Por Helder F. Paula e Adelson F. Moreira
Madrugada de 23 de agosto de 2025, dia Internacional de Combate à Injustiça: com o apoio e a participação da comunidade, o Movimento Brasil Popular (MBP) organizou a ocupação do antigo Centro de Saúde do Bairro Mariano de Abreu, em Belo Horizonte (BH). Com o lema “Prefeitura Largou, Povo Ocupou”, a ocupação reivindica a cessão, por um ano, daquele espaço público abandonado para a implementação de uma Cozinha Solidária e um Ponto de Cultura.
Um abaixo-assinado será entregue à PBH e, na data do início da ocupação, o documento já contava com a adesão de 300 moradores.
Há mais de três anos, o imóvel foi abandonado pela PBH, quando um novo Centro de Saúde foi construído em outro local, dificultando o acesso à saúde pela comunidade. Várias tentativas foram feitas pela comunidade para dar uma função social para o prédio. Uma delas teve a participação da professora Maria Ferrari de Lima, do LabUrb da Escola de Arquitetura da UFMG, que elaborou um projeto arquitetônico para a construção de um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).
A Cozinha Solidária que a comunidade decidiu instalar no local agora, já funciona, há um ano, em um espaço pouco adequado. Desde o dia 23, essa cozinha foi transferida para a ocupação. O MBP pede a colaboração de outros movimentos, entidades e pessoas solidárias de BH para que, além da cozinha, o espaço já comece a oferecer projetos culturais, tais como oficinas de dança, teatro e percussão. Uma vez instalado, o ponto de cultura poderá oferecer essas atividades para uma escola de tempo integral situada nas proximidades.
Em um ato político-cultural realizado na noite do dia 25, diversas entidades e mandatos parlamentares manifestaram seu apoio à ocupação. Foram representados os mandatos do vereador Bruno Pedralva (PT), da vereadora Iza Lourenço (Psol), da deputada estadual Bella Gonçalves (Psol) e da deputada federal Ana Pimentel (PT), os movimentos MTST; Levante Popular da Juventude; SindiEletro; Sind-Rede/BH; Movimento Nacional de Luta Pela Moradia; Pastoral Metropolitana dos Sem Casa da CNBB; Vicariato Social da Arquidiocese de BH; MST e Casa Socialista.
O Centro de Saúde que funcionava no prédio foi uma conquista histórica da comunidade. Militantes do MBP atuaram no Mariano de Abreu, durante um ano, como agentes populares de cultura. Eles reconstruíram junto com moradores do bairro a história de lutas da comunidade. Foi esse resgate que revelou o enorme significado que a conquista do Centro de Saúde teve para os moradores. Estimular, apoiar e organizar a ocupação do antigo espaço do centro de saúde foi, portanto, uma ação tática do MBP para resgatar a motivação e a capacidade de luta da comunidade.
Diante de uma sociabilidade que impulsiona as pessoas a agirem de forma “atomizada” e a exercerem sua “engenharia de sobrevivência” de forma individual, nós, os autores deste texto, testemunhamos moradores do Mariano de Abreu expressarem sua indignação com as injustiças sociais a que estão submetidos e com as negativas da PBH às tentativas de transformação do espaço em um local digno de sua história.
Eles e elas romperam, portanto, a atomização imposta pela cultura neoliberal em que estamos imersos e se uniram, novamente, em uma luta popular. A ação direta no local, batizada de Ocupação Marizete Amaral Leão, durará até que a comunidade seja ouvida e que sua reivindicação seja atendida.
Marizete Amaral Leão é o nome da liderança comunitária, já falecida, que levou a comunidade a conquistar a construção do centro de saúde no local hoje reivindicado pela ocupação que tem o seu nome. Por isso, é enorme o valor simbólico e o potencial mobilizador do resgate desse prédio.
Marizete costumava motivar os moradores da comunidade com a seguinte frase de Che Guevara: “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros”. É possível que o resgate dessa bela história de luta não ocorresse, sem o trabalho dos Agentes Populares de Cultura do MBP. É provável que sem esse resgate não acontecesse a Ocupação Marizete e que a dignidade conferida pela luta popular não voltasse a fazer brilhar os olhos dos moradores da comunidade.
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Nós do APUBHUFMG+ escrevemos este texto para motivar docentes da nossa categoria a colaborarem com a proposição de atividades para manter a Ocupação Marizete em movimento até a conquista de suas reivindicações.
Escrevemos, também, para inspirar aqueles que, como nós, tremem de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo. Acreditamos que todo dia é dia de combater a injustiça e desejamos toda força aos lutadores do povo que fazem acontecer a Ocupação Marizete.
Viva a luta popular, viva a solidariedade entre a classe trabalhadora!
Helder de Figueiredo e Paula é professor do Colégio Técnico da UFMG e presidente do APUBHUFMG+ & Adelson Fernandes Moreira, é professor aposentado do CEFET-MG e assessor do APUBHUFMG+
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Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.