Diálogos Feministas

Diversos Coletivos Feministas do RS se uniram em 2020 e criaram um espaço de debates chamado Diálogos Feministas. A partir do diálogo surgiu a necessidade de escrever e assim nasce a coluna Diálogos Feministas, trazendo artigos semanais, assinados por diferentes militantes feministas.

Somos essenciais

No audio source provided.
hospital uti
“A responsabilidade não pode ser tratada apenas no campo individual do uso ou não uso de máscaras” | Crédito: Créditos da foto: Arquivo Hospital das Clínicas

A chamada Reforma Administrativa vem para vulnerabilizar ainda mais as mulheres

A dupla jornada se transformou em jornada integral no “novo normal”. Nos desdobramos entre o trabalho não remunerado e as tarefas profissionais. As atividades remotas se tornaram uma alternativa, mas o transporte público segue lotado. As escolas e creches fecharam, ampliando nossas responsabilidades diárias. O confinamento, o medo, a privação do sono, as restrições financeiras e a incerteza do futuro nos atormentam nesse loop infinito.  

Ser mulher na pandemia é sinônimo de resistência em suas múltiplas dimensões. Das profissionais da saúde às atendentes dos supermercados. Estamos cansadas, mas força, cuidado e acolhimento ainda resistem em nosso vocabulário.

No mundo, somos 70% da força de trabalho na linha de frente no combate do novo coronavírus, segundo o relatório “Covid-19: Um Olhar para Gênero” do Fundo de População das Nações Unidas (da sigla em inglês UNFPA). Em solo brasileiro, 65% dos seis milhões de agentes da saúde são do sexo feminino, como em áreas do serviço social, onde ultrapassa 90% de presença, e 80% na enfermagem e psicologia, conforme dados do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

Somos trabalhadoras de diversas categorias lutando pela vida e pelo direito de uma existência digna, dentro de um sistema capitalista onde as vítimas são apenas números e o que importa é o acúmulo do capital.

O que ganhamos por tanta dedicação e profissionalismo?

Agora, mais uma reforma contra as mulheres. Bolsonaro e sua trupe não perdem a oportunidade de perpetuar o machismo estrutural e o ataque à emancipação feminina. A chamada Reforma Administrativa vem para vulnerabilizar ainda mais as mulheres e seguir com o projeto de destruição da assistência social aos brasileiros, através do enfraquecimento das estruturas do Estado e do serviço público.

A Proposta de Emenda Constitucional 32/2020 segue na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados (CCJ). O texto altera 27 trechos da Constituição Brasileira de 1988 e acrescenta mais 87, o que resultou em quatro novos artigos. As principais alterações ocorreram nas contratações, remunerações e desligamentos de cargo nas esferas municipal, estadual e federal. A PEC 32/2020 abre caminho à terceirização de serviços às empresas privadas, acaba com a estabilidade do servidor público, prejudica a continuidade da prestação de assistência gratuita e diminui o combate à corrupção.

O governo federal a nomeia de PEC da Nova Administração Pública e a considera uma das propostas prioritárias no calendário desse ano, sob a justificativa de ser uma medida necessária para manutenção da economia. A intenção é que ela chegue ao Senado ainda no primeiro semestre de 2021. Mas, apenas uma parte da administração pública será atingida de fato, ficaram de fora o Poder Judiciário, militares e parlamentares. O clássico “corte de gastos” que penaliza somente a classe trabalhadora.

E mais uma vez, a redução de direitos impactará duramente as mulheres. Sabemos que a desigualdade de gênero no mercado de trabalho é histórica e isso não é diferente no funcionalismo público. De acordo com o estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado em 2020, a participação das mulheres no serviço público chegou a 59% em 2017, ganhando em média 24% menos do que os homens.

Caso aprovada, a PEC 32 irá fragilizar a saúde básica, o controle de taxa de mortalidade infantil, o acesso à educação gratuita e a assistência social, setores com atuação majoritariamente feminina. Tanto as trabalhadoras do funcionalismo, como as usuárias desses serviços, principalmente as mulheres negras, irão sofrer com a reforma administrativa.

Responsabilizar e precarizar o funcionalismo público pelas dificuldades econômicas do Brasil fazem parte do jogo sujo do governo bolsonarista. Atendimento gratuito e de qualidade à população não é o motivo do esvaziamento dos cofres públicos. Serviço público é solução e investimento, não prejuízo.

Morgana Virgili – jornalista, militante feminista

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter