O livro Um pouco de água limpa, de Liduína Benigno Xavier, é desenvolvido por uma autora que apresenta, do Ceará para o mundo, poemas que confirmam sua maestria para o uso consciente e criativo da palavra no âmbito da linguagem literária.
Poderíamos categorizar esse livro, em linhas gerais (mas sem aprisionamentos), a partir das seguintes temáticas gerais: 1) valorização da natureza com ênfase na alusão afetiva à natureza, inclusive com ênfase em sua defesa e na valorização dos animais (Um pouco de água limpa, Alvorada tropical, Quintal brasileiro, Exodus, Bicho alado, Modo mamífero de voejar, Silêncio e Passarinhada); 2) uso da metalinguagem como manifestação do lírico (Pergaminho, Moderno, Presunçosa genealogia, Modo mamífero de voejar, O que escreve, Argila poética, Quem há de dizer e Poeta-peixe); 3) aprofundamento em aspectos culturais (Mitologia brasílio-tupi-guarani, Samba, Atabaque e alguidar e Ossos à mostra); 4) retomada de componentes memorialísticos (Recuerdos, A face misteriosa, Despassarinho, De sótãos, porões e oratórios, O velho, A vizinha e Limo); 5) perscrutações filosófico-existenciais (Gaiolas, Quase flor, O que há sob o gelo, Soltas estrelas, Argila poética, O salto, Canto inexplicável, O velho, Rio-fortaleza, Insônia, Inveja, Recomeço e Divina). Ainda há o poema Semente, que é o único poema do livro que trata diretamente da temática amorosa.
Para exemplificarmos a riqueza da poesia construída pela autora, recorremos ao poema: Um pouco de água limpa (poema que intitula o livro e que figura, dentre outras possibilidades de leitura, como um pedido por algo que poderia reverter a destruição do que é vital e sagrado para a existência na Terra). Nele, podemos observar uma espécie de síntese do livro, tendo em vista que a autora discute questões filosófico-pragmáticas sobre a realidade preocupante que se descortina no incerto século XXI. Assim, enquanto aponta, criticamente, essas e tantas outras questões, a voz lírica recorre, nas camadas profundas do texto, à imagem dos quatro elementos. Com menções direta e indiretamente a eles, a voz lírica reflete acerca da realidade socioambiental sem, contudo, atribuir ao texto um discurso que privilegia o conteúdo, pois a linguagem criada mostra preocupação formal. Ela, portanto, articula os componentes estéticos capazes de ampliar a poética do texto, como percebemos com a leitura:
Um pouco de água limpa
Ter sede de nascentes
águas criando leitos
onde peixes voam vivos
como sementes nadando.
Ser sedento
do cheiro da terra
odor original de ventre e pureza
sem os grãos de veneno
envoltos na gosma
fosforescente
de macabro brilho.
Sorver o oxigênio
– pai das árvores –
seiva clorofila fotossíntese
afastando o ar ebúrneo
as fezes de cinza e carvão.
Banir a castração do ar puro
da terra sã.
Trocar o mundo de
violetas sem vaginas
de lírios sem androceu
de corrupiões sem cantiga
por água ar e solo
desoxidados
oxigenados
livres.
Sarar a terra
fazer-lhe carícias de chão
sem fingimento de plástico
comida falsa enganando
matando a areia
empanzinando bichos
sangrando plantas.
Sagrar a natureza
cuidar dela de jeito precioso
como quem protege a cuia
o crisol guardião
da derradeira porção
de água limpa.
Na primeira estrofe, a voz lírica evoca imagens aquáticas: “Ter sede de nascentes / águas criando leitos / onde peixes voam vivos / como sementes nadando”. Essas imagens aquáticas, já presentes no título, são retomadas com ênfase ao longo do texto. Na estrofe seguinte, surgem imagens alusivas à terra: “Ser sedento / do cheiro da terra / odor original de ventre e pureza / sem os grãos de veneno / envoltos na gosma / fosforescente / de macabro brilho”. A terra, nesse caso, figura como espaço necessitado de água para prosseguir sua missão sagrada de comportar vida. Na sequência, ainda nessa linha de análise, localizamos imagens de ar, conforme podemos perceber nos versos “Sorver o oxigênio” e “afastando o ar ebúrneo”. Quanto ao fogo, que aparece de forma menos explícita, ele surge no verso “as fezes de cinza e carvão” (os vocábulos “cinza” e “carvão” estão no campo semântico do fogo). De posse dos quatro elementos, por que o ser humano prefere destruir e não preservar?
Ainda acerca desse poema, que confirma a maestria da autora na articulação criativa de conteúdo e forma, é retomada uma temática premente no século XXI: o planeta Terra sofre as consequências da ignorância do ser humano que, submetido ao capitalismo (e suas amarras nefastas), tem dilapidado o que há de mais valoroso nele: a natureza e a possibilidade de vida. Faz-se necessário, conforme a voz lírica propõe: “Banir a castração do ar puro / da terra sã”. O discurso da voz lírica é direcionado para um tom de denúncia, mas isso não se dá sem a beleza da linguagem literária. Se a natureza, ante o caos e a barbárie do século, não pode existir com as benesses de que dispõe, a voz lírica, no que há de belo e de crítico, pode manifestar um grito solidário e desejoso de novos projetos existenciais — a poesia, que reivindica um pouco de água limpa, é um desses projetos mais potentes.
Diante disso, é possível afirmar: da linguagem literária às imagens poéticas, Liduína Benigno Xavier faz de sua obra um campo fértil para quem busca a escrita no que há de apuro conteudístico e formal. Essa obra está imersa, em sua totalidade, em lirismo, expressividade e força telúrica. A singeleza da poesia revela-se, nela, através do uso da metalinguagem, da valorização da metáfora, da construção de imagens poéticas que ampliam a polissemia textual e da articulação de sonoridades criadoras de aspectos melódicos de intensa beleza. Questões pontuais da existência, reflexões sobre temas universais e incursão nas profundidades da memória estão presentes em seus poemas.
É instigante perceber, por fim, a sutil ironia proporcionada pela autora em alguns poemas que, por apresentarem um olhar poético e perspicaz sobre o mundo, com seus sabores e dissabores, concentram-se no que há de subjetivo e de prático da vida. Consciente do uso da palavra trabalhada esteticamente, essa autora cearense brinda-nos com uma obra literária coerente na busca perspicaz do que há de lírico, criativo e múltiplo na abordagem de temas diversos.
Liduína Benigno Xavier é graduada em Psicologia com especialização em Escrita criativa, tem mestrado em Educação e cursos de aperfeiçoamento em produção textual, literatura e escrita criativa. Foi agraciada com o Prêmio Anna Maria Martins, na categoria de contos, concedido pela União Brasileira de Escritores de São Paulo (2022); Prêmio de Literatura Universidade de Fortaleza (2021), na categoria de crônicas; prêmio de crônicas da produtora Mirenax (2020). Além disso, foi classificada no Prêmio Carolina Maria de Jesus (2023), destaque no Prêmio Ideal Clube de Fortaleza (2023), destaque e finalista no Prêmio Off-Flip(edições 2023 e 2021). É autora dos livros: Era de pedra aquela dor (poesia), Teclado de areia (crônica) e Itinerários da Educação no Banco do Brasil (memória institucional), este último foi finalista do Prêmio Aberje em 2007.
XAVIER, Liduína Benigno. Um pouco de água limpa. Ouro Preto: Caravana, 2024.
* Émerson Cardoso é doutor, mestre, especialista e graduado em Letras. Pesquisador em Literaturas de Língua Portuguesa e Francesa, Professor e Escritor. Publicou, dentre outras obras, os livros: O baile das assimetrias (2022), Jornadas (2023) e Romanceiros (que recebeu o I Prêmio Literário Demócrito Rocha de 2024). Organizou Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (2024).
** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
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