam esses contextos.

O viés capacitista na reabilitação e o desafio de superar as barreiras atitudinais

No audio source provided.
‘A reabilitação não deve ser entendida como um percurso de “normalização”, mas como um processo de remoção de barreiras’, afirma Rosana Cavalcante Pereira, autora deste texto | Crédito: Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Ser hábil não é andar, falar ou mover-se conforme um padrão, mas ter condições reais de participar da vida com dignidade

Por Rosana Cavalcante Pereira*

A opressão é sempre sustentada e reproduzida por uma ideologia, o componente simbólico que acompanha as práticas materiais de subordinação. O capacitismo deriva da “ideologia da normalidade”, que fundamenta a classificação das pessoas com base em seus corpos e habilidades, reforçando uma hierarquia entre os considerados normais e superiores e os vistos como desviantes e inferiores. Isso legitima a marginalização, a sujeição e até a violência contra pessoas com deficiência.

Uma forma silenciosa do capacitismo se manifesta nas chamadas barreiras atitudinais: comportamentos e posturas individuais, institucionais e/ou sociais que desvalorizam pessoas com deficiência, seja tratando-as como incapazes, vítimas de uma tragédia pessoal ou, em outro extremo, como heróis da superação. Essas barreiras estão presentes em todos os níveis do sistema de saúde e impactam diretamente a qualidade e a efetividade do atendimento oferecido, ao negar à pessoa com deficiência o direito à diferença e o respeito à sua singularidade.

No contexto do cuidado às pessoas com deficiência, preconceitos, estereótipos e expectativas baseadas no “normalismo” permeiam as relações sociais e profissionais, somando-se às dificuldades impostas pelas limitações físicas e/ou cognitivas.  A ideia de que existe um corpo ideal – plenamente capaz, independente e produtivo – orienta metas terapêuticas que desconsideram os contextos e desejos das pessoas com deficiência.

Nesse modelo, a reabilitação tende a ser compreendida como o retorno a uma suposta funcionalidade “normal”, centralizando no paciente a responsabilidade pelo sucesso terapêutico, e muitas vezes reforçando a sensação de inadequação e fracasso.

Essa lógica tem impactos profundos. Profissionais da saúde frequentemente tomam decisões sobre alta, metas terapêuticas e informações a serem transmitidas baseando-se em suas próprias expectativas negativas sobre o impacto da deficiência na vida das pessoas. Essa postura desconsidera o que foi chamado de “o paradoxo da felicidade”, ou a “alta qualidade de vida contra todas as chances”, acerca dos quais há vasta literatura científica, em que pessoas com doenças crônicas e deficiências severas relatam ser felizes e ter boa ou excelente satisfação com a vida, a despeito de que, para muitos observadores, elas vivem vidas indesejáveis.

Ao projetarem seus valores sobre o que consideram uma vida válida, os profissionais correm o risco de limitar a autonomia dos pacientes e reforçar estigmas capacitistas. Em contextos de doenças degenerativas, por exemplo, a decisão sobre interrupção de tratamento ou limitação de intervenções é, por vezes, tomada unilateralmente, com base em julgamentos de valor sobre a qualidade de vida com deficiência, reforçando uma postura paternalista que, mesmo quando bem-intencionada, desconsidera os desejos e perspectivas do usuário e de sua família.

Recorrentemente, cuidadores de pacientes com Distrofia de Duchenne relatam que desconheciam a possibilidade de prolongar a vida do filho com suporte ventilatório, porque nenhum médico jamais havia mencionado essa opção. A omissão, nesse caso, configura negligência informacional e é uma forma grave de barreira atitudinal, que restringe alternativas e direitos.

O normalismo também se expressa na insistência de recuperar a marcha em casos em que essa aquisição é prognóstico improvável, demanda grande gasto energético e potencializa riscos de queda. Nesses casos, a reabilitação poderia concentrar esforços na autonomia do paciente na utilização da cadeira de rodas.

A problemática do tema consiste na busca por uma “solução” inalcançável para a maior parte da população, enquanto investimentos muito menores podem ser destinados à ampliação de calçadas acessíveis, transporte inclusivo e mobilidade urbana para cadeirantes, promovendo funcionalidade e participação real

Nesse sentido, a influência do normalismo pode ser vista nos investimentos vultosos em tecnologias “restauradoras” de marcha. O projeto do neurocientista Miguel Nicolelis, por exemplo, que criou um exoesqueleto para fazer pessoas com paraplegia voltarem a andar, consumiu recursos altíssimos, comparáveis, segundo o próprio, aos custos de uma missão espacial. A problemática do tema consiste na busca por uma “solução” inalcançável para a maior parte da população, enquanto investimentos muito menores podem ser destinados à ampliação de calçadas acessíveis, transporte inclusivo e mobilidade urbana para cadeirantes, promovendo funcionalidade e participação real.

Não se trata de abandonar o avanço científico, mas de equilibrar prioridades para que o cuidado seja plural, acessível e centrado nas possibilidades reais de cada sujeito. Isso ilustra que, como sociedade, seguimos investindo fortunas para fazer corpos se adaptarem ao mundo, quando poderíamos transformar o mundo para acolher todos os corpos.

Ser hábil não é andar, falar ou mover-se conforme um padrão, mas ter condições reais de participar da vida com dignidade. A deficiência não deve ser entendida como um problema inerente ao indivíduo cujo corpo foge à norma, mas como uma questão com profundas raízes sociológicas e políticas, marcada pela sistemática negação de direitos a pessoas com diferenças corporais, sustentada por valores, atitudes e práticas discriminatórias, tanto em nível individual quanto institucional. Por isso, a reabilitação não deve ser entendida como um percurso de “normalização”, mas como um processo de remoção de barreiras – inclusive as atitudinais – e de sustentação de possibilidades reais de vida e pertencimento, sem supervalorização de conquistas ou subvalorização de capacidades.

Desconstruir barreiras atitudinais exige, portanto, um compromisso ético e político dos profissionais de saúde para além dos protocolos técnicos. A ampla adoção da Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF), em substituição ao modelo biomédico centrado na CID, amplia nosso olhar para fatores ambientais e sociais que impactam a vida da pessoa, deslocando o foco da “deficiência” para a funcionalidade no contexto de vida de cada sujeito. É uma medida importante, mas deve ir além do discurso, implicando ações concretas. Uma leitura crítica da CIF, evitando que seja usada de forma mecânica ou reducionista,  pode ajudar a reconhecer os fatores contextuais como elementos centrais da funcionalidade.

Além disso, para enfrentar essas barreiras, o Projeto Terapêutico Singular (PTS) é uma ferramenta fundamental, pois permite a construção conjunta do cuidado, centrado nas necessidades e desejos reais do usuário. Outras medidas essenciais são a garantia do acesso de pessoas com deficiência à universidade, o fomento a pesquisas feitas por essas pessoas, a inclusão da imprescindível crítica ao modelo médico (seus reflexos na reabilitação e suas implicações políticas) na formação de profissionais de reabilitação e a adoção de práticas centradas na pessoa (PCP) e na participação social.

Considerar essas importantes medidas para romper com o status quo é crucial para que não reforcemos, apesar das inegáveis boas intenções, a opressão e marginalização das pessoas com deficiência. Nosso compromisso ético, como profissionais da saúde, é abandonar a lógica do normalismo e atuar na direção da escuta, da equidade e da justiça social, propondo e atuando em formas não apenas de reabilitar os usuários, mas de “habilitar” a sociedade para adequar-se às diferentes e legítimas formas de existir e se mover no mundo.

* Rosana Cavalcante Pereira é fisioterapeuta e mestra em Fisioterapia, pelo Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia da Universidade Federal da Paraíba (PPGFis/UFPB). Atua há 17 anos no Centro Especializado em Reabilitação (CER IV). Foi convidada pela musicoterapeuta Deyse Araújo para escrever este texto.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Apoie a comunicação popular, contribua com a Redação Paula Oliveira Adissi do jornal Brasil de Fato PB
Dados Bancários
Banco do Brasil – Agência: 1619-5 / Conta: 61082-8
Nome: ASSOC DE COOP EDUC POP PB
Chave Pix – 40705206000131 (CNPJ)

Editado por: Carolina Ferreira

|

Newsletter