Nos últimos dias, todo o país acompanha a luta dos povos originários do Baixo Tapajós contra a dragagem dos rios e a construção da Ferrogrão (EF – 170) – projeto ferroviário que pretende ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA) para escoar a produção de grãos do Centro-Oeste para os portos do Arco Norte.
Povos de diversas etnias se mobilizaram, ocuparam a Cargill em Santarém (PA) e exigem a revogação do Decreto Federal 12.600/25 que coloca os empreendimentos hidroviários nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Antes disso, em novembro de 2025, durante a COP-30, os povos indígenas já haviam se manifestado contra os projetos hidroviários e exigido que nenhuma medida fosse tomada sem que fossem ouvidos.
Para os povos originários, a hidrovia do Tapajós é um “projeto de morte”, pois a dragagem provocará a contaminação das águas e a destruição dos modos de vida de diversos grupos que têm suas culturas e economias estruturadas em torno dos rios. Denunciam ainda a ausência de uma consulta livre, prévia e informada aos povos originários, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Reação
Diante da ausência de diálogo por parte do governo federal (conforme denúncia dos povos originários), quatorze etnias do Baixo Tapajós ocuparam o porto da empresa Cargill (Santarém PA), exigindo a revogação do Decreto 12600. A pressão dos movimentos indígenas fez com que as ações de dragagem do rio fossem suspensas.
Mas para as lideranças indígenas e dos povos ribeirinhos a suspensão não é suficiente: exigem a revogação do decreto 12.600, afirmando que “rios não são mercadorias” e que os territórios tradicionais precisam ser respeitados.
O que nos ensinam os povos originários
Há mais de 500 anos, dede o início da colonização, os povos indígenas desse território vêm resistindo aos projetos políticos e econômicos que querem dizimá-los. A manutenção do pouco que nos resta de vegetação nativa, de florestas e rios saudáveis se deve, em grande parte, aos povos originários e às comunidades ribeirinhas que construíram e mantêm um modo de vida integrado à natureza.
E toda esta história tem nos proporcionado três (entre muitas outras) grandes lições.
A primeira delas é a de que a natureza não é um recurso material a ser explorado, é um bem em si e a sua destruição significa, a longo prazo, a extinção da vida. A segunda – e não menos importante – é a de que lutar é um direito e ninguém pode ser criminalizado por se dedicar à luta em defesa da vida. E, unificando estas duas lições, temos a terceira: somente a luta garante a vida!
A dragagem dos rios do Baixo Tapajós e a construção da Ferrogrão atendem a interesses do capital internacional e também de grandes grupos econômicos ligados ao agronegócio no Brasil. Não se trata de um projeto econômico para aumentar a produção de alimentos para o povo brasileiro, não se trata de um projeto que tem como objetivo garantir a alimentação das populações mais pobres e em situação de vulnerabilidade. Trata-se de um projeto que visa a acumulação de (mais) riquezas nas mãos de grupos já extremamente ricos.
“A mãe do Brasil é indígena”, já nos disse Myrian Krexu: “sua raiz vem daqui, do povo ancestral que veste uma história, que escreve na pele sua cultura, suas preces e suas lutas”. E por isso é preciso estar atento ao que nos dizem os povos originários, as comunidades ribeirinhas, os povos das águas e das florestas.
É preciso ouvir e reconhecer esta sabedoria ancestral que nos mostra que esta não é uma luta apenas em defesa dos interesses de uma parcela do povo brasileiro. É a luta em defesa do futuro, em defesa da vida.
Se permitirmos, hoje, que os rios e as florestas sejam imolados no altar do lucro, talvez não haja amanhã, uma vez que os rios e florestas são insubstituíveis. E, sem eles, não há vida, não há humanidade. Não há amanhã.
José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG), membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]
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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

