Um dos grandes problemas da formação histórica do povo brasileiro é o fato de voltarmos as costas para a América Latina e o nosso olhar para a Europa e para os Estados Unidos da América (EUA). Conhecemos muito pouco sobre a vida, as músicas, o cinema latino-americanos, sobre o cotidiano dos homens e mulheres que vivem e trabalham nesta que deveria ser nossa Pátria Grande.
Esta é uma das consequências de um processo de colonização que, formalmente, persistiu por mais de três séculos, mas que perdura ainda hoje. A colonização das mentes, das sensibilidades do povo latino-americano, num longo processo histórico que leva à valorização dos bens de consumo e dos bens culturais europeus e estadunidenses em detrimento das características, das criações – materiais e imateriais – do nosso povo. Obviamente que os interesses econômicos regem todo esse processo e mantêm, assim, a exploração e a espoliação da América Latina.
Em parte, esse processo histórico explica o porquê de muitas pessoas manifestarem apoio à invasão da Venezuela pelo Governo Trump, bem como ao sequestro do presidente do país e da sua esposa e deputada, no último dia 3 de janeiro.
Trata-se de discutir o princípio da autodeterminação dos povos. Princípio esse que está consagrado na Carta das Nações Unidas, assinada em 1945, quando da fundação oficial da Organização das Nações Unidas (ONU). No seu artigo segundo, que “todos os membros das Nações Unidas deverão resolver suas controvérsias internacionais por meios pacíficos, de modo que não sejam ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais”.
No entanto, os princípios das legislações internacionais não foram respeitados pelo governo Trump que, inclusive, em entrevista coletiva, não teve receio de admitir que um dos interesses que o movia: o petróleo venezuelano. E se os organismos internacionais e a mobilização social não frearem esse ímpeto imperialista, todos os povos estarão ameaçados. O presidente dos EUA, inclusive, já ameaçou Colômbia, México, Cuba…
E o Brasil? Não há dúvidas de que se não houver medidas econômicas e políticas e mobilização social contra os ataques imperialistas, nosso país e muitos outros correm risco, a não ser que sejam entregues docilmente, por exemplo, nossas riquezas minerais.
Nesse momento tão delicado que vivemos na América Latina (e em todo o planeta), vale a pena retomar a história e o exemplo de coragem e determinação de Sepé Tiaraju – líder guarani que, em meados do século XVIII, enfrentou as tropas portuguesas e espanholas para defender os Sete Povos das Missões. “Alto lá, esta terra tem dono” é a frase atribuída ao líder guarani. E há que ser também o nosso lema e o lema de todos os povos do Sul Global no necessário enfrentamento ao imperialismo.
Sepé Tiaraju foi assassinado em fevereiro de 1756. Mas é importante que sua história seja conhecida pelos brasileiros e brasileiras, por todos os povos latino-americanos, afinal, a luta contra a colonialidade e contra o imperialismo é também uma batalha da memória.
E, nesse sentido, vale lembrar a frase dita pelo narrador do filme Uma História de Amor e Fúria (2013), de Luiz Bolognesi: “meus heróis não viraram estátua, morreram lutando contra quem virou”. Sem dúvida, uma das maneiras de fortalecer o sentimento de latino-americanidade, isto é, nossa identidade cultural, histórica e política, passa pelo registro da memória dos heróis e heroínas das lutas populares!
José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG) e membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]
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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato
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