Ana Paula Fagundes*
Em uma noite de lua crescente, em algum lugar desta cidade, aconteceu um encontro de mulheres, o que é “perigoso” por essência. A existência das mulheres na sociedade ainda é entendida como um perigo. Em Brasília neste mesmo dia aconteceu a “Marcha das Mulheres Negras”, marchando pelo bem viver.
Sob o brilho da lua saímos às ruas neste 25N, tendo os postes e muros como companheiros. “Não pode falar, não pode falar”, cantamos antes na preparação. Mesmo que o nome dele tenha sido estampado nos jornais, que haja processo judicial, que a vítima tenha falado, não pode falar o nome. E assim, cobras rastejantes – no sentido ruim do significado da cosmopercepção eurocentrada, se criam.
Velhos e novos abusadores dos corpos de mulheres, meninas e dissidentes continuam a atuar. Abusos se mantêm alimentados pelo medo semeado nas vítimas, rede de apoio e meios de comunicação. Está sempre presente a ameaça de que se será alvo de um processo judicial por calúnia e difamação. E neste tipo de processo a justiça parece atuar com mais celeridade.
Chega-se ao absurdo de que mesmo frente ao anonimato querem silenciar as denúncias. Já aconteceu de narrarmos a violência cometida por um mestre de capoeira que batia na mulher e filha – sem dizer nome – e depois sermos interpeladas por outro homem que ameaçava processar. Como resposta foi questionado se ele “também” batia na mulher e filha. Infelizmente, parece que vai ter fila de homens ameaçando processar, já que repetem o comportamento errado.
Corpo das mulheres, todos eles, independente de cor, etnia, padrão corporal, classe social, escolha sexual não é propriedade dos homens, como querem nos fazer, ainda, acreditar!
Em 1976, quando muitas de nós nem éramos nascidas e outras eram crianças, Angela Diniz foi morta. Em 1995 Beatriz Nascimento foi assassinada. Eram mulheres que ousaram serem livres ou contestar o machismo e violências decorrentes. Homens mataram estas mulheres quando ainda não existia o crime de feminicídio tipificado em lei, o que veio a ocorrer apenas em 2015.
Como não bastam leis para mudar comportamentos, mulheres continuam sendo mortas, em uma lista que parece não ter fim. Semana passada, no 21/11 – já nos 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres – Catarina foi estuprada e teve sua vida ceifada em Florianópolis. A atriz e capoeirista Magô em 2020 também foi violentada e morta. Ambas estavam junto à natureza. Eram mulheres lindas, que brilhavam por onde passavam.
“Linda, livre e louca” é a chamada de um streaming para a série que trata da história de Angela Diniz. Era uma mulher que brilhava, como brilham tantos corpos e existências que fogem a regra do padrão da sociedade branca hetero-cis-patriarcal. Parece que a regra é: o que é dissidente deve ser contido, combatido ou eliminado.
Pela violência tentaram tirar a liberdade destas pessoas, tratar como propriedade, como objetos e apagar o brilho. Mas a inveja e a insignificância que tentou ofuscar não foi suficiente e elas continuam brilhando, com a história viva e iluminando nossos passos como a luz da lua.
Que os postes e as ruas possam fazer reverberar nossas vozes e luta nestes dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. Que as imagens e textos funcionem como espelhos. E quando enxergar o que tem de ruim ali ilustrado, ou se ver refletido na mensagem, que seja capaz de promover reflexão e mudança de comportamento. Sonhar é possível, lutar é necessário e brilhar é para todas as pessoas. #DiaInternacionalpeloFimdaViolenciaContraasMulheres
*Ana Paula Fagundes é bióloga, ambientalista, mãe, capoeirista no Coletivo de Capoeira Angola Gira Ginga, integra a rede Estudos e Intervenção Feminista na Capoeira Marias Felipas.
**Contribuição de Marilu Goulart e Christine Zonzon.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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