Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

A violência sexual contra meninos existe e é frequente, embora invisibilizada  

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Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar revela que 10,9% dos meninos foram vítimas de abuso sexual | Crédito: Elza Fiuza/Agência Brasil

10,9% dos meninos foram vítimas de abuso sexual

Por José Heleno Ferreira

Feminicídios, estupros de adolescentes e tantas outras notícias de violência contra mulheres e meninas têm feito, nos primeiros meses do ano de 2026, um tempo em que o horror nos espreita nas esquinas, nas escolas, no transporte coletivo e em nossas vidas. 

Embora o problema não seja novo – secularmente, mulheres têm sido vítimas do machismo e da misoginia – a situação tem se agravado e há componentes novos, como uma organização criminosa (o Movimento Red Pill) que incita o ódio às mulheres e, neste processo, tem capturado muitos adolescentes.

Mas a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada em 2024 pelo IBGE, com 118 mil estudantes de 13 a 17 anos de idade, apresenta uma nova faceta da questão relacionada às masculinidades e à violência: o abuso sexual sofrido por meninos.

Meninos não falam sobre o abuso sexual

A violência sexual contra meninos existe e é frequente, embora invisibilizada e silenciada.

Dados da pesquisa revelam que 10,9% dos meninos foram vítimas de abuso sexual. Os abusadores são amigos mais velhos (31,9%), desconhecidos (27,8%), namorado(a) ou ficante (25,8%) e familiares (18,1%), entre outros. Mais da metade das vítimas (64,9%) tem menos de 13 anos. A partir desta idade há uma redução significativa dos casos.

Mais do que as meninas, eles, os meninos, evitam falar sobre a questão, o que alimenta a hipótese de que o percentual de crianças do sexo masculino abusadas seja maior do que aquele aferido pela pesquisa (10,9%). Além da proximidade dos agressores, outros motivos alegados para não falar sobre o assunto são reveladores da masculinidade tóxica que impera nos processos de formação dos meninos: o medo do julgamento, de ser ridicularizado como “mulherzinha”, de não ser mais aceitos por seus pares.

Não se trata, obviamente, de negar o fato de que as mulheres (e as meninas) são as vítimas do machismo e da misoginia. Trata-se de ampliar a reflexão sobre o tema e perceber o quão complexa é a questão. Uma sociedade que educa as meninas para a submissão e os meninos para a violência está fadada a ver o crescimento dos índices de feminicídios e estupros. Numa sociedade em que meninos são educados para negar o feminino, a ternura, o afeto, a sensibilidade (“homem não chora”), os homens estarão cada vez mais presos a uma masculinidade tóxica.

Quem tem medo do letramento de gênero?

O que a realidade tem nos colocado é, cada vez mais, a necessidade de trabalhar o letramento de gênero com crianças e adolescentes. Mas este é um terreno de ferrenhas disputas políticas.

No campo da educação escolar, por exemplo, muitas são as iniciativas que buscam impedir ou dificultar os debates e os processos de formação sobre a questão. O caso mais recente foi a aprovação, no dia 1º de abril, da lei 19.776/2026, que “assegura aos pais e responsáveis o direito de vedar a participação de seus filhos em atividades pedagógicas de gênero no âmbito do Estado de Santa Catarina”.

A lei em questão, no seu segundo artigo, define atividades pedagógicas de gênero como aquelas que “abordam temas relacionados à identidade de gênero, à orientação sexual, à diversidade sexual, à igualdade de gênero”. Infelizmente, este não é um caso isolado e, muito provavelmente, como tem acontecido com leis similares, em breve projetos idênticos estarão sendo apresentados noutras Assembleias Legislativas e em diversas Câmaras Municipais do país.

Mas há também boas notícias!

Muitas instituições escolares (como o Colégio Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro) têm adotado medidas de proteção às juventudes e às adolescências, criando protocolos e grupos de discussão e projetos pedagógicos para enfrentar o problema de forma estruturada, promovendo debates, acompanhamento psicológico e ações educativas voltadas à convivência e ao respeito.

É interessante observar também que, muitas vezes, as iniciativas das instituições educacionais têm sido tomadas após a pressão de estudantes, como, por exemplo, o Coletivo Juventudes AntiMisoginia, do Sesi-SP. De acordo com o jornal Folha de São Paulo, no Colégio Bandeirantes, em São Paulo, e em escolas públicas da cidade de Campinas (SP) meninas e (ainda poucos) meninos têm organizado encontros, campanhas e atividades que abordam a violência de gênero, a desigualdade, a misoginia e o machismo.

Trata-se de uma questão em disputa. De um lado, os grupos conservadores e reacionários buscam impedir o debate sobre as questões de gênero. De outro, aqueles e aquelas que acreditam que é necessário vencer o medo, a dor e o sofrimento que o machismo estrutural tem nos imposto.

Os desafios são muitos. Mas há que se acreditar “nesta moçada que não foge da fera e enfrenta o leão”, como nos diz Gonzaguinha, e afirmar, com Belchior, que “o novo sempre vem”!

José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG) e membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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