Eduardo Nunes é historiador, militante pelos direitos humanos e integra o diretório municipal do Partido dos Trabalhadores (PT) no Recife

A disputa da segurança pública contra a política do medo

No audio source provided.
Megaoperação no Rio de Janeiro promoveu chacina e não resolveu questões de segurança pública
Megaoperação no Rio de Janeiro promoveu chacina e não resolveu questões de segurança pública | Crédito: © Tomaz Silva/Agência Brasil

O Brasil está saturado da política de guerra que mata pobres e transforma o medo em lucro político e econômico

A segurança pública constitui-se como uma das pautas mais recorrentes e preocupantes da sociedade brasileira contemporânea. A violência, antes associada, sobretudo aos grandes centros urbanos, tornou-se um problema disseminado, alcançando cidades do interior, zonas rurais e territórios indígenas. Pesquisas recentes apontam que a preocupação da população brasileira com a violência cresce continuamente, exigindo respostas cada vez mais efetivas das autoridades públicas.

No entanto, apesar da centralidade do tema no debate nacional, seguimos patinando em discursos demagógicos e promessas vazias que pouco enfrentam os problemas estruturais da política pública de segurança. O resultado é a reprodução permanente de fórmulas antigas que alimentam as mazelas de um sistema anacrônico, burocrático e autoritário.

Os dados da pesquisa “O que pensa a população brasileira sobre segurança pública”, divulgada pelo Instituto Sou da Paz e realizada pela OMA Pesquisa, ajudam a compreender a dimensão desse cenário. Independentemente de renda, idade ou experiência direta com a violência, prevalece na sociedade brasileira uma forte sensação de insegurança.

Esse dado revela que, para além da realidade concreta, a população também sofre os impactos de uma permanente propaganda do medo produzida pelas redes sociais e pelas mídias convencionais. Quase toda a população (96%) consome notícias sobre violência e 77% o fazem diariamente por meio desses veículos.

Armas, tráfico de drogas e crime organizado aparecem entre os principais fatores que alimentam o medo coletivo. Segundo a pesquisa, 94% das pessoas entrevistadas afirmam perceber algum grau de violência na cidade onde vivem. Desse total, 42% consideram sua cidade muito violenta, 29% a classificam como mais ou menos violenta e 23% a percebem como pouco violenta. Os roubos de celulares lideram a percepção de insegurança, sendo apontados por 89% dos entrevistados como o crime mais frequente e visível.

A sensação permanente de insegurança gera medo e o medo movimenta bilhões. Nos últimos anos, a indústria da segurança privada faturou cerca de 40 bilhões de reais. No campo das comunicações, o crime tornou-se a cereja do bolo para gerar audiência, visualizações e engajamento. O medo virou mercadoria política e econômica.

Nesse cenário, setores da extrema direita lucram eleitoralmente com a desinformação e com a ampliação constante da sensação de caos social. Muitos desses grupos acumulam votos e seguidores por meio de discursos sensacionalistas e da promessa simplista de resolver um problema extremamente complexo com mais tiro, porrada, bomba e encarceramento em massa. Se essas medidas fossem realmente eficientes, o Brasil já seria um paraíso tropical. No entanto, o país possui hoje a terceira maior população carcerária do mundo e índices de assassinatos que rivalizam com os de países em guerra.

É a mazela retroalimentada: os bilhões da indústria financiam candidaturas, o lobby garante representação política do atraso e a comunicação intensifica narrativas punitivistas com milhões de seguidores e um verdadeiro exército de influenciadores. A receita perfeita para manter a guerra contra pobres, negros, negras e populações vulneráveis.

O racismo estrutural continua sendo uma das principais chaves para compreender a gravidade da segurança pública no Brasil. A violência policial, fenômeno histórico e crônico da realidade brasileira, reflete-se diretamente nos dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: em 2025, cerca de 90% das 6.560 mortes decorrentes de intervenção policial tiveram como vítimas jovens pobres e negros das periferias.

O agravamento da violência policial está profundamente ligado à legitimação de discursos institucionais e midiáticos contrários aos direitos fundamentais, que incentivam práticas repressivas direcionadas às populações vulneráveis e naturalizam o autoritarismo como política pública.

Mas a própria pesquisa revela uma importante disputa de narrativas. Embora o discurso da guerra ainda domine grande parte do debate público, os números desmentem o senso comum. A verdade, para além da bolha da lacração e do sensacionalismo, é que a maioria da sociedade deseja uma política de segurança eficiente, baseada em evidências e apoiada em tecnologia e inteligência.

Segundo os dados, 82% das pessoas entrevistadas afirmam que as câmeras corporais protegem os bons policiais e produzem provas contra criminosos. Outros 77% concordam que armas legais acabam sendo roubadas alimentando a violência nas mãos do crime. Além disso, 73% acreditam que mais armas significam mais mortes, enquanto 65% defendem que o problema não se resolve com mais polícia, mas com uma polícia melhor preparada e mais qualificada.

Outro dado alarmante revelado pela pesquisa diz respeito à violência contra mulheres e meninas. Cerca de 83% dos entrevistados afirmam identificar crimes de ódio contra mulheres em suas cidades, enquanto 77% reconhecem a presença de violência sexual em seus territórios. É impossível pensar qualquer política séria de segurança pública sem enfrentar o feminicídio, uma epidemia alimentada pelos discursos de ódio disseminados no ambiente virtual, transportados para o debate político e materializados em violência e morte.

Nesse cenário, torna-se urgente que o campo progressista enfrente o debate sobre segurança pública com a seriedade e a coragem que o tema exige. Até quando iremos admitir o crescimento institucional da lógica da guerra e continuar assistindo pobres morrerem e serem encarcerados em massa por uma política da morte?

Infelizmente, muitos governos estaduais e municipais ainda caminham na contramão das políticas de prevenção à violência. Os recursos públicos seguem priorizando compra de armas, ampliação do policiamento ostensivo e fortalecimento de práticas repressivas, enquanto inteligência, polícia de proximidade, investigação qualificada e tecnologias de prevenção seguem em segundo plano.

No entanto, algumas iniciativas recentes do governo federal apontam caminhos importantes. O Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios demonstra que o enfrentamento da violência de gênero exige integração entre União, estados, Distrito Federal e municípios. A retomada do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci Juventude) recoloca no centro do debate a articulação entre segurança pública e políticas sociais.

Já o fortalecimento do Programa Nacional de Enfrentamento às Organizações Criminosas (Enfoc) sinaliza a necessidade de uma visão sistêmica sobre o crime organizado, baseada em integração institucional, inteligência e investigação criminal qualificada.

Mas o caminho ainda é longo. O Brasil precisa enfrentar reformas estruturais no sistema de segurança pública. A criação de um Ministério da Segurança Pública pode ampliar a capacidade de coordenação nacional das políticas da área. A Lei de Drogas precisa ser revista urgentemente para reduzir o encarceramento em massa, que atinge sobretudo jovens negros e periféricos. É necessário distinguir usuários de traficantes, fortalecer políticas de redução de danos e investir em novas formas de policiamento baseadas em inteligência, proximidade e cidadania.

As evidências mostram que a sociedade está saturada da política de guerra. Chegou a hora de disputar a narrativa da segurança pública a partir de outro projeto que tenha como pilares fundamentais a democracia, a cidadania e o antirracismo.

Editado por: Vinícius Sobreira

|

Newsletter