Esportes Rebeldes

Esta coluna é coordenada por Michel de Paula Soares. Debatemos diferentes temas sociais a partir e por meio dos esportes, sempre com uma perspectiva crítica.

Grande Sertão: uma homenagem aos 20 anos do título mundial de Valdemir dos Santos Pereira 

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Sertão segura o cinturão conquistado, ao lado dos treinadores Gabriel e Ivan de Oliveira.
Sertão segura o cinturão conquistado, ao lado dos treinadores Gabriel e Ivan de Oliveira. | Crédito: Arquivo pessoal / Ivan de Oliveira

"Eu só disse que vim da Bahia comendo rapadura, comendo farinha, e que ia bater como ele nunca tinha visto."

Camaçari, Dias d’Ávila, Conceição de Almeida, São Felipe, São Sebastião do Passé, Pojuca, Alagoinhas, Nazaré das Farinhas, Ilha de Itaparica, Cruz das Almas. Essas são algumas das cidades do Recôncavo baiano responsáveis pela formação de boxeadores que, há pelo menos vinte anos, vêm obtendo destaque nacional e internacional. Mas o que acontece nessa região para que haja tantos bons boxeadores? O que há de específico na Bahia para que ela seja considerada o celeiro do boxe brasileiro?

Não há uma resposta simples. Tudo aconteceu a partir de um longo processo histórico envolvendo muitas pessoas, famílias, treinadores, dirigentes e gerações de atletas envolvidos.

E um dos pioneiros a colocar o Recôncavo baiano no mapa brasileiro do boxe foi Valdemir dos Santos Pereira, o popular Sertão. Não apenas no mapa brasileiro, mas no mapa mundial: nessa semana, exatamente no dia 21 de janeiro, completou vinte anos em que Sertão tornou-se campeão mundial pela Federação Internacional de Boxe (uma das quatro principais organizações de boxe profissional do mundo).

A coluna de hoje é sobre memória, tradição, história e uma homenagem ao Sertão e a todos que fizeram parte dessa saga.

Sertão se iniciou no boxe em sua cidade natal, Cruz das Almas, ainda muito jovem, treinando em fundo de quintal – esse espaço mítico e coletivo das casas do Recôncavo, onde nasceram também o candomblé e o samba. Iniciado por Darinho, treinador local e pioneiro do boxe na cidade, Valdemir logo chamou atenção pela força de vontade e velocidade. Realizou suas primeiras lutas ainda em Cruz das Almas, antes de se mudar para Salvador, onde passou a treinar com Luis Dórea, na renomada Academia Champion. Foi então que, em 1994, aos 19 anos de idade, Sertão foi para São Paulo, através de um acordo entre Dórea e Antônio Carollo, treinador veterano de boxe que comandava os atletas do clube São Paulo, para defender esta equipe. 

Conforme contou-me o ex-boxeador olímpico Washington Silva, amigo e conterrâneo de Sertão, hoje treinador da equipe do Corinthians, ele foi o primeiro boxeador baiano a migrar para São Paulo atrás de uma oportunidade para continuar sua carreira de boxeador, já que a capital paulistana, através de clubes, empresas privadas e prefeituras que investiam no esporte amador, oferecia bolsas e salários aos boxeadores. 

Com o fim da equipe do São Paulo, Sertão foi contratado por Servílio de Oliveira, primeiro boxeador medalhista olímpico do Brasil, para defender o clube dos bancários de São Bernardo do Campo. Logo passou a compor a equipe de São Caetano do Sul, cujo coordenador técnico era o próprio Servílio e teve, como treinador, um dos filhos de Servílio, Ivan “Pitu” de Oliveira – hoje considerado um dos principais treinadores de boxe do Brasil. Foi Pitu o responsável pela preparação de Sertão, desde sua quarta luta profissional a conquista do título mundial.

A disputa do título, em 21 de janeiro de 2006, foi contra o tailandês Fahprakorb Rakkiatgym, em Connecticut, nos Estados Unidos. 

“No dia da pesagem, ele disse que ia me pegar, me bater. Eu só disse que vim da Bahia comendo rapadura, comendo farinha, e que ia bater como ele nunca tinha visto.” 

De forma unânime, Sertão venceu por pontos, após 12 rounds.

A história de Sertão é contada no livro “Em 12 Rounds”, dos jornalistas Bruno Freitas e Maurício Dehó. Como atleta olímpico, disputou o Pan-Americano de 1999, em Winnipeg, Canadá, e os Jogos Olímpicos de Sidney, Austrália, em 2000, onde venceu a luta de estreia, perdendo logo em seguida. Em cinco anos de carreira profissional, entre 2001 e 2006, venceu 24 das 25 lutas realizadas, sendo 15 por knockout. Sua única derrota foi justamente em sua primeira defesa do título, quatro meses após a conquista.

Salve o Recôncavo baiano, Cruz das Almas e Valdemir dos Santos Pereira, o quarto brasileiro a vencer um título mundial, depois de Éder Jofre, Miguel de Oliveira e Acelino “Popó” Freitas.

Sertão é carregado nos ombros pelo treinador Ivan de Oliveira, sendo observado por Servílio de Oliveira, logo após conquistar o título mundial. | Crédito: Arquivo pessoal / Ivan de Oliveira

 *Michel de Paula Soares é doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e coordenador da coluna Esportes Rebeldes.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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