De 2022 a 2025, a satisfação com o sistema de saúde no Brasil aumentou de 34% para 45%, segundo a pesquisa Confiança em Instituições Públicas na América Latina e no Caribe, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O dado se refere a pessoas com experiência recente de uso dos serviços — no caso brasileiro, usuários do Sistema Único de Saúde.
Considerando o histórico de desmonte e as políticas de austeridade que marcaram o sistema nas últimas décadas — intensificadas nos governos Temer e Bolsonaro — esse avanço não é trivial e aponta para um processo de reconstrução institucional em curso. Mas será que a crescente satisfação na experiência concreta dos usuários se reflete na opinião pública?
O SUS é mais do que uma rede de serviços de saúde. É um dos pilares da construção democrática brasileira, fruto de um processo histórico que articulou ciência e forte mobilização da sociedade civil. Sua existência também potencializou a produção de conhecimento em Saúde Coletiva e permitiu ao país responder a problemas complexos — da vacinação em massa ao enfrentamento de crises sanitárias e à formulação de políticas de referência em segurança alimentar e nutricional, por exemplo.
No entanto, há uma tensão persistente entre o SUS que existe e o SUS que as pessoas enxergam (e defendem). Como aponta Jairnilson Paim, um dos principais formuladores da Reforma Sanitária Brasileira, diferentes parcelas da sociedade constroem visões heterogêneas (e não raramente equivocadas) sobre o sistema. Já Izamara Machado, no conceito de “SUS Midiático”, define que o modo como as pessoas veem o SUS por meio do enfoque dado pela imprensa contribui para a produção de compreensões sobre o sistema.
O campo da Comunicação e Saúde reconhece o direito à comunicação como constitutivo do próprio direito à saúde, e se relaciona diretamente com o que Paim denomina “consciência sanitária” — a compreensão da saúde como um direito inerente à cidadania. E, como aponta a produção científica na área, essa consciência não se forma apenas pela experiência com os serviços, mas também pelo debate público.
No Brasil, no entanto, há um descompasso profundo entre a trajetória do sistema de saúde e a do sistema de comunicação, desde a Constituição de 1988. Na obra “Direito à Comunicação e Saúde”, leitura essencial para quem se interessa pelo tema, Luiz Felipe Stevanim e Rodrigo Murtinho apontam que enquanto o SUS se consolidou com princípios de universalidade, equidade e integralidade, a comunicação seguiu um caminho inverso: forte concentração da propriedade, centralidade do setor privado e fragilidade de mecanismos públicos e de controle social.
Mesmo nos governos progressistas, o Ministério das Comunicações não é uma prioridade — e qualquer pauta sobre regulação no setor é escanteada.
Na imprensa hegemônica, a literatura identifica a persistência do que se convencionou chamar de “SUS-problema”: uma construção narrativa que associa o sistema à crise, à ineficiência e à corrupção, frequentemente dissociando suas conquistas estruturais e seus efeitos concretos na vida da população. Não se trata de negar problemas reais, mas de observar como determinados enquadramentos se tornam repetitivos.
Essa disputa ficou particularmente evidente durante a pandemia de Covid-19. Em uma análise de editoriais da Folha de S. Paulo entre 2020 e 2022, por exemplo, identificamos que o SUS aparece, simultaneamente, como estrutura indispensável para salvar vidas e como sistema permanentemente tensionado por discursos de austeridade. Observa-se a convivência de duas narrativas: de um lado, o reconhecimento do SUS como necessário — especialmente no contexto da vacinação e da resposta à emergência sanitária; de outro, a manutenção de enquadramentos que priorizam o equilíbrio fiscal e naturalizam restrições orçamentárias que impactaram diretamente o sistema (como a EC 95), mesmo diante da crise. Mais do que uma contradição, isso revela uma disputa.
Essa dinâmica ganha novas camadas quando observamos as relações entre empresas de jornalismo, formação profissional e interesses econômicos. Em uma pesquisa em desenvolvimento, verificamos que empresas do setor privado de saúde (hospitais, farmacêuticas e operadoras de plano de saúde) financiaram todas as edições dos cursos de jornalismo e saúde/ciência promovidos pelos veículos de maior circulação nacional — Folha de S. Paulo, O Globo e Estadão, até 2026. Considerando que são espaços formativos, como esses jornalistas estão tendo contato com os temas da saúde? Quais aspectos ganham visibilidade, e sob quais enquadramentos?
Não se trata apenas do SUS que existe, mas do SUS que se torna visível. De quais experiências são reconhecidas, de quais problemas são amplificados e de quais soluções são consideradas possíveis. Sobretudo nas escolhas políticas de cada cidadão.
Se o SUS é um projeto civilizatório de construção de direitos, é preciso reconhecer que a comunicação não é apenas instrumental. A própria trajetória das Conferências Nacionais de Saúde já aponta, desde 1986, para a centralidade dos direitos à informação, educação e comunicação como dimensões inerentes ao direito à saúde.
No Dia Mundial da Saúde, talvez o desafio não seja apenas defender o SUS que existe, mas disputar o SUS que pode ser visto — e, portanto, reconhecido como grande patrimônio da sociedade brasileira.
Referência:
FLAESCHEN, Hara. SUS sob austeridade: uma análise de editoriais da Folha de S. Paulo durante a pandemia de COVID-19 (2020-2022), Dissertação (Mestrado em Informação e Comunicação em Saúde) – Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde, Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2024.
*Hara Flaeschen é jornalista, mestre em Informação e Comunicação em Saúde e integrante do Diracom – Direito à Comunicação e Democracia
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

