Por José Heleno Ferreira
Nos últimos meses, brasileiras e brasileiros ocuparam as ruas e praças de diversas cidades em manifestações pacíficas e aguerridas em defesa da democracia, da vida das mulheres, dos direitos humanos.
No dia 21 de setembro, centenas de milhares de pessoas participaram das manifestações contra a PEC da Blindagem, apelidada de PEC da Bandidagem, aprovada pela Câmara dos Deputados e que determinava que deputados e deputadas, senadores e senadoras acusados de algum crime só poderiam ser investigados após autorização do Parlamento. A forte reação das ruas fez com que a proposta não avançasse no Senado e fosse arquivada!
No dia 7 de dezembro, novamente, milhares de pessoas estavam nas ruas no Levante Mulheres Vivas. Após uma explosão da onda de feminicídios, mulheres e homens ocuparam as ruas para dizer um basta à violência e para cobrar políticas públicas que garantam a vida das mulheres e que combatam o machismo e a misoginia.
Uma semana depois, no dia 14 de dezembro, novas manifestações públicas, desta vez, contra o PL da Dosimetria, também aprovado pela Câmara dos Deputados. Um projeto de lei que tem como objetivo reduzir a pena daqueles que arquitetaram um golpe de Estado e planejaram o assassinato de autoridades brasileiras.
A força das ruas!
Os ataques da extrema direita e dos grupos econômicos ligados ao grande capital têm sido cada vez mais violentos no Brasil. Diante disso, “é preciso estar atento e forte”, como já cantavam os tropicalistas, em 1969, “não temos tempo de temer a morte”!
E as manifestações já demonstraram a força que tem o povo nas ruas ao conseguir reverter a aprovação da PEC da Blindagem, no mês de setembro. As últimas grandes manifestações – o Levante Mulheres Vivas e contra o PL da dosimetria – ainda muito recentes, continuam reverberando no Congresso Nacional e certamente contribuirão para garantir avanços nas políticas públicas e na legislação brasileira ou, no mínimo, para impedir retrocessos.
Manifestar-se é um ato educativo
A história nos mostra que os movimentos sociais são educadores. Foi o movimento negro que nos educou – e continua nos educando – para as lutas antirracistas. Os movimentos feministas cumprem um papel essencial na reeducação de uma sociedade marcada, desde o período da colonização, pelo patriarcalismo. Os movimentos LGBTQIAPN+ nos ensinam sobre o respeito e a valorização da diversidade. Os movimentos populares e sindicais nos educam, constantemente, para a compreensão de que os direitos são conquistados – e defendidos – na luta organizada.
Num tempo marcado pela hegemonia das mídias digitais e, muitas vezes, pela divulgação de notícias falsas com o objetivo explícito de manipular a população, ocupar as ruas é necessário! Trata-se de uma tarefa essencial para educar as novas gerações, para reafirmar nossas lutas por uma utopia – aquilo que ainda não há, mas que é possível e necessário construir.
Como na canção de Bituca (Coração Civil), é nas ruas que afirmamos que “queremos nossas cidades sempre ensolaradas” e “os meninos e o povo no poder”. Sabemos das dificuldades, do grande número de homens e mulheres perseguidos, assassinados nas lutas populares. Sabemos que as perseguições e a violência contra aqueles e aquelas que lutam continuam. Mas “se o poeta é o que sonha o que vai ser real, vamos sonhar coisas boas que o homem faz e esperar pelos frutos no quintal”.
Esperar – do verbo esperançar, como já nos ensinou outro brasileiro ilustre: Paulo Freire!
As ruas educam! O movimento social é educador! As manifestações nos enchem de esperança, alimentam nossas utopias. E nos educam para a continuidade das lutas em defesa dos direitos humanos.
José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG), membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]
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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

