Diálogos Feministas

Diversos Coletivos Feministas do RS se uniram em 2020 e criaram um espaço de debates chamado Diálogos Feministas. A partir do diálogo surgiu a necessidade de escrever e assim nasce a coluna Diálogos Feministas, trazendo artigos semanais, assinados por diferentes militantes feministas.

O tempo da justiça dos homens é demorado. A vida quer passagem

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campanha contra as violências na capoeira
Cartaz/lambe da campanha contra as violências na capoeira. 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres, 25N | Crédito: Reprodução

Estes pactos estabelecidos e arraigados versam sobre poder

Ana Paula Fagundes*

Na sociedade (sobre)vivemos sob a força de diversos pactos, como o pacto da branquitude, tão bem desenhado por Cida Bento e o pacto da masculinidade. Na realidade estas forças atuam em conjunto. Carla Akotirene parte do conceito de interseccionalidade cunhado pela jurista estadunidense Kimberlé Crenshaw e ressalta a importância de enxergar o indivíduo nas diferentes dimensões que o constitui, isto é, a combinação das opressões que sofre.

Estes pactos estabelecidos e arraigados versam sobre poder. Atuam para perpetuar o poder nas mãos de alguns e para aniquilar qualquer tentativa de abalo da estrutura hierarquizada. Vemos o reflexo nas instituições, na forma de atuação dos diferentes poderes, e nas relações entre as pessoas.

Dizem que tem que fazer denúncia na justiça para ter credibilidade. Mas quando se levanta uma denúncia de abuso sexual, de perseguição, de abuso psicológico, de violência de gênero e é levado a justiça, há que ter paciência. O tempo da justiça dos homens é demorado.

Abusos sexuais praticados por mestre de capoeira desde a década de 70 se tornaram públicos apenas em 2021, quando o Ministério Público do Ceará recebeu denúncias de ao menos 15 pessoas. A violência sexual era tida como um “teste”, com promessas de viagens ao exterior e melhoria de vida, ou mesmo em troca de comida, para crianças e adolescentes de famílias pobres ou em vulnerabilidade.

Por todo o Brasil e exterior, percorreu a notícia de práticas de abusos por décadas de crianças, meninos e meninas, sob a cortina da capoeira e do discurso de ser um ambiente de luta na sociedade.

Há, ainda entre os mestres, feminicidas, do tipo que ateia fogo na esposa em noite de Natal. O julgamento do caso ocorrerá somente 14 anos depois do crime. Neste tempo, o assassino circulou em eventos e rodas como se nada tivesse acontecido.

O Pacto da masculinidade

Ano passado, 2024, ao saber de uma denúncia contra o ministro dos direitos humanos lembramos, com tristeza, de um episódio ocorrido na capoeira angola. O assédio praticado por um ministro negro contra uma ministra negra nos fez lembrar de situação similar na capoeira angola. Um mestre negro abusou de uma mestra negra, na realidade duas mulheres em uma noite, mas foi a mestra que teve a coragem de denunciar o que aconteceu.  Tal como no caso da ministra, existia uma relação de poder entre a vítima e o agressor. Apesar disso, da mesma forma como na esfera política, muitas pessoas exaltam a atuação e o trabalho do homem agressor na sociedade ou comunidade tentando abafar ou deslegitimar a denúncia e a denunciante.

A estrutura machista e o pacto da masculinidade é tão presente na capoeira que, mesmo frente a uma denúncia de crime sexual na justiça, a comunidade da capoeira não modifica a forma de tratamento, continuando a ovacionar abusadores tidos como relevantes nesse meio. Eles saíram um pouco de cena,  esperaram a poeira baixar e depois voltaram a ser ovacionados.

A vida não espera

Meninos se suicidaram frente à morosidade da decisão do martelo da justiça. Com suas psiques abaladas por verem os abusadores sendo homenageados, participando de festas, de eventos, enquanto elas – as vítimas, foram afastadas, desacreditadas e ameaçadas de morte por terem contado o que aconteceu. O que delatou em 2020 os estupros sofridos por seu mestre desde 2017, no Mato Grosso do Sul, não suportou a violência que a denúncia da própria violência acarretou, suicidando-se. Seu caso seria julgado apenas em 2024.

Bebendo da impunidade e da morosidade da Justiça, que choca ovos enquanto cobras se criam, covardes seguem atuando e ensinando outros como se faz da capoeira a “hierarquia dos abusadores”. Novos perversos e machistas vão se criando neste ambiente de impunidade no rastro daqueles que já são conhecidos por seus abusos. A opressão de gênero é ocultada sob discursos de resistência contra o sistema dominante, de luta antirracista e decolonial (4).

Nos eventos onde “mestres abusadores” são celebrados, homens mais novos absorvem as práticas violentas como se fosse uma transmissão de conhecimentos (ou saberes),  uma matéria de aprendizado da capoeira. E assim abusos são repetidos como prática natural, apesar das denúncias e gritos das vítimas e apoiadoras que são vistas como palavras mudas.

Fala-se em legado, e reproduzem, no cerne da ancestralidade, o abuso de homens sobre mulheres e crianças, o sistema patriarcal e colonial. Não é de África, não é da terra, não é do sangue e suor daqueles que fizeram da sua vida a luta pela liberdade.

Decolonizar a capoeira significa retornar às origens, sem a opressão patriarcal que insiste em violar este meio. É não aceitar mais nenhuma vítima, reconhecer e acolher aquelas que têm muito a dizer, como um dever, não uma opinião, é uma maneira de honrar aquelas e aqueles que vieram antes de nós.

A ancestralidade e essência que tornam a capoeira uma arte e luta afro-brasileira tão bonita não bebem o sangue dos mais vulneráveis, pelo contrário os defendem com garras e dentes. Já, nesta capoeira da hierarquia dos abusadores, se a pessoa é vulnerável, se já passou por situação de abuso sexual, então é presa fácil. É objetificada. É mais uma para o covil.

Ainda mais problemático é estes homens realizarem trabalhos nas periferias, com tantas crianças em situação de vulnerabilidade. Quem dá importância à voz da vítima? Ela é mais uma esquecida pela sociedade. Abusadores sempre recorrem ao discurso – já aceito e naturalizado na sociedade machista em que vivemos – onde a palavra do homem, sua aparência, seu trabalho, o que fez pela comunidade vale mais do que a da vítima. É como se a vida da vítima não tivesse valor, não tem poder nem importância frente ao “legado” do “bom sujeito”, abusador. Não é diferente na capoeira, onde os agressores comparam sua trajetória com o que a vítima denuncia, deslegitimando sua palavra e dor.

A capoeira é patrimônio imaterial da humanidade, herança da ancestralidade africana e brasileira. Expressão de resistência que educa, emancipa e conecta. Justamente por isso, não pode ser sequestrada por hierarquias de abusadores que transformam mulheres e crianças vulneráveis em vítimas potenciais e de fato. Reconhecer essa realidade implica enfrentar o silêncio cúmplice e romper com o patriarcado que insiste em se esconder sob o discurso de tradição. Proteger a capoeira é proteger sua essência de liberdade, e isso só é possível quando se coloca no centro a voz das vítimas e se expulsa do jogo os predadores que insistem em manchar sua roda.

Para modificar pilares que estruturam a sociedade: machismo, racismo, classismo, é necessário disponibilidade e coragem para enfrentar e rever privilégios. A capoeira tem em sua história o legado de luta e resistência de rainha  Nzinga que nos reinos de Matamba e Ndongo lutou contra o poder do Estado português, o sistema colonial em África, do líder Zumbi que não se vendeu as propostas indecorosas do império, não traiu seu povo, não traiu os princípios palmarinos com negociatas que não beneficiam a coletividade. Assim, com coragem, a capoeira haverá de honrar a luta dos que vieram antes, rompendo os grilhões de todas as opressões, em busca da liberdade para todas as pessoas.

Enquanto, pouco a pouco, a justiça vai sendo feita, novas relações mais humanas e uma capoeira mais libertária vão se criando. Por moldes e meios que escapam ao modelo da sociedade dominante, novos grupos vão se formando, nas brechas, nas frestas que respiram fugindo do sistema dominante opressor.

*Ana Paula Fagundes é bióloga, ambientalista, mãe, capoeirista no Coletivo de Capoeira Angola Gira Ginga, integra a rede Estudos e Intervenção Feminista na Capoeira Marias Felipas.

**Contribuição de Marilu Goulart, Christine Zonzon e Celeste Pastro Botoni.

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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Editado por: Vivian Virissimo

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