No final da década de 1960, diante da questão sobre a finalidade da educação, Adorno apontava: “para que Auschwitz nunca mais aconteça”.
Falhamos… Auschwitz está acontecendo novamente. Desta vez, num genocídio televisionado, transmitido em tempo real em nossos celulares, sobre o qual todas as pessoas podem ter notícias e sobre o qual não poderemos, no futuro, alegar que não sabíamos. Homens e, principalmente, mulheres e crianças, são assassinados sistematicamente.
E a fome foi transformada em arma de guerra. O requinte de crueldade levou ao massacre de centenas de pessoas nas filas de distribuição de alimentos, desde que Israel passou a controlar a ajuda humanitária.
Não se trata de uma guerra. É um genocídio… Um processo de extermínio de um povo e usurpação de seu território. Trata-se de um experimento imperialista e colonialista que, se vitorioso, poderá se repetir com outros povos do Sul global. E – também por isso – a causa do Palestina é a causa de todos e todas nós.
Um massacre que não começou em outubro de 2023. Nas últimas décadas, o povo palestino vem convivendo com todos os tipos de violação de seus direitos, tendo suas terras roubadas, sua autonomia negada, sua dignidade vilipendiada. A face mais cruel desta história vem sendo exposta, nos últimos meses, com os constantes ataques na Faixa de Gaza e com o impedimento de que a ajuda humanitária chegue àquele território.
É preciso educar para o nunca mais
É preciso conhecer a história da escravização de pessoas negras e indígenas nas Américas, para que isso não se repita. Estudar a história da ditadura civil-militar instaurada em 1964 no Brasil para que não sejam aceitos os ataques à democracia. Conhecer a história do holocausto do povo judeu pela Alemanha nazista para que não se compactue com processos similares.
Há que se conhecer e compreender as barbáries que nos envergonham como seres humanos, exatamente para que não se repitam, para que nunca mais deixemos que aconteçam. É este o sentido da luta por memória, por justiça e por verdade. A luta contra todos os tipos de tirania é também a luta contra o esquecimento e a impunidade.
Mas é preciso também educar para o amanhã!
O inédito viável
O que podemos fazer agora para que amanhã possamos fazer o que hoje não podemos? Esta é uma das tantas provocações de Paulo Freire que nos fazem pensar sobre a realidade e sobre a nossa ação no mundo. E esta é também uma das tarefas da educação: educar para o amanhã, para o inédito viável.
A educação das sensibilidades, a educação para a empatia, para reconhecer o outro como sujeito de direito é condição para que possamos pensar num outro mundo possível. Pensar na construção de uma outra realidade, inédita, mas viável. Esse é sentido da utopia: não se trata de discutir o impossível, mas, sim, de pensar – e construir – aquilo que ainda não está posto, mas que poderá se tornar realidade, obviamente, se cada um e cada uma de nós contribuir, hoje, para que que isso se faça amanhã.
Para esperançar o mundo…
Mas as reações contra o genocídio imposto por Israel, com o apoio dos Estados Unidos da América, ao povo Palestino têm crescido em todo o planeta. Em diversos países, manifestações gigantescas vêm acontecendo com o objetivo de denunciar e exigir que se interrompa o massacre. Também no Brasil, nos últimos dias, várias foram as manifestações em capitais e cidades do interior.
É preciso falar sobre a Palestina, romper o silêncio das grandes mídias, sair às ruas de todas as cidades denunciando o processo de limpeza étnica em curso na Faixa de Gaza: o extermínio de um povo pelos bombardeios e pela fome. A impunidade de Israel colocaria toda a humanidade em risco. Mas a vitória do povo Palestino será a vitória de todas e todos nós. E a garantia de que seguiremos acreditando que o amanhã é possível.
José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG) e membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]
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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

