Esportes Rebeldes

Esta coluna é coordenada por Michel de Paula Soares. Debatemos diferentes temas sociais a partir e por meio dos esportes, sempre com uma perspectiva crítica.

Carta aberta à ministra Macaé Evaristo

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A ministra Macaé Evaristo em visita à Casa do Povo
A ministra Macaé Evaristo em visita à Casa do Povo | Crédito: Rodrigo Espíndola

Por meio de boxe e de outras práticas socioeducativas, buscamos nos projetar enquanto instrumento de fortalecimento da democracia participativa

A Casa do Povo, instituição sociocultural localizada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, recebeu a visita da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, na última segunda-feira, dia 26 de janeiro

Eu, na condição de coordenador da Associação Boxe Autônomo, um dos coletivos que ocupa a Casa, tive a oportunidade de participar de uma conversa aberta com a ministra. Trago aqui o texto que pronunciei, na ocasião, e na íntegra, como forma de registro de nossa atuação e relevância:

Em um mundo em franca desglobalização, onde a construção de fronteiras rígidas e a produção da diferença racial continuam a estruturar as relações e contornos geopolíticos, gostaria de ressaltar algumas qualidades dessa casa que vos recebe e da nossa comunidade Boxe Autônomo. 

Primeiro, é preciso lembrar que, no Brasil, o boxe nasceu nos quilombos urbanos, assim como a capoeira.

Toda equipe de boxe precisa fundar uma casa, um lugar, um terreiro, onde seja possível instaurar sua comunidade. E hoje nossa casa é o Bom Retiro, esse bairro multiétnico que se desenvolveu, no coração de São Paulo, enquanto uma experiência muito única de cidade; e a Casa do Povo, que neste ano comemora 80 anos de atuação educacional e política. 

Aqui, e apesar de todas as contradições com as quais lidamos, nos cuidamos. Cuidamos da saúde do corpo, aprendemos a se proteger, a proteger o coletivo, a si próprio e ao irmão; a enfrentar a própria fragilidade e, principalmente, a conquistar alguma forma de disposição para se viver uma vida digna. E apesar de todas as dificuldades, oferecemos uma possibilidade de educação, lazer, além de habilitação profissional e oportunidade de emprego. 

Agimos em consonância com o Programa Nacional de Direitos Humanos, buscando atuar a partir do reconhecimento da educação não formal como espaço de defesa e promoção dos direitos humanos. 

Por meio de boxe e de outras práticas socioeducativas, buscamos nos projetar enquanto instrumento de fortalecimento da democracia participativa, pautados nos princípios da inclusão social, promoção de um ambientalmente cultural, regionalmente diverso, participativo e não discriminatório, visando a garantia dos Direitos Humanos de forma universal, indivisível e interdependente. 

Da mesma maneira, também acreditamos no potencial da Casa do Povo em ajudar a criar relações e laços de amizade e respeito, encorajando, assim, o cultivo desses mesmos valores. 

Nossa metodologia aplicada é pautada nos princípios da “educação popular”, com ênfase no investimento qualitativo e na valorização da participação e da experiência. Além do mais, captamos e capacitamos novos talentos para a formação competitiva de alto rendimento. Oxalá teremos um atleta formado por nós nos Jogos Olímpicos de 2028, e esse atleta chama-se Kelvy Alecrim, que veio da comunidade do Moinho, onde atuamos antes de fixar residência.

Assim, em um país fundado na segregação espacial, onde há uma evidente separação quanto ao espaço físico ocupado por opressores e oprimidos, o Boxe Autônomo e sua casa, a Casa do Povo, apontam outro sentido para o que significa habitar, ocupar um espaço, construir um território possível. 

*Michel de Paula Soares é Doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e responsável pela coluna Esportes Rebeldes.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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