Nem bem o Brasil e a América Latina começavam o ano de 2026 quando acordaram no sábado, 3 de janeiro, com um ataque militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, que terminou com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa e com dezenas de mortos (números divulgados indicavam quase 100 pessoas que perderam a vida nos bombardeios estadunidenses contra infraestruturas estratégicas e áreas militares).
Inicialmente, o governo dos Estados Unidos, seu presidente Donald Trump e suas principais lideranças justificaram a agressão militar e o sequestro com a alegação de supostos processos judiciais contra Maduro que deveriam ser julgados nos EUA, em uma clara violação da soberania da Venezuela e do direito internacional. Em coletiva ainda no dia 3 e em declarações de figuras-chave do governo estadunidense, foi explicitado que o objetivo era o controle dos recursos venezuelanos, especialmente do petróleo daquele país. Trump afirmou que os EUA iriam “administrar” a Venezuela, mas desde então vem adotando uma narrativa errática que alterna promessas de novas investidas e ameaças ao Estado venezuelano e a outros países, caso da Colômbia.
Na mais grave agressão militar dos EUA à América do Sul da história, que revela a profundidade da crise sistêmica e da hegemonia estadunidense em particular, a cobertura da mídia brasileira foi marcada pela ausência de explicações básicas sobre a geopolítica e a ilegalidade do ataque. Ainda que a menção aos interesses em torno do petróleo exista, a leitura é acrítica e, em muitos casos, chega mesmo a justificar as ações estadunidenses. A maioria dos veículos da mídia tradicional adotou termos brandos. A palavra “captura” é usada em vez de sequestro. A “ação” ocupa o lugar que deveria ser de invasão, agressão ou ataque ilegal. Maduro é sempre referido como “ditador”, enquanto não há qualquer termo pejorativo para nomear Trump que lidera ataques e intervenções ilegais em uma série de países e ameaça novas nações. Curiosamente, sua vice, Delcy Rodríguez, eleita no mesmo processo eleitoral, é corretamente chamada de “presidente interina”.
Na principal emissora de TV brasileira, a Rede Globo, a cobertura foi bastante limitada. Um exemplo importante foi o Fantástico do dia 4 de janeiro, principal programa da emissora do fim de semana. Embora a linguagem reconhecesse que se tratou de uma invasão, o texto das reportagens não afirmou a ilegalidade desta, cabendo esta afirmação elementar a uma declaração de um senador estadunidense de oposição a Trump e a de um cidadão venezuelano. O alegado “processo” foi explicado sem qualquer contextualização que não há base legal para sequestrar um presidente ou cidadão de outro país para julgá-lo no seu, normalizando a narrativa falsa difundida pelo governo para tentar legitimar sua ação.
Os repúdios das autoridades do governo Maduro receberam menções breves, diminuindo a reação contrária. Na matéria de abertura, representante do governo venzuelano menciona apenas o número de mortos. As manifestações de repúdio da população na Venezuela e em outros países foram escondidas. Apenas venezuelanos no país e no Brasil foram ouvidos, com diferentes opiniões.
As motivações de Trump, completamente escancaradas pelo próprio em sua coletiva concedida no dia do ataque, também ficaram escondidas. Já as justificativas e contra-argumentações do governo Trump ganharam mais destaque. A primeira parte do programa global trouxe respostas do governo sobre a invasão, antes mesmo de apontar sua ilegalidade. A correspondente da emissora em Nova Iorque ressaltou a justificativa sobre a caça ao petróleo venezuelano sem sequer informar que Trump disse claramente ser este o objetivo central. Por fim, o aspecto mais grave das declarações do mandatário estadunidense, sua ameaça de que iria “administrar” a Venezuela, foi escondido.
Faltou também um elemento básico do bom jornalismo: contexto. Enquanto o Fantástico deu bastante tempo a partes de um documentário sobre a ascensão de Maduro de tom fortemente crítico, não houve qualquer contexto sobre o histórico de ataques militares dos EUA ou de intervenções diretas ou indiretas nas América Latina e no Brasil. A nova estratégia de segurança nacional que reeditou a Doutrina Monroe, aprovada pelo governo Trump recentemente, foi apresentada sem qualquer ponderação da ilegalidade que significa “ampliar” a presença do país na região.
No Jornal Nacional, a linha da cobertura foi semelhante. Na edição de 5 de janeiro, por exemplo, o “processo” contra Maduro foi noticiado com absoluta normalidade. Críticas à operação surgiram apenas nas falas da maioria dos países que participaram da reunião do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. O governo venezuelano seguiu escondido, com declarações sendo noticiadas dentro de uma reportagem sobre as ameaças à Colômbia. Os protestos na Venezuela e os dezenas de atos em defesa da Veneuela realizados no Brasil e nos Estados Unidos, entre outros países, no mesmo dia 5 não receberam qualquer menção, reforçando a linha de apagamento das reações da sociedade civil.
Em grandes jornais, a abordagem também relativizou a gravidade e em diversos casos normalizou o ataque. A Folha de S. Paulo destaca-se nesse tipo de abordagem, com amplo espaço para reportagens e artigos de opinião onde o termo captura é empregado em vez de sequestro. Na edição do dia seguinte ao ataque, 4 de janeiro, declarações de Trump foram reproduzidas com pouca ponderação. No mesmo dia, enquanto estampava a manchete “Trump prende Maduro em Nova York e deixa pontas soltas em relação ao futuro da Venezuela”, a posse da vice Delcy Rodríguez como presidenta interina e seu reconheciment pelos militares venezuelanos aparecia como terceiro destaque. O jornal também demorou para noticiar o posicionamento do Brasil, do Chile e da Colômbia, que condenaram o ataque. De outro lado, um editorial do jornal condenou corretamente a imposição da força sobre a lei da América Latina. O carrossel de imagens que explicariam o ataque militar termina com uma foto da bandeira Venezuelana iluminada pelo sol, sobre a qual há a frase: “Após a captura, celebrações foram ouvidas em Caracas”.
No âmbito interno, as reações do presidenciável de direita e governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e de governadores de direita receberam quase o mesmo destaque que a nota crítica do presidente Lula. O contexto veio para descredibilizar o regime de Maduro, mas não a sanha imperialista dos Estados Unidos. Na edição do dia 5 de janeiro, a continuidade da linha sucessória (com a posse de Delcy Rodríguez) é relativizada como “concentração de poder de Maduro” e “respaldo dos Militares”, ignorando a institucionalidade do país.
Nos dias seguintes, a Folha manteve essa linha editorial. No dia 6, uma linha fina da matéria principal tratava Maduro como “líder deposto”, além de usar reiteradas vezes a palavra “ditador”, o que obviamente serve para referendar a suposta intervenção estadunidense em defesa da democracia. Essa falsa narrativa, aliás, guia o artigo de Joel Pinheiro da Fonseca, articulista da nova leva de direita que a Folha frequentemente acolhe em suas páginas. O texto pondera se o Direito internacional deve ser sempre tratado como absoluto, pergunta que, na verdade, tergiversa sobre o apoio dado à ação em diferentes momentos do texto. Há um total desconhecimento do direito internacional, aliás, e da premissa da soberania dos países, como se vê no trecho: “Idealmente, haveria um processo multilateral e democrático na ONU para depor tiranos que oprimem e são odiados por sua própria população”. O arremate não poderia ser mais explícito: “Na falta dessa possibilidade, cabe à maior potência mundial, que calha de ser uma democracia, tomar atitudes pontuais como essa.”, diz Joel, também comentarista de programas da GloboNews, referendando o papel auto-atribuído dos Estados Unidos como polícia mundial.
Canais de notícias
Canais de notícias permitiram um pouco mais de diversidade de visões e mais espaço para a abordagem d contexto. Tanto na GloboNews quanto na CNN, pesquisadores e especialistas diversos foram convidados para explicar o feito, enquanto alguns comentaristas reafirmaram a ilegalidade da ação. O objetivo da caça ao petróleo também foi mais discutido nesses canais, especialmente na GloboNews. Mas isso não quer dizer uma cobertura equilibrada. Por um lado, tal abertura para análises é esperada, uma vez que canais desse tipo têm tempo exclusivo dedicado a notícias. Tamanha agressão, a situação da Venezuela tornou-se quase pauta única a partir do sábado. Por outro lado, mesmo com muito tempo dedicado ao tema, as autoridades venezuelanas e as reações do povo na Venezuela foram bastante ausentes. Assim como nos principais telejornais, também houve pouco espaço para os diversos atos para repudiar o ataque organizados tanto no Brasil quanto em outros países. Ganharam mais destaque as comemorações de venezuelanos fora de seu país.
A situação chegou a ser apresentada pelo comentarista Valdo Cruz como resultado da crise interna da Venezuela, que teria levado “a essa situação”. Sobre o papel da então vice e agora empossada presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, no canal de notícias 24h da Globo, primeiro noticiou-se a posse com tom de suspeita de traição. Após Delcy confirmar adesão a Maduro, os comentaristas da GloboNews passaram a tratar de outra forma, reiterando criticamente sua adesão ao chavismo.
Mídia pública
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) alternou o uso de termos para se referir ao que foi feito com o presidente Maduro. Iniciou nomeando como sequestro, mas ao longo do fim de semana passou a utilizar captura. A partir do dia 5 de janeiro, voltou a empregar o termo sequestro. A TV Brasil dedicou tempo relevante ao tema, convidando especialistas e comentaristas para analisar o desenrolar dos temas. A Agência Brasil também entrevistou especialistas com matiz mais crítica apontando a ilegalidade dos atos e as implicações para a América Latina.
Fica nítida, mais uma vez, a operação dos grupos de comunicação hegemônicos como aparelhos privados de hegemonia favoráveis aos interesses do andar de cima, neste caso estadunidenses, ainda que um ato tão absurdo acabe forçando alguma abertura para a crítica ou, melhor, ponderação. Esta, todavia, dá apenas uma aparência de democracia em um ambiente que constrói diuturnamente uma visão de mundo específica. A esse problema se juntam outros também da seara da comunicação, como a desinformação, como vimos na produção de uma foto mentirosa de Maduro sendo capturado, a qual acabou viralizando. Se o imperialismo e o próprio capitalismo em crise mostram de forma crua suas formas de dominação, a comunicação segue o mesmo tom, seja ocultando, naturalizando, legitimando ou mesmo distorcendo abertamente a realidade para alcançar seus propósitos. É por isso que o tempo que vivemos faz a verdade parecer coisa do passado, ao passo que atualiza a luta por outra comunicação.
*Jonas Valente – Integrante do Diracom – Direito à Comunicação e Democracia
**Helena Martins – Integrante do Diracom – Direito à Comunicação e Democracia e professora da Universidade Federal do Ceará
*** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

