Quantas vezes ouvimos que direitos humanos são “coisa de bandido”? Quantas vezes presenciamos discursos que reduzem essa pauta a um slogan vazio ou, pior, a uma ameaça? Essa distorção não é acidental. Ela revela um projeto deliberado de esvaziamento da dimensão política e transformadora da educação em direitos humanos.
Mas o que realmente significa educar em direitos humanos? E por que isso incomoda tanto? Sem uma educação que forme para o reconhecimento da dignidade humana, não há democracia real, não há justiça social possível.
Paulo Freire nos ensinou que a educação jamais é neutra. Ela pode ser instrumento de dominação ou prática da liberdade. A educação em direitos humanos se inscreve nessa segunda perspectiva: educar para libertar, para conscientizar, para transformar. Não se trata de decorar artigos da Declaração Universal ou repetir conceitos abstratos.
Trata-se de vivenciar, no cotidiano escolar e na vida, princípios de respeito, solidariedade, justiça e dignidade.
Mas nossas escolas estão preparadas para isso? Como educar para a democracia em instituições autoritárias? Como ensinar respeito às diferenças em ambientes que punem a diversidade? Como formar para a participação cidadã quando silenciamos as vozes estudantis?
A educação em direitos humanos não se limita ao espaço escolar. Ela transborda para as relações familiares, comunitárias e profissionais.
Quando um estudante aprende a questionar injustiças na escola, ele leva essa consciência crítica para casa, para o bairro, para o trabalho. Quando uma criança compreende que tem direito à voz, ela não aceita mais o silenciamento. Quando um jovem reconhece sua dignidade, ele passa a exigir o reconhecimento da dignidade dos outros.
Paula Freire chamava isso de “leitura crítica do mundo”. Não basta ler palavras; é preciso ler a realidade, compreender as estruturas de opressão, identificar as violações de direitos que nos cercam. E mais: é preciso agir para transformar essa realidade.
Em “Ensaio sobre a Cegueira”, José Saramago nos apresenta uma sociedade acometida por uma epidemia de cegueira branca. Mas não se trata apenas da perda da visão física, trata-se de uma metáfora poderosa sobre nossa cegueira moral, nossa incapacidade de enxergar o sofrimento do outro, nossa indiferença diante das violações de dignidade que nos cercam.
Vivemos tempos de profunda desumanização. A violência naturalizada, a indiferença diante do sofrimento alheio, a criminalização da pobreza, o racismo estrutural, a LGBTfobia, o machismo etc.; tudo isso revela o quanto nos afastamos da noção básica de que toda pessoa humana merece respeito e dignidade. Como na obra de Saramago, seguimos cegos, tropeçando uns nos outros, incapazes de reconhecer nossa comum humanidade.
Aqui cabe a provocação: quantas vezes reproduzimos, sem perceber, discursos que desumanizam o outro? Quantas vezes naturalizamos desigualdades em nome da meritocracia? Quantas vezes silenciamos diante de injustiças por medo ou conveniência? Será que não somos todos, em alguma medida, cegos morais que precisam reaprender a enxergar?
A educação em direitos humanos é, fundamentalmente, educação para recuperar a visão, não a física, mas a ética. É desenvolver a capacidade de se indignar diante das opressões, de se solidarizar com quem sofre, de reconhecer no outro um igual em dignidade. Não se trata de compaixão paternalista, mas de compromisso político com a justiça.
Paulo Freire dizia que a indignação é um sentimento ético fundamental. Sem ela, acomodamo-nos diante das injustiças. Com ela, movemo-nos para transformar. É necessário cultivar essa indignação nas novas gerações, mas também em nós mesmos, educadores e educadoras que tantas vezes nos cansamos de lutar.
O direito à educação em direitos humanos não se efetiva por decretos ou documentos. Efetiva-se na prática cotidiana, na construção coletiva de uma cultura de respeito. É fundamental que escolas se tornem espaços verdadeiramente democráticos, onde estudantes participem das decisões, onde conflitos sejam mediados pelo diálogo, onde a diversidade seja celebrada.
Isso exige formação docente continuada, investimento público, políticas estruturantes. Mas exige, sobretudo, vontade política e compromisso ético. Exige que paremos de tratar direitos humanos como tema transversal secundário e o assumamos como eixo central da educação.
Uma última provocação: que tipo de humanidade estamos construindo? Uma humanidade competitiva, individualista, indiferente ao sofrimento alheio? Ou uma humanidade solidária, justa, comprometida com a dignidade de todos?
Não há neutralidade nessa escolha. A educação em direitos humanos é a aposta na segunda possibilidade. É a recusa à desumanização. É a cura para a cegueira moral. É a afirmação da vida, da justiça, da esperança. Freire nos ensinou que a esperança não é espera passiva, mas “esperançar”, como verbo de ação, de luta, de compromisso.
Garantir educação em direitos humanos na escola e para a vida é garantir que cada pessoa possa desenvolver plenamente sua humanidade. É construir uma sociedade onde ninguém seja tratado como descartável, onde todas as vidas importam, onde a dignidade seja princípio inegociável. É, finalmente, recuperar a visão que nos permite enxergar o outro em sua plena humanidade.
Carlos Eduardo Petronilho Boiago é doutor em Educação (UFU), professor de Matemática (SEE MG), membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]
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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

