Esportes Rebeldes

Esta coluna é coordenada por Michel de Paula Soares. Debatemos diferentes temas sociais a partir e por meio dos esportes, sempre com uma perspectiva crítica.

Feliz ano velho: Copa do Mundo, proibição, eleições e o mundo porvir

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Senegaleses fizeram a festa na vitória sobre o Equador
Senegaleses fizeram a festa na vitória sobre o Equador | Crédito: Issouf Sanogo/AFP

Não há esporte sem torcida

Caras interlocutoras, caros leitores, amigas e amigos, camaradas. A coluna Esportes Rebeldes está de volta! 

Nos separam da última publicação o hiato de um semestre. Feliz, portanto, em anunciar este retorno, com novas parcerias. Opinião, texto crítico, noticias da semana, debates e conversas, sempre às sextas, sempre à esquerda, sempre disputando a ideia do que é o esporte, para que serve o esporte.

Feliz 2026 para todos vocês. Que sejamos capazes de manter o pessimismo da razão e o otimismo da vontade, como queria Gramsci. Um ano que começou conturbado e violento. Velhas práticas coloniais das intervenções estadunidense e israelense se acumulando, entre discursos, ameaças e invasões militares, protestos populares no próprio Estados Unidos contra as práticas repressivas da polícia de imigração, protestos no Irã, fortalecimento do bloco militar anticolonial de países africanos, a Aliança dos Estados do Sahel, e tantos outros conflitos e disputas porvir. Sem contar que, em solo tupiniquim, teremos eleições presidenciais em outubro, como também eleições para as casas legislativas e para governador. Assim seguimos, atônitos, porém atentos em como tudo isso vai ressoar nas competições esportivas mundiais.  

A começar pela 23ª Copa do Mundo de Futebol masculino, entre 11 de junho e 19 de julho, que terá, como sede, a América do Norte, ou seja, estádios localizados no México, nos Estados Unidos e no Canadá. 

Contudo, vale lembrar que a maioria dos jogos, 78 entre os 104 a serem disputados, ou seja, 75% do total, será realizada nos Estados Unidos, assim como a partida final do torneio, que acontecerá em New Jersey. A abertura será feita no Estádio Azteca, Cidade do México, único estádio do mundo a receber duas finais de Copa do Mundo, palco onde foram campeões Pelé, em 1970, e Maradona, em 1986, simplesmente. 

Entre as 48 seleções participantes, 4 não poderão contar com suas torcidas na arquibancada, caso joguem em estádios estadunidenses. Isso porque Haiti, Irã, Costa do Marfim e Senegal são países que constam na lista de nações cujos cidadãos são proibidos ou fortemente restringidos de entrar nos Estados Unidos, fruto do endurecimento das políticas imigratórias mantidas pelo governo Trump. 

Espero ver, nas exibições televisionadas dessas seleções, bandeiras, camisetas, faixas e outros símbolos desses países, como forma de apoio, protesto ou rebeldia. Como escrevi em outro momento, desde o dia em que o ser humano começou a viver em comunidade, duas pessoas ou grupos se dividiram em lados opostos para disputarem algo diante de uma plateia, seja por lazer, conflito, esporte ou prazer. Não há esporte sem torcida. Ao impedir o acesso, a festa, as comemorações e a participação dos cidadãos desses quatro países, abole-se o ideal humanitário e democrático que as práticas esportivas incentivam. Mas quem ainda está falando de democracia em 2026?

 *Michel de Paula Soares é doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e coordenador da coluna Esportes Rebeldes.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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