As últimas semanas foram marcadas por notícias sobre desaparecimentos de crianças, crianças sendo vendidas pelos próprios familiares, esquemas internacionais de exploração sexual de crianças e adolescentes envolvendo bilionários de todas as partes do mundo. E o que ficou foi a estranha sensação de que tais notícias são mais do mesmo, nenhuma novidade para nós.
Mais do mesmo por quê? Em que momento deixamos de alimentar a esperança da “pureza da resposta das crianças” para uma vida que vislumbra um futuro bonito e digno de viver? Onde está nossa revolta visceral frente ao desmonte da infância enquanto lugar de proteção e projeção de sociedades mais humanizadas?
Crianças e adolescentes estão sendo traficados, abusados, literalmente comidos (quem ainda não ouviu falar do caso Epstein?) enquanto assistimos estarrecidos, porém, inertes aos fatos.
O que acontece no mundo e com as crianças
É importante lembrar que esses são apenas alguns casos que chegam ao amplo conhecimento da população. Três crianças desapareceram quando saíram para brincar na região de um quilombo no interior do Maranhão, apenas uma foi encontrada, as outras duas seguem desaparecidas.
Também três crianças foram vendidas pela avó a um piloto de avião, foram resgatadas e o homem de 60 anos foi preso, uma delas estava muito machucada. Incontáveis crianças e adolescentes de diversas nacionalidades foram traficados e abusados sexualmente por uma rede de bilionários pedófilos, bebês foram gerados em uma ilha particular para que suas vísceras servissem de banquete para tais homens. Sim, é estarrecedor!
Como pode ser que duas crianças simplesmente sumam da região onde moram?
Como pode ser que uma avó venda seus netos?
Como pode ser que uma rede gigantesca de tráfico e abuso infantil exista sob nossos olhos?
Como pode ser que tenhamos perdido o valor da infância?
Essas notícias, apenas três, acendem o alerta do foco da nossa atenção.
O que haveríamos de fazer? Proteger mais nossas crianças? Criar redomas ainda mais impenetráveis para nossos filhos? Expor os abusadores? Criar leis mais rígidas? Qual caminho seguir?
A sugestão de Gonzaguinha soa maravilhosamente bem, mas ainda precisamos melhorar muito enquanto gente que vive para que possamos, então, deixar que a pureza das crianças seja a resposta para uma humanidade digna de se viver nesta terra.
Precisamos de posicionamento, de respostas firmes, da medida da crueldade tratada no rigor da lei, da revolta que nos move contra o monstro, mas também de reeducação de nossa humanidade, de conscientização de que a infância é terreno fértil e é nela que semearemos sociedades mais justas e, por isso, a indiferença não pode ser uma opção.
Não podemos olhar para os fatos como fatalidades. Os fatos narrados nesta coluna são consumados segundo interesses imediatos, desejos, desvios de conduta e caráter daqueles que os concretizam.
Por isso, não é possível conceber tais violências como mais do mesmo, não é possível que tratemos com indiferença o fato de que atrocidades como estas aconteçam. Devemos cumprir a tarefa que a vida nos impõe de ser, estar e agir no mundo a favor do bem. É necessário que nos eduquemos de forma que nosso olhar para o ser humano nos humanize no mesmo passo em que humaniza os outros. É uma decisão.
É colocar a pauta dos Direitos Humanos distante da retórica vazia e trazer para nossas mãos o fazer diferenciado que humaniza o Homem e dignifica sua vida. Usar a Educação em Direitos Humanos como ferramenta crucial. É fazer diferente ainda que apenas no microcosmo da nossa mera existência. Como diria Gramsci, “Vivo, tomo partido. Por isso odeio quem não o faz, odeio os indiferentes”.
Kaluany Honda é fonoaudióloga, pedagoga, mestre em psicologia cognitiva e aprendizagem e mestre em Educação. Especialista em neuroeducação e primeira infância. Professora efetiva da rede municipal de Juiz de Fora e membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais.
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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

