Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

A Educação em Direitos Humanos na perspectiva de um caipira

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Ilustração | Crédito: Imagem: reprodução/redes sociais

O caipira hoje, graças à educação (comunitária e escolar), é esclarecido

Por Guilherme Matheus de Sousa Melo

O mineiro do interior tem sotaque, tradições, manias, superstições e, até certo ponto, é bem acanhado. Esse conjunto de trejeitos e adjetivos formam um indivíduo que pode ser denominado CAIPIRA, que é como me defino.

Moro no interior de Minas, no distrito Pedra do Sino, município de Carandaí, numa típica casa da roça. Aqui tem galinheiro, algumas árvores frutíferas, um cantinho para os chás (plantas medicinais) e uma vista das grandes serras que compõem o Alto do Mandu. Quanto a mim, sou formado em Gestão Ambiental, servidor público, evangélico, atleticano, membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos (ReBEDH) e militante em defesa dos Direitos Humanos e do Meio Ambiente.

Educação e Direitos Humanos

A educação é dicotômica para o caipira: vai de dispensável, pois a lida na roça exige mais do físico do que do letramento, até indispensável, como via de um futuro melhor. Pedra do Sino superou a visão do dispensável e hoje conta com quase 100% dos moradores de 5 a 17 anos matriculados, independente da distância entre sua casa até a escola: uma simbiose entre mudança de pensamento e ação estatal que garante o transporte escolar, merenda de qualidade e uma infraestrutura satisfatória.

O caipira hoje, graças à educação (comunitária e escolar), é esclarecido, sabe que tem direito à própria educação, à saúde gratuita, à liberdade, ao voto, à carteira de trabalho assinada, a se aposentar. Tem direito à terra e a seus diversos usos. E por aí vai. E esses são Direitos Humanos em sua essência, inegociáveis, como preconizam a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e a Constituição Federal de 1988, cujos textos e conjunturas, muitos dos meus distritários pouco conhecem, mas usufruem dos direitos neles contidos e são seus defensores. Mas há ainda quem veja o caipira como personificação do ignorante… A mídia ainda insiste em nos retratar assim, uma pena!

A educação do olhar

Revendo o filme “Jeca Tatu”, de Amácio Mazzaropi, é possível observar que, apesar dos estereótipos caricatos, ele retrata um caipira humilde, que conhece de perto as “desumanidades” (ausência de Direitos Humanos), mas mesmo assim sabe de alguns direitos. E para compreendermos a Educação em Direitos Humanos neste processo é preciso olhar e ver. Uai, Guilherme, como assim?

Em uma aula, o Prof. José Heleno explicou o uso destas palavras, que apesar de sinônimas, carregam significados metafísicos distintos. Temos olhado muitas coisas, mas vemos poucas. Olhamos as cenas humorísticas do “Jeca Tatu”, mas também devemos ver que ele carecia dos direitos básicos e sofria pressão do seu vizinho latifundiário – e ainda assim o Jeca sabia que a terra onde morava com a família era dele, impenetrável.

Neste filme de 1959, há outro fator relevante sobre o caipira, que aqui descrevo sob o pensamento do sociólogo Antônio Cândido: os caipiras, muitas vezes, moram longe uns dos outros, mas têm entre si o sentimento de pertencimento a uma comunidade, todos se ajudam nas mais diversas necessidades — interdependem um do outro.

Quando o casebre do Jeca é incendiado pelo vizinho, os membros daquela comunidade o ajudam a reconstruir sua habitação, garantindo não só sua dignidade e de sua família, mas também deixando-o em condição de igualdade com os demais do lugarejo.

A Educação em Direitos Humanos é um caminho essencial para o conhecimento e militância dos nossos direitos, isto evita retrocessos e nos fortalece.

Se você chegar aqui na roça, sempre vai ter um café quentinho, passado na hora e uma broa de fubá te esperando. A prosa vai ser cheia de causos de assombração, de sotaque e diminutivos (que lutei e relutei pra não usar aqui) e deve durar horas. Agora, quando o assunto for nossos direitos, a conversa fica mais séria, hein?

Ninguém passa o caipira pra trás!

Guilherme Matheus de Sousa Melo é Gestor Ambiental, servidor público da Secretaria de Estado da Educação do Estado de Minas Gerais, membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais. Email: [email protected]

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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