Autorretrato do colunista. Um homem cis branco, da bigode e barba pretas, usa óculos e uma boina cinza.

Doutor, mestre, especialista e graduado em Letras. Pesquisador em Literaturas de Língua Portuguesa e Francesa, professor e escritor. Publicou, dentre outras obras, os livros: O baile das assimetrias (2022), Jornadas (2023) e Romanceiros (que recebeu o I Prêmio Literário Demócrito Rocha de 2024). Organizou Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (2024).

Contos dos corpos em movimento: ‘Inventário dos seus abraços’, de Jorge Nogueira

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Capa do livro
Inventários dos seus abraços de Jorge Nogueira pela Editora Substânsia. Foto de Émerson Cardoso

Já na segunda edição, é um livro que apresenta instigantes reflexões sobre minorias sociais, sobretudo porque seus contos exploram o universo LGBTQIAPN+

Inventário dos seus abraços, de Jorge Nogueira, foi publicado em 2023 pela Editora Substânsia.O livro apresenta doze narrativas nas quais localizamos múltiplas formas de pensar a experiência existencial homoerótica nos mais diversos cenários.

Livro de estreia de Jorge Nogueira, Inventário dos seus abraços se insere na produção literária contemporânea que tem trazido vozes representativas das minorias sociais para o debate. Nesse caso, a ênfase do autor recai sobre a discussão em torno do universo homoafetivo, com seus aspectos de afirmação e de reivindicação existenciais.

O Ceará tem apresentado uma movimentação literária cujas obras (em gêneros literários diversos) dispõem de reverberações discursivas no âmbito das experiências existenciais de pessoas homoafetivas, atribuindo-lhes espaço e protagonismo, como é o caso dos excelentes: Lucio Flávio Gondim (autor do livro de contos 24), Stênio Gardel (autor do romance A palavra que resta), Dércio Braúna (autor do livro Auto de incineração), Talles Azigon (autor do livro de poesia MARoriGINAL), Everton Rocha Balbino (autor do romance Inunda-me), Diego Gregório (autor do livro Poemas de partida e de chegada: ou os Cães não desamam), Júnior Ratts (autor do romance O homem Rivotril), Émerson Cardoso (autor do livro de contos O baile das assimetrias), dentre outros.

Quando indagado se seria pertinente situar seu livro em alguma denominação literária (como Literatura Cearense, Literatura Homoerótica ou Literatura LGBTQIAPN+), sua resposta foi incisiva e pertinente: “Sim, considero. Em um mundo ideal, não precisaríamos colocar os livros nessas “caixinhas”, mas penso que hoje ainda é necessário. Eu escrevo histórias com protagonismo LGBT+, então se algum leitor procurar por histórias assim, conseguirá localizar os meus livros mais facilmente. Mas isso não significa que escrevo só para este público. E fico muito feliz quando vejo leitores não LGBT+ lendo e gostando das minhas histórias”.

Remetendo-nos ao livro de Jorge Nogueira, consideremos que no primeiro conto, O tesão dos corpos sem cabeça, fica delineado o projeto do autor: corpos homoeróticos movem-se pela vida em busca de experiências sexuais e, também, afetivas. Nele, localizamos um narrador autodiegético que explora, pela primeira vez, o mundo das saunas (o título concentra alusão criativa a esse espaço de corpos em busca de prazeres). Envolto nessa atmosfera erótica, o narrador se dicotomiza entre o desejo e a culpa, como fica perceptível no contexto de descrição da cena de sexo, desinibida e detalhista, protagonizada por ele. A frase final do texto, no entanto, aponta para sua escolha. Entre a culpa e a vivência do desejo, ele decide por entregar-se ao desejo, independentemente da consequência, como fica circunscrito em seu último comentário (Nogueira, 2023, p. 17): “Que o inferno me espera”. A vivência do desejo, portanto, prepondera.

Por falar em desejo, no conto Divinos cogumelos ele se manifesta na experimentação de alucinógenos. Entre tocar o mundo com a sensorialidade exacerbada pela experiência da droga e tocar os corpos no desejo de prazer, o narrador autodiegético escolhe as duas coisas. Sob efeito do alucinógeno, portanto, é dado a ele: refletir sobre Deus, correr livre, nadar despido e entregar-se ao sexo coletivo (uma orgia de corpos em busca de prazeres).

Em Sávio enviadesceu, como fica nítido no título, a personagem evocada mostra dificuldade de ser quem é, sobretudo porque em uma sociedade misógina, homofóbica, preconceituosa e moralista há o medo de retaliação e de violência, mas ele encontra, aos poucos, o caminho necessário para ser ele mesmo. Antes disso, porém, Sávio está às voltas com um mundo (e nisso há certa restrição de cunho pedagógico demais e maniqueísta) dividido entre gays versus héteros.

No conto seguinte, Baby na noite, que é um dos mais bem delineados do livro, localizamos um narrador heterodiegético que apresenta a personagem evocada no título, isto é, um solitário que se move em busca de experiências sexuais, mas também de experiências afetivas (Nogueira, 2023, p. 33): “Ficava naquela espera por alguém especial que nunca aparecia”. Novamente, estão em pauta: solidão, busca noturna, expectativas afetivo-sexuais, cotidiano adoecedor e reflexões sobre a comunicabilidade (ou incomunicabilidade?) das redes sociais. Nesta perspectiva, é emblemático o que é dito pela personagem (Nogueira, 2023, p. 33): “Centenas de pessoas em minhas redes sociais, tantas interações. Por que me sentia assim?” Desse modo, no auge desses encontros e desencontros, o alguém especial surge: Baby encontra Jonas. Há esperança de afeto, portanto, para um solitário perdido na noite?

O conto que traz umas das temáticas mais instigantes no livro, A gravidade em meu corpo, trata da velhice do homem gay. Um professor aposentado rememora sua juventude e, com rancor, lamenta a velhice que lhe chegou sorrateiramente. A narrativa é criativa e consegue equilibrar conteúdo e forma, de modo que a solidão dolorida e inconformada do homem velho gay reverbera no âmbito da linguagem.

Finalmente, o conto que intitula o livro surge: Inventário dos seus abraços. Nele, são perceptíveis: reconfiguração da forma tradicional do conto, lirismo, uso de linguagem sem excessos e ausência de pretensões moralizantes. Nesse conto, há uma espécie de catalogação de abraços enquanto é apresentada uma história de amor homoafetiva que, para angústia do protagonista, passa pela experiência de finitude.

Em seguida, vem o conto Diário de um devasso. Neste conto, o mais bem delineado do livro, há um narrador autodiegético dedicado a uma espécie de reverberação confessional de suas experiências sexuais e existenciais. As narrativas apresentadas nesse diário são eróticas — também cômicas. Elas tratam de temas como: recaídas com um ex, passividade versus atividade, traição, soropositividade, aplicativos de relacionamentos, uso de drogas, solidão, carência, compulsão sexual, dentre outros.

No texto Eles nos querem mortas, o autor cria uma espécie de crônica narrativa que alude a um crime de homofobia cometido por um comerciante da cidade de Crato–CE. Com base nesse acontecimento, são apresentadas reflexões em torno dos crimes de homofobia (ainda, lamentavelmente, comuns no Ceará) e são detalhadas as ações realizadas por ocasião de um ato desenvolvido na Praça da Sé (praça principal da cidade do Crato, que fica de frente à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha, que é a padroeira da cidade). Está em pauta, nesse texto, a luta das minorias sociais para construir uma sociedade sem preconceitos.

No conto Como uma comédia romântica localizamos uma história de amor adolescente. O protagonista descobre-se apaixonado pelo melhor amigo e, desse modo, descortina-se o universo conflitante entre confessar seus sentimentos e resguardar-se por medo de não ser correspondido e perder a amizade. Com um final à moda das comédias românticas evocadas no título, Guilherme confessa seus sentimentos para Rodrigo que, como resposta, aproxima sua cadeira e diz algo em seu ouvido — estaria nesse gesto a correspondência do amor?

No conto Henrique foi para o céu?, um dos melhores no que diz respeito à técnica narrativa, o autor retoma discussões em torno de crimes de homofobia, desta feita pela voz de uma narradora-personagem que, sendo evangélica e perpassada pelos valores da crença cristã, perde o filho e busca o pastor Marcos para fazer-lhe pergunta sobre o destino espiritual de seu filho morto. Nessa perspectiva, há um momento em que ela comenta (Nogueira, 2023, p. 76): “Eu sempre falei para ter cuidado, pois os homens são cruéis, o mundo é mau. O cunhado dele disse uma vez que ele corria o risco de ser espancado ou até morto, porque o povo do Cariri é muito preconceituoso. Nunca esqueci aquilo”. A dor da mãe ante a perda do filho é reforçada por ele, que era gay, ter sido vítima de crime de homofobia e por ele correr o risco de ser condenado ao inferno.

A alusão às drogas aparece, novamente, no conto Sábado com LSD na janela. Nele, o narrador autodiegético busca na droga: ampliação da experiência ou fuga da realidade? Talvez ele busque os dois, mas também busca libertar-se do que sente por um rapaz cujo nome, como se constata no final do conto, é Felipe. Pelas rememorações, o amor ausente se faz presente. Assim, os riscos da morte se manifestam na imagem da janela convidativa e perigosa.

O último conto, Maravilhoso lapso temporal, trata de um relacionamento aberto. Estão em pauta, nesse caso, os conflitos, as incertezas e a solidão a dois implicada nesse tipo de relação. Além disso, são mencionadas: idas e vindas com o ex, choro e lirismo.

Já na segunda edição, Inventário dos seus abraços é um livro de contos que, como foi apontado, apresenta instigantes reflexões sobre minorias sociais, sobretudo porque seus contos exploram, de forma criativa, o universo LGBTQIAPN+ — este, sim, o grande tema desse livro. Como afirma Talles Azigon na orelha do livro:

Mesmo esse tema sendo constantemente explorado na história da literatura e existindo desde sempre, a vida íntima das pessoas LGBTQIAPN+ nem sempre foi tão evidente. Encoberta e restrita a representações esparsas, quase sempre negativas. Ora, se um dos caminhos para a compreensão do amor é através da ficção, da arte, da cultura, e se demorou tanto para que vozes como a de Jorge Nogueira pudessem ganhar relevância a ponto de explorar este universo, nossa percepção do amor e de como amar sempre esteve repleta de anseios, dúvidas, mistificações e atravessada de muitas violências possíveis e inimagináveis fomentadas pela ignorância do que somos e de como somos (Azigon, 2023, n.p.).

Por fim, podemos considerar que o livro de Jorge Nogueira prenuncia o talento do autor para a criação do conto (gênero narrativo que exige muito de quem escreve). Nesse livro, as narrativas apresentadas (a maioria delas) estão bem delineadas e, portanto, ele merece atenção pelos debates que proporciona e pela criatividade que demonstra ao criar essas personagens cujos corpos estão em constante movimento.

Jorge Nogueira é graduado em Biblioteconomia, pela Universidade Federal do Ceará (UFC), especialista em Pesquisa Científica, pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), e mestre em Biblioteconomia, pela Universidade Federal do Cariri (UFCA). Vencedor do concurso Diversidade e Resistência: Coletânea Literária LGBT do Ceará e do XII Edital de Incentivo às Artes da SECULT Ceará. Participou da antologia: Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (2024) e Haicai-Cariri: antologia de haicais (2025). No momento, prepara seu segundo livro de contos: Canção do riso.


NOGUEIRA, Jorge. Inventário dos seus abraços . Fortaleza: Editora Substânsia, 2023.

* Émerson Cardoso é doutor, mestre, especialista e graduado em Letras. Pesquisador em Literaturas de Língua Portuguesa e Francesa, Professor e Escritor. Publicou, dentre outras obras, os livros: O baile das assimetrias (2022), Jornadas (2023) e Romanceiros (que recebeu o I Prêmio Literário Demócrito Rocha de 2024). Organizou Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (2024).

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato. 

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Editado por: Lívio Pereira

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