Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

Quando a tragédia vira palco

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Deputado federal Nikolas Ferreira (PL)
Deputado federal Nikolas Ferreira (PL) | Crédito: Reprodução / Redes Sociais

Entre as vítimas fatais da mais recente tragédia em Minas Gerais não estão os ricos

 Por José Heleno Ferreira

Nos últimos dias, centenas de famílias na Zona da Mata em Minas Gerais estão vivendo situações desesperadoras provocadas pelas fortes chuvas, pela falta de investimentos públicos na prevenção de danos causados por enchentes e pela ausência de políticas públicas que garantam a todas as pessoas condições dignas de moradia nas cidades. 

Os efeitos da crise climática (e do negacionismo científico e das políticas neoliberais que reduzem os investimentos do Estado na infraestrutura urbana) não atingem igualmente todas as pessoas.

O racismo ambiental é explicitado quando as vítimas são, em sua grande maioria, negras. São as pessoas negras e pobres que, secularmente, vêm enfrentando a força das enxurradas entrando nas suas casas, levando seus poucos móveis, derrubando seus barracos, provocando mortes. 

Entre as vítimas fatais da mais recente tragédia em Minas Gerais – um número que já se aproxima de uma centena – não encontraremos pessoas ligadas aos grupos privilegiados economicamente.

E, é obvio, isso não é uma coincidência. É o resultado histórico de planejamentos urbanos que deixam à margem os grupos já marginalizados ou socialmente minorizados.

A espetacularização da tragédia

Ao longo da história, situações como esta vêm se repetindo (há dois anos, foi no Rio Grande do Sul). Mas nos últimos anos há um componente que torna ainda mais trágica a situação: a espetacularização da tragédia.

Muito recentemente, vimos um deputado federal chegar a uma das cidades mineiras atingida pelas chuvas. Qual foi a primeira providência do parlamentar? Agenciar recursos, inteirar-se da realidade da população, anunciar projetos de lei que tivessem como objetivo garantir investimentos públicos para a prevenção de tragédias climáticas?

Não. Foi gravar um vídeo para postar nas redes sociais, ainda que, para isso, fosse necessário atrasar os trabalhos de limpeza das ruas.

A sociedade do simulacro

Quando os espaços políticos se tornam palco para shows (sempre de mau gosto), quando as tragédias se tornam palco para a promoção de figuras políticas, há algo muito perturbador acontecendo.

No final dos anos 1970, início dos anos 1980, o filósofo francês Jean Baudrillard criou o conceito sociedade do simulacro para se referir a uma situação em que a imagem e a cópia valem mais que a realidade.

A linguagem popular tem se referido a essas figuras políticas como deputados tiktokers. Há também os vereadores, senadores tiktokers e também podemos encontrá-los ocupando cargos no Poder Executivo. É muito fácil identificá-los pela onipresença nas redes sociais. 

E, quase sempre, se buscamos verificar a atuação legislativa de cada um deles, encontraremos faltas, ausência de propostas e projetos políticos, distanciamento dos reais problemas da população, silenciamento diante dos debates travados nas Casas Legislativas e, ao votar projetos de lei, posicionamentos contrários aos interesses populares.

O papel de um parlamentar é fiscalizar o Executivo, legislar – para a cidade, o estado ou o país, dependendo do seu nível de atuação. 

Mas para os deputados tiktokers, o que de fato importa é fazer discursos que emocionem, é produzir peças publicitárias a partir da edição de vídeos com recortes de suas falas e também das falas de outras pessoas. É construir uma imagem a ser admirada, ainda que esta imagem não esteja ancorada na realidade. O que de fato importa é o engajamento virtual, o número de likes e compartilhamentos, o número de seguidores e seguidoras, a visibilidade na mídia e nas redes sociais.

Quando os vídeos virais se tornam parâmetros para a avaliação de um parlamentar, quando a política se torna torcida, quando a tragédia se torna palco, há algo muito perverso acontecendo na sociedade. E esta perversidade precisa ser enfrentada.

José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG) e membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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