Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

Ocupar as ruas é educar em Direitos Humanos

No audio source provided.
1234
Manifestações em Belo Horizonte (MG) | Crédito: Brasil de Fato MG

A história nos mostra que os movimentos sociais são educadores

Por José Heleno Ferreira

Nos últimos meses, brasileiras e brasileiros ocuparam as ruas e praças de diversas cidades em manifestações pacíficas e aguerridas em defesa da democracia, da vida das mulheres, dos direitos humanos.

No dia 21 de setembro, centenas de milhares de pessoas participaram das manifestações contra a PEC da Blindagem, apelidada de PEC da Bandidagem, aprovada pela Câmara dos Deputados e que determinava que deputados e deputadas, senadores e senadoras acusados de algum crime só poderiam ser investigados após autorização do Parlamento. A forte reação das ruas fez com que a proposta não avançasse no Senado e fosse arquivada!

No dia 7 de dezembro, novamente, milhares de pessoas estavam nas ruas no Levante Mulheres Vivas. Após uma explosão da onda de feminicídios, mulheres e homens ocuparam as ruas para dizer um basta à violência e para cobrar políticas públicas que garantam a vida das mulheres e que combatam o machismo e a misoginia.

Uma semana depois, no dia 14 de dezembro, novas manifestações públicas, desta vez, contra o PL da Dosimetria, também aprovado pela Câmara dos Deputados. Um projeto de lei que tem como objetivo reduzir a pena daqueles que arquitetaram um golpe de Estado e planejaram o assassinato de autoridades brasileiras.

A força das ruas!

Os ataques da extrema direita e dos grupos econômicos ligados ao grande capital têm sido cada vez mais violentos no Brasil. Diante disso, “é preciso estar atento e forte”, como já cantavam os tropicalistas, em 1969, “não temos tempo de temer a morte”!

E as manifestações já demonstraram a força que tem o povo nas ruas ao conseguir reverter a aprovação da PEC da Blindagem, no mês de setembro. As últimas grandes manifestações – o Levante Mulheres Vivas e contra o PL da dosimetria – ainda muito recentes, continuam reverberando no Congresso Nacional e certamente contribuirão para garantir avanços nas políticas públicas e na legislação brasileira ou, no mínimo, para impedir retrocessos.

Manifestar-se é um ato educativo

A história nos mostra que os movimentos sociais são educadores. Foi o movimento negro que nos educou – e continua nos educando – para as lutas antirracistas. Os movimentos feministas cumprem um papel essencial na reeducação de uma sociedade marcada, desde o período da colonização, pelo patriarcalismo. Os movimentos LGBTQIAPN+ nos ensinam sobre o respeito e a valorização da diversidade. Os movimentos populares e sindicais nos educam, constantemente, para a compreensão de que os direitos são conquistados – e defendidos – na luta organizada.

Num tempo marcado pela hegemonia das mídias digitais e, muitas vezes, pela divulgação de notícias falsas com o objetivo explícito de manipular a população, ocupar as ruas é necessário! Trata-se de uma tarefa essencial para educar as novas gerações, para reafirmar nossas lutas por uma utopia – aquilo que ainda não há, mas que é possível e necessário construir.

Como na canção de Bituca (Coração Civil), é nas ruas que afirmamos que “queremos nossas cidades sempre ensolaradas” e “os meninos e o povo no poder”. Sabemos das dificuldades, do grande número de homens e mulheres perseguidos, assassinados nas lutas populares. Sabemos que as perseguições e a violência contra aqueles e aquelas que lutam continuam. Mas “se o poeta é o que sonha o que vai ser real, vamos sonhar coisas boas que o homem faz e esperar pelos frutos no quintal”.

Esperar – do verbo esperançar, como já nos ensinou outro brasileiro ilustre: Paulo Freire!

As ruas educam! O movimento social é educador! As manifestações nos enchem de esperança, alimentam nossas utopias. E nos educam para a continuidade das lutas em defesa dos direitos humanos.

José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG), membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

|

Newsletter