O mito da ausência de negros no Ceará por muito tempo ocupou o centro da narrativa histórica no estado. Arilson Gomes, pesquisador e professor da Universidade da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), nomeia esse processo histórico como “racismo à cearense”, isto é uma dinâmica histórica e social através da qual nossa identidade negra é apagada. Dessa forma, passamos pela escola sem ouvir falar de personagens como Preta Tia Simoa, os pescadores da jangada São Pedro, entre tantos outros.
Esse desconhecimento quase total também chega ao ensino superior. Com currículos majoritariamente eurocentrados, entramos e saímos da graduação contando nos dedos os teóricos negros vistos nos cursos de graduação. Quando se chega à pós-graduação, o negro é visto como objeto de pesquisa, porém, muitas vezes, estudado por pesquisadores brancos.
Lourenço Cardoso, em sua tese de doutorado, investiga quais os porquês de o cientista branco estudar o negro-tema e esquecer-se de si. O autor afirma que “no ambiente acadêmico ser branco significa ser o cientista, o cérebro, aquele que produz o conhecimento. Enquanto ser negro significa ser o objeto analisado por ele”. Com a sua tese, Cardoso rompe esse ciclo ao deslocar o acadêmico branco do papel de investigador para o de objeto analisado por um pesquisador preto.
Foi nesse contexto que um grupo de pesquisadores das mais diversas áreas do saber reuniram-se para fundar a Rede de Pesquisadores Negres do Ceará, a REPENCE. Em evento, realizado no dia 13 de junho de 2026, como o tema De favelas, quilombos, terreiros e coragem: 300 anos da Fortaleza Negra, a Rede foi lançada fazendo um convite público para repensarmos a presença do negro como protagonista de diversos espaços: acadêmico, científico, histórico, por exemplo, outrora negados a ele em território cearense. O local escolhido para o evento, o auditório do Centro Dragão do Mar de Arte Cultura, traz em seu nome a presença do pioneirismo negro da Terra da Luz. Presenciou-se, nesse momento histórico, que o mito da inexistência de negros não se sustenta nem mesmo no embranquecido ambiente acadêmico. Uma centena de pesquisadoras e pesquisadores estiveram presentes compartilhando as suas histórias de luta e de resistência em prol do escurecimento da ciência cearense.
Vida longa à REPENCE! Que as vozes ancestrais de pesquisadores como Dr. Hilário Ferreira, Dra. Anna Erika Lima, Ma. Lucia Simão, Dra. Joselina da Silva e Dra. Kaci Gadelha ecoem e fortaleçam-se nas universidades, nos centros de pesquisas e nas agências de fomento em todo o Ceará.
*Lorena Rodrigues, é professora da rede estadual do Ceará, Doutora em Linguística e militante do Movimento Brasil Popular.
** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
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